Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

A última lição

Tenho lido, a propósito da morte de Sottomayor Cardia, vários textos elogiosos para com o homem e sua obra. Elogios certamente merecidos, embora não esteja habilitado para os corroborar ou desmentir: a minha idade só me permite ter dele uma vaga memória enquanto político.

 

Contudo, há um episódio de que me recordo, e que vi pouco abordado por estes dias. Um episódio triste. Foi o da sua pré-candidatura às eleições presidenciais de 1996, ou melhor, a forma como esta foi recebida.

 

“A última loucura de Sottomayor Cardia”, apareceu então escarrapachado na primeira página de um jornal ou de uma revista (já não me lembro de qual). Frase assassina, que ridicularizou o homem e liquidou as suas intenções. Este foi um dos pontos mais baixos do jornalismo português, e não sei se os jornalistas responsáveis por este título lhe chegaram alguma vez a pedir desculpa.

 

Sottomayor Cardia dificilmente seria presidente. Mas, atendendo às suas qualidades pessoais e à sua obra (como agora se tem lido), era certamente presidenciável. Nada mais legítimo do que pretender candidatar-se a umas eleições que, no papel, são suprapartidárias.

 

Tirei várias lições deste episódio. Primeira: não basta a um homem ser sério e ter um currículo abonatório para evitar enxovalhos. Segunda: uma candidatura presidencial que emane da sociedade civil tende a ser ridicularizada. Terceira: só são levados a sério os candidatos presidenciais envolvidos na política partidária e/ou que contem com o apoio de um dos partidos estabelecidos.

 

Em suma, e salvo raríssimas excepções, a abertura das nossas eleições à sociedade não passa de uma treta. Foi isto que aprendi com Sottomayor Cardia. Que descanse em paz.

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:57
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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2006

Cinco contra um

Reflexões sobre as eleições presidenciais, também conhecidas como as eleições do "cinco contra um".

A carne no assador. Dificilmente seria possível, neste momento, reunir um melhor naipe de candidatos presidenciais. O PSD e o PS apresentaram as suas maiores referências vivas. O PCP e o BE avançaram com os seus líderes. Manuel Alegre, embora excêntrico à direcção, é uma das mais gradas figuras do PS. Com a possível excepção de António Guterres (2016?), podemos dizer que os partidos puseram a carne toda no assador.

Praça da Alegria, Largo do Rato. Especular sobre um novo partido fundado por Manuel Alegre é apenas vontade de jogar conversa fora. Alegre obteve o resultado perfeito: mostrou que tem peso político, deixou de ser visto como um lírico inconsequente, impôs-se ao partido sem contudo o submeter à violência de ter que o apoiar numa segunda volta. O PS ganhou-lhe respeito, mas não lhe ganhou ódio. Passou a ter vida própria (e a ser ouvido!) dentro do PS - o que não é pouco num partido com um líder forte e com uma maioria absoluta.

Génios e idiotices. "Só um idiota é que julga que tudo o que um génio faz é genial", garantia Sthendal. Não é por ter perdido umas eleições que Mário Soares verá a sua biografia rescrita. Pode ser penoso para quem está de fora ver um jogador a arrastar-se pelos campos. Mas, para o próprio, se calhar é gratificante saber que ainda é capaz de jogar. Mário Soares já fez o que tinha de fazer para a História. Deixem agora que ele se divirta.

Sabor autêntico. Na direcção do PCP, Jerónimo de Sousa é um comunista ortodoxo como muitos, mas genuíno como poucos. Não nos procura impingir o comunismo, antes procura demonstrar que a sua vivência não lhe permitiria ser outra coisa senão comunista. Terá bons resultados enquanto não cansar.

A erecção de Adão. "O que é que Adão disse a Eva aquando da sua primeira erecção? Eva, sai da frente que eu quero ver até onde é que isto vai". A piada é brejeira, e não consta que Eva se tenha afastado para muito longe. Ao cuidado do Bloco de Esquerda.

Garcia Pereira. Garcia Pereira é Garcia Pereira. Ponto final parágrafo.

Big pond, small fish. Porque é que o CDS-PP não apresentou candidato? Porque preferiu ser um peixe pequeno num grande lago vencedor do que um peixe grande numa poça claustrofóbica. O ónus de impedir a eleição, pela primeira vez, de um presidente da "não esquerda" ter-lhe-ia sido fatal.

No rules, great regime? Em menos de um ano, caíram duas "regras" do nosso regime: o PS não consegue ter maiorias absolutas e a "direita" não consegue eleger um presidente. Sinal de vitalidade do regime, ou de que as soluções se estão a esgotar? Ao cuidado de Sócrates e de Cavaco.

publicado por Carlos Carvalho às 02:42
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No llores por mí...

louca-evita.JPG

"Não vos faltarei"

Nota: Frase retirada do discurso de Louçã na noite eleitoral, no qual garantiu aos fiéis que, apesar das derrotas de hoje, estão para breve os amanhãs que cantam.

publicado por Carlos Carvalho às 00:53
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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2006

O sorriso de Jardim

Uma das pessoas que tem mais razões para sorrir com o resultado das presidenciais é Alberto João Jardim.

Jardim vai finalmente concretizar um dos seus grandes objectivos: ver o Sr. Silva suspenso do partido!

publicado por Carlos Carvalho às 20:53
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Vitória

CAVACO.jpg

É a vitória da tolerância. É a vitória da liberdade.

publicado por Carlos Carvalho às 01:45
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Domingo, 22 de Janeiro de 2006

Comunista nunca perde

Por muitas eleições que ocorram em Portugal, há um facto que nunca muda: por muito maus que sejam os resultados, os comunistas nunca perdem eleições.

Esta máxima, normalmente dirigida ao PCP, passa a partir de agora a ser dirigida ao Bloco de Esquerda.

Jerónimo ganhou. O PCP pode por isso para cantar vitória.
Louçã perdeu. Nada que impeça o BE de nos tentar atirar poeira para os olhos.

publicado por Carlos Carvalho às 23:05
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Aviso ao governo

É certo que legislativas são legislativas, presidenciais são presidenciais. Mas é também certo que há comparações que não podem deixar de ser feitas.

O PS obteve 45,1% dos votos nas últimas legislativas. Vejamos o que aconteceu nas presidenciais:
- 22% dos que então votaram no PS dispuseram-se a votar em candidatos não oriundos do PS;
- 46% dos que então votaram no PS votaram num candidato socialista não apoiado pelo seu partido;
- Só 32% daqueles votantes é que continuaram a votar no candidato proposto pelo partido.

Ou seja, dois terços dos que votaram no candidato do PS para primeiro-ministro não votaram no candidato proposto pelo PS para Presidente. Cerca de um quarto votou mesmo em candidatos de outras áreas políticas.

Se isto não é um aviso ao governo, então não sei o que é um aviso ao governo.

Quem te avisa teu amigo é?

publicado por Carlos Carvalho às 22:48
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Tangente irónica

Cavaco Silva foi eleito Presidente à tangente, com uma percentagem de votos inferior à que tinha conseguido anteriormente para as legislativas.

Se então ganhou contra tudo e contra todos, agora precisou do apoio decisivo do CDS para se conseguir eleger.

Não deixa de ser irónico: Cavaco Silva, que nunca foi um entusiasta da coligação PSD-CDS (e para o fim da qual contribuiu), beneficiou do último esforço de entendimento resultante desta coligação já enterrada.

Cavaco estará feliz por ter ganho, mas ficou com um ligeiro amargo de boca. É que, a partir de hoje, o CDS está em condições de lhe dizer: "Lembra-te de quem te fez presidente".

publicado por Carlos Carvalho às 21:52
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Domingo, 15 de Janeiro de 2006

Souto Moura à primeira

Souto Moura adiou a sua ida ao Parlamento. Só na sexta-feira é que dará explicações aos deputados sobre o caso das facturas detalhadas. Donde se conclui que Souto Moura acredita na eleição de Cavaco Silva logo na primeira volta.

Com efeito, não é crível que Souto Moura seja demitido antes de ir ao Parlamento. Ora, mesmo que a suas explicações não venham a convencer ninguém, não é provável que Sampaio demita Souto Moura dois dias antes das eleições presidenciais.

Caso Cavaco Silva seja eleito presidente no próximo domingo, Sampaio passará desde logo à sua fase de lame duck. Nesta fase, a demissão do procurador-geral da República, ainda que formalmente possível, não deixará de ser considerada eticamente ilegítima.

Acresce a isto que Souto Moura deixará irremediavelmente de ser procurador-geral a breve trecho, pelo que a sua demissão será interpretada apenas como uma manobra para que Sampaio possa ainda nomear o seu sucessor.

Quem criticou tão veementemente as nomeações feitas (por exemplo) pelo governo de Santana Lopes já depois das legislativas, não poderá deixar de criticar as nomeações que Sampaio venha a fazer após as presidenciais.

Por isso, ao adiar por três dias a sua ida ao Parlamento, Souto Moura poderá ter assegurado a sua não demissão. O que prova que percebe mais de política do que muitos querem admitir.

publicado por Carlos Carvalho às 23:58
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006

Dupont & Dupont

Ouvi ontem na rádio os tempos de antena de Manuel Alegre e de Mário Soares. Verifiquei que a única coisa que os distinguia era o nome dos candidatos.

Ambos presenteavam o ouvinte com um hino de campanha foleiro, ambos recorriam ao testemunho de actores e desportistas, ambos anunciavam as próximas actividades de campanha, ambos apontavam a promoção da igualdade como principal objectivo, ambos repudiavam o fosso crescente entre ricos e pobres.

Nada distinguia estes dois tempos de antena. Nem a estrutura nem a mensagem.

Quanto à estrutura, ambos recorreram a um modelo de tempo de antena já demasiadamente batido para poder ter alguma eficácia. Sinal de que os candidatos provêm da mesma velha escola, ou então de que simplesmente não estão dispostos a despender dinheiro em coisas tão comezinhas como uma campanha de rádio.

Quanto à mensagem, ambos recorreram aos mesmos argumentos e aos mesmos apelos. Sinal de que os candidatos provêm da mesma família, ou então de que simplesmente não estão dispostos a despender neurónios em coisas tão comezinhas como uma campanha presidencial.

Nota: Só ouvi estes dois tempos de antena, pelo que não sei se há mais Duponts por aí.

publicado por Carlos Carvalho às 01:18
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Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2005

Chuva e mentiras

Por este andar, se amanhã Cavaco Silva disser "bom dia!", e se por acaso estiver a chover, não faltará quem o venha apelidar de mentiroso...
publicado por Carlos Carvalho às 01:03
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2005

Direita, abstenção e debates

É já bastante conhecido o argumento de que a existência de múltiplas candidaturas à esquerda contribui para diminuir a abstenção neste sector político. Concordo com o argumento.

Menos discutida tem sido a abstenção à direita. Para este eleitorado, não há nenhuma candidatura particularmente entusiasmante: todos os candidatos são de esquerda, pelo que lhe resta optar pelo menos esquerdista de todos: Cavaco Silva. Admito por isso que muitos eleitores de direita se encontrem divididos entre Cavaco e a abstenção.

Apesar da hagiografia oficial, creio que Cavaco é um dos políticos mais hábeis (em todos os sentidos) que Portugal conheceu após o 25 de Abril - nesta campanha, talvez só Mário Soares se lhe possa comparar (mas sem nunca o compreender).

"The biggest trick of the devil is to convince people that he does not exist", diz a expressão anglo-saxónica. Mal comparado, a maior habilidade de Cavaco é convencer as pessoas de que não é político, e de que não tem qualquer interesse na política.

Embora lhe reconheça honestidade e competência, não simpatizo particularmente com todas as facetas da imagem que Cavaco nos quer dar de si.

No entanto, após o debate Cavaco - Soares, e perante a baixeza que este último candidato por vezes atingiu, sinto-me mais motivado do que antes para votar Cavaco. Após este debate, a escolha deixou de ser apenas ideológica e racional, passando também (sobretudo?) a ser emocional e pessoal.

Escolher entre Cavaco e Soares passou a ser escolher entre educação e falta de chá, entre objectividade e narcisismo, entre respeito e arrogância.

Propostas e ideologias à parte, há duas condições sine qua non para quem quer ser presidente: respeitar os outros e ser respeitável. Ao escolher atacar tão rasteiramente Cavaco, Soares facilitou a escolha à direita: a escolha deixou de estar no campo da ideologia para passar a estar sobretudo no campo do carácter.

Se antes do debate a direita ponderava votar a favor de Cavaco, após o debate a direita passou a querer votar contra Soares.

Arrisco por isso dizer que, com este debate, Mário Soares perdeu mais do que ganhou. Pode eventualmente ter reforçado a sua posição à esquerda, mas contribuiu decisivamente para reduzir a abstenção à direita – aumentando o universo de votantes e o número daqueles que não irão votar em si.

Soares até pode ter ganho votos com este debate, mas seguramente que perdeu percentagem de votação.

publicado por Carlos Carvalho às 03:05
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Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005

Elvis contra Soares

"A little less conversation, a little more action please
All this aggravation ain't satisfactioning me
A little more bite and a little less bark
A little less fight and a little more spark
Close your mouth and open up your heart and baby satisfy me
Satisfy me baby"

Elvis Presley - A Little Less Conversation

publicado por Carlos Carvalho às 01:01
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Conversa e trabalho

Mário Soares abisma-nos a todos com a sua cultura, bem como com a quantidade impressionante de livros que já devorou. Por outro lado, acusa Cavaco Silva de ser um bicho fechado no seu buraco, nunca tendo lido nem escrito nada fora do seu pequeno mundo. "Não tem conversa", disse.

Curiosamente, um homem tão inculto como Cavaco Silva deu-se ao trabalho de escrever a sua autobiografia (dois volumes), enquanto que um homem tão culto como Mário Soares o máximo que conseguiu fazer foi dar uma entrevista a uma jornalista.

Cá está: o homem pode ter conversa, mas deixa sempre o trabalho para os outros.

publicado por Carlos Carvalho às 00:59
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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2005

Emoções fortes

Se há lugar que não cobiço neste momento é o de responsável pelas finanças das campanhas de Louçã ou de Jerónimo. Este é um cargo verdadeiramente impróprio para cardíacos.

Segundo as sondagens, estes candidatos têm oscilado em torno da fasquia dos 5%. Pois esta é precisamente a fasquia que determina a existência ou não de apoios públicos às suas candidaturas presenciais.

Se Louçã e Jerónimo tiverem 5,0001% dos votos, terão direito a que o Estado apoie financeiramente as suas campanhas. Mas se tiverem 4,9999% dos votos, não terão direito a qualquer apoio público, dando às suas candidaturas a dor de cabeça de procurar meios alternativos para pagar as suas campanhas (tendo provavelmente que recorrer aos cofres dos partidos que os apoiam).

Houve ultimamente diversos apelos para que os vários candidatos de esquerda desistam em favor de uma única candidatura. Desconfio que, nos casos de Louçã e de Jerónimo, a resposta a este apelo será mais de índole prática do que ideológica.

Se as sondagens lhes derem, consistentemente, resultados abaixo dos 5%, qualquer destes candidatos ponderará seriamente a sua desistência. Se lhes derem margem de manobra para aspirar a um resultado superior a 5%, então estes candidatos não desistirão.

Como em tudo na vida, neste caso os princípios estão dependentes dos meios.
Há dinheiro? Então siga a ideologia...

publicado por Carlos Carvalho às 02:40
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Basílio Soares

Mário Soares já fez em tempos o papel de Mário Soares.

É triste vê-lo agora a fazer o papel de Basílio Horta.

publicado por Carlos Carvalho às 02:04
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Sábado, 26 de Novembro de 2005

Paulo Portas, 1996

"Fez o Prof. Cavaco Silva qualquer esforço para unir o centro e a direita? Do meu ponto de vista não. Mas entendo que, apesar de o candidato ter sido indiferente aos eleitores da direita, é preciso responder à pergunta mais simples e mais difícil. Que fazer?

Para a direita, Cavaco Silva é um estranho, mas Jorge Sampaio é um adversário; Cavaco Silva quer os nossos votos mas não quer as nossas ideias, Jorge Sampaio não precisa dos nossos votos e tem ideias contrárias às nossa.

Combati o Prof. Cavaco Silva em Portugal como poucas pessoas, mas não faço da minha vida política um ressentimento permanente ou um ajuste de contas. O cavaquismo foi julgado, foi condenado e não tem recurso.

O centro e a direita não têm culpa que a direita não tenha um candidato e que o candidato do centro seja aquele que mais combateu a direita. Temos de estar à altura dos eleitores mais do que dos candidatos e é por isso que eu escolherei o mal menor. Jorge Sampaio está à esquerda da esquerda, Cavaco Silva está à esquerda da direita. Há uma diferença que me permite dizer que a direita nestas eleições não escolhe, elimina.

A conclusão é óbvia: eliminarei, como cidadão eleitor, a candidatura do Dr. Jorge Sampaio e escolherei o mal menor, que, nestas eleições, é a candidatura do Prof. Cavaco Silva.

Faço um gesto que, efectivamente, me custa mais do que muita coisa neste mundo, porque penso que há um mal menor e um mal maior.

Tenho muita pena que não haja um candidato da direita nestas eleições. Tenho muita pena! Estou limitado à escolha que se me apresenta, não tenho outra."

Paulo Portas, 1996-01-11

publicado por Carlos Carvalho às 03:38
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Eanes a Presidente!

eanes.jpg

Ramalho Eanes ainda está a tempo de se candidatar a Presidente da República. Tem a seu favor vários argumentos.

Em primeiro lugar, é uma figura incontornável da nossa democracia. Ramalho Eanes é um dos pais do regime. Ninguém poderá contestar que, se hoje vivemos em democracia, muito se deve à sua actuação corajosa e determinada.

Por outro lado, tem experiência política. Ramalho Eanes já foi Presidente, pelo que ninguém duvidará que terá a capacidade de o ser outra vez. Para além disso, foi durante a sua presidência que o regime se estabilizou. Poderá ser acusado de, no final do seu mandato, ter tentado beneficiar politicamente os seus correligionários, mas qual o Presidente que não pode ser acusado do mesmo?

Dirão os detractores da sua candidatura que Ramalho Eanes não traria nada de novo ao país. Dirão que a Presidência não pode ser vista como uma espécie de recompensa pelo seu passado político, mas como um cargo determinante para o futuro do país. Dirão que o que Ramalho Eanes fez então é importante, mas o que é determinante é o que se propõe fazer agora.

Os seus detractores dirão tudo isso.

Não creio que Mário Soares venha a estar entre os seus detractores...

publicado por Carlos Carvalho às 02:19
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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2005

A Vénus de Milo

mario soares.jpg

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
Álvaro de Campos

publicado por Carlos Carvalho às 20:20
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O binómio de Newton

cavaco.jpg

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
Álvaro de Campos

publicado por Carlos Carvalho às 20:18
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2005

Soares Carmona

soares carmona.JPG

Na campanha para a câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues atacou Manuel Carrilho, acusando-o de ser filósofo. Na campanha para a Presidência, Mário Soares tem atacado Cavaco Silva, acusando-o de ser economista.

Num país em que tanto se clama contra a baixa formação dos seu cidadãos, parece estar na moda atacar candidatos a eleições por serem professores universitários.

Tal como a presidência de uma câmara municipal não é uma coutada reservada a engenheiros civis, também a Presidência da República não pode ser vista como uma coutada exclusiva para juristas. Aliás, entendo que a capacidade de um cidadão para exercer um cargo político depende mais das suas características pessoais do que da sua formação académica.

Claro que, havendo formação académica (seja ela qual for), esta só poderá ser bem-vinda. Quem acha que um torneiro mecânico pode ser Presidente da República não pode desdenhar da candidatura de um economista.

publicado por Carlos Carvalho às 00:05
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

Cavaco, 1992

Considera ainda a política "a pirueta, o floreado, a retórica"? Palavras suas.
Da campanha eleitoral, com certeza?

Da pré-campanha.
De um período de luta, portanto. Repare, quando fui eleito presidente do PSD, em 1985, os portugueses estavam cansados de um excessivo verbalismo, de promessas vãs, de políticos muito hábeis em jogadas palacianas. Procurei, de facto, tirar benefícios desse estado de espírito, do desejo de outro estilo e de outros métodos.

O dr. Mário Soares começou a fazer-lhe uma espécie de fronda.
(...) Como primeiro-ministro, considero que a atitude do Presidente da República não justifica reparos significativos. De resto, não me pronuncio sobre o assunto. O Presidente da República e o primeiro-ministro têm de dar uma imagem de estabilidade ao País.

O que não impede que o dr. Mário Soares seja cada vez mais o centro da oposição.
Quando o Governo e o primeiro-ministro entendem que o Presidente da República se está a substituir à oposição devem tratar do caso com ele próprio e nunca, nunca, na praça pública.

O prof. Adriano Moreira disse, em 1987, que a sua maioria tinha transformado o regime num presidencialismo do primeiro-ministro. Se for eleito Presidente da República e essa maioria continuar, passamos ao presidencialismo puro. Ou não?
Não. A Constituição não permite.

Suponha que é Presidente da República, que nomeia o primeiro-ministro, que assiste aos Conselhos de Ministros...
Só por convite do primeiro-ministro.

Um primeiro-ministro do PSD, nomeado por si, certamente que o convidaria...
Não acredito. De maneira nenhuma. Defendo o espírito e a letra da Constituição. Não se pode torcer a Constituição ao sabor das conjunturas eleitorais.

Mas, nesta hipótese, a letra da lei seria respeitada, a prática é que mudaria.
Com péssimos resultados. Sempre que o Presidente da República, seja ele quem for, membro do partido do poder ou chefe do partido da oposição, interferir nas competências do governo cria inevitavelmente instabilidade no País. O Presidente deve ficar confinado às suas funções. Cabe ao governo conduzir a política geral do País. O Presidente não dispõe dos instrumentos necessários para o fazer e, se o fizer, fá-lo-á por força pela negativa...

Excepto na hipótese que lhe pus.
Mesmo nessa hipótese, o Presidente depressa entraria em conflito com o primeiro-ministro. Quando sair deste lugar, espero que quem me suceder, do PSD ou não, não prescinda das suas competências.

[Que] riscos internos [corre Portugal]?
Precisamos de uma oposição forte. Se ela não existir, aumentam as peregrinações ao Palácio de Belém para pedir ao Presidente da República que faça o que não lhe compete; ou aumentam as manifestações de rua. Prefiro a oposição partidária no seu lugar próprio: na Assembleia.

Cavaco Silva (entrevistado por Vasco Pulido Valente), revista K, 1992

publicado por Carlos Carvalho às 01:24
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2005

Cavaco e o Benfica

cavaco.JPG

Diz-se (para os lados da Luz) que só há dois tipos de adeptos de futebol em Portugal: os benfiquistas e os antibenfiquistas.

Na presente caminhada para Belém, parece só haver dois tipos de candidaturas: a cavaquista e as anticavaquistas.

Cavaco falará de si. Os outros falarão (sobretudo) de Cavaco.

publicado por Carlos Carvalho às 01:49
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2005

Publicidade comparativa

"'Publicidade comparativa': publicidade que identifica, explícita ou implicitamente, um concorrente ou os bens ou serviços oferecidos por um concorrente"

"A publicidade comparativa é autorizada quando se reunam as seguintes condições:

  • Não ser enganosa (...);
  • Comparar bens ou serviços que (...) têm os mesmos objectivos;
  • Comparar objectivamente uma ou mais características essenciais, pertinentes, comprováveis e representativas desses bens e serviços (...);
  • Não desacreditar ou depreciar (...) um concorrente;
  • Não retirar partido indevido do renome de (...) um concorrente."

Extractos das directivas 97/55/CE e 84/450/CEE

Pelo que se tem visto (e que ainda se vai ver!), é pena que estas directivas não se apliquem a campanhas eleitorais...

publicado por Carlos Carvalho às 00:54
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005

Os gauleses

irredutiveis.jpg

publicado por Carlos Carvalho às 01:26
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Sábado, 15 de Outubro de 2005

Consenso mole

Consenso.JPG

Francisco Louçã afirmou candidatar-se à Presidência da República para combater o "consenso mole", seja lá o que isso for. Assume-se assim como que uma espécie de Viagra do consenso: com ele, o consenso será duro.

Uma questão: como pode haver consenso se alguém está contra?

Os portugueses não deixarão certamente de reagir a esta candidatura. Planeiam até refazer um antigo ditado popular: "Consenso mole em cabeça dura, tanto bate até que fura"...

publicado por Carlos Carvalho às 20:45
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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005

Soares "Uber Alles"

Pela segunda vez consecutiva, Mário Soares violou a lei eleitoral portuguesa. Deu-se ao luxo de citar sondagens e de apelar ao voto num candidato à saída de um local de votação.

A reincidência no acto e o peso político de Mário Soares não lhe permitem alegar como atenuante o desconhecimento da lei. Também não me parece que se trate de um sintoma de senilidade. A sua atitude foi mais a de quem, conhecendo a lei, se está a borrifar para ela. Parece presumir que está acima de qualquer punição séria.

Percebe-se agora melhor a afirmação de Manuel Alegre, que disse apresentar-se como candidato presidencial por ser republicano. Um dos princípios básicos da ética republicana é o de que ninguém está acima da lei, independentemente do seu estatuto, origem, classe ou condição.

Mário Soares afirma-se republicano. Com atitudes destas, percebe-se que fala da boca para fora.

Pode alguém que presume estar acima da lei ser Presidente da República?

publicado por Carlos Carvalho às 01:49
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Sábado, 1 de Outubro de 2005

Cenário delirante

Aviso prévio: qualquer semelhança entre o que se lê neste artigo e a realidade será pura coincidência.

Consideremos o seguinte cenário, puramente especulativo:

1. Santana Lopes concorre às eleições presidenciais.

2. Cavaco Silva concorre às eleições presidenciais.

3. Nenhum dos outros candidatos (Mário Soaes, Manuel Alegre, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Garcia Pereira) retira a sua candidatura.

4. Verifica-se a seguinte votação na 1ª volta:
Cavaco Silva: 33%
Santana Lopes: 22%
Mário Soares: 21%
Manuel Alegre: 15%
Jerónimo de Sousa: 4%
Francisco Louçã: 4%
Garcia Pereira: 1%

5. Consequentemente, a 2ª volta é disputada por Cavaco Silva e Santana Lopes.

Neste cenário, em quem recomendarão o voto os candidatos preteridos na 1ª volta?

Será que Mário Soares, Manuel Alegre, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Garcia Pereira iriam recomendar o voto em Cavaco Silva - precisamente o candidato contra o qual se candidataram?

Ou será que recomendariam o voto em Santana Lopes - de quem disseram cobras e lagartos ainda há menos de um ano?

Enfim, deixemo-nos de delírios...

publicado por Carlos Carvalho às 16:50
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Terça-feira, 13 de Setembro de 2005

O fim de dois mitos?

Atendendo às candidaturas presidenciais conhecidas, há dois mitos da nossa democracia que a Esquerda quer fazer desaparecer com esta eleição.

1.º Mito: Candidaturas suprapartidárias
Mandava a boa etiqueta presidencial que os candidatos (pelo menos os principais) fossem considerados acima dos partidos. A candidatura era vista como uma decisão eminentemente pessoal, a que o partido de origem do candidato acabava (ou não) por aderir.

Nenhum dos candidatos conhecidos avançou por iniciativa própria. Todos eles avançaram por indicação das direcções dos seus partidos. Sem este apoio, nenhum teria avançado. Donde se conclui que as suas candidaturas são, na sua origem e na sua essência, eminentemente partidárias.

Neste momento, só Cavaco Silva tem condições para apresentar uma candidatura suprapartidária: a sua candidatura depende apenas da sua vontade, e em nada depende da posição que a direcção do PSD venha a ter sobre ela. Alguém acha que Cavaco Silva precisa da anuência de Marques Mendes para avançar?

2.º Mito: Presidente de todos os portugueses
Todos os candidatos conhecidos apresentaram um argumento em comum para se candidatarem: combater Cavaco Silva. Partindo do princípio de que não são movidos por questões pessoais, conclui-se que o seu objectivo é combater os portugueses que entendam votar em Cavaco.

Ora, se estes portugueses são tão execráveis ao ponto do seu combate ser a principal justificação para as suas candidaturas, só com muita cara de pau é que qualquer um dos candidatos conhecidos (se eleito) se poderá intitular presidente de todos os portugueses.

Mais uma vez, só Cavaco tem condições para se tornar no presidente de todos os portugueses, simplesmente porque será o único que não se candidatará contra qualquer sector da sociedade.

publicado por Carlos Carvalho às 19:39
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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2005

Aborto e Presidenciais

É conhecida a intenção do PS de convocar um referendo sobre o aborto antes das próximas eleições presidenciais. É certo que tal poderá trazer algumas vantagens ao PS. Mas terá também alguns inconvenientes.

Vantagens:

1. Exploração de eventuais interacções entre as duas votações
O referendo sobre o aborto é uma das grandes bandeiras da esquerda. A campanha a favor do sim poderá originar o cerrar de fileiras à esquerda. Dada a proximidade das presidenciais, este cerrar de fileiras poderá ainda fazer sentir-se à data destas eleições. Ou seja, o referendo poderá fixar eleitorado à esquerda, o que poderá ter consequências na escolha presidencial.

2. Dividir as águas
Ao tornar o tema do aborto relevante durante a pré-campanha presidencial, o PS obrigará os candidatos a pronunciarem-se, inequivocamente, sobre este assunto. A posição que estes tomarem poderá ser determinante para o resultado da eleição presidencial. Todos conhecem a posição de Mário Soares. Qual será a posição de Cavaco Silva?

3. Desviar as atenções
É cada vez mais evidente o desgaste do governo, pelo que o PS procurará por todos os meios desviar as atenções da governação até à conclusão do presente ciclo eleitoral. A realização do referendo entre as autárquicas e as presidenciais será benéfica para o PS. Por um lado, ajudará a fazer esquecer eventuais desaires nas eleições autárquicas. Por outro, ajudará a fixar muito do seu eleitorado descontente antes das eleições presidenciais.

Inconvenientes:

1. Divisão do centro
Como qualquer outra eleição, as presidenciais irão ser ganhas ao centro, que é onde a divisão sobre o aborto é maior. O problema de Mário Soares é estar actualmente demasiado à esquerda. A esquerda está ganha, o centro é que é incerto. Se fizer uma campanha muito activa pelo sim, Mário Soares poderá cativar parte do centro, mas acabará por afastar grande parte do eleitorado fundamental para a sua vitória.

2. Conflito de naturezas
O tema do aborto gera sempre discussões acaloradas e com tendência para a radicalização. O perfil presidencial desejável vai no sentido oposto: quer-se para presidente alguém que seja um moderador e gerador de consensos. Ou seja, o envolvimento excessivo de um candidato no referendo poderá comprometer a sua imagem de presidenciável.

3. O tema
É verdade que o referendo sobre o aborto pode contaminar a eleição presidencial. Mas a inversa também é verdadeira. O aborto é um tema suficientemente sério para ser discutido de per si, sem interferências de outros assuntos que poderão deturpar o resultado do referendo.

publicado por Carlos Carvalho às 22:50
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