Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

País relativo

De Alexandre O’Neill. Aqui.

tags:
publicado por Carlos Carvalho às 04:17
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 6 de Abril de 2007

Devorado

A alegria de ser eleito

A alegria de ser notado

A alegria de ser perfeito

A alegria de ser devorado

 

Alexandre O’Neill

 

tags:
publicado por Carlos Carvalho às 23:39
link | comentar | favorito
Terça-feira, 20 de Junho de 2006

História triste

“De todas las historias de la Historia
la más triste sin duda es la de España
porque termina mal.”
 
Jaime Gil de Biedma
 
Nota: Poema completo disponível aqui.
 
publicado por Carlos Carvalho às 01:46
link | comentar | favorito
Sábado, 7 de Janeiro de 2006

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos.

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com os melhores desenhos na louça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

publicado por Carlos Carvalho às 22:59
link | comentar | favorito
Domingo, 20 de Novembro de 2005

Ora porra!

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

Álvaro de Campos

publicado por Carlos Carvalho às 00:54
link | comentar | favorito
Terça-feira, 1 de Novembro de 2005

Terramoto

"Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants
Sur le sein maternel écrasés et sanglants?
Lisbonne, qui n'est plus, eut-elle plus de vices
Que Londres, que Paris, plongés dans les délices?
Lisbonne est abîmée, et l'on danse à Paris."

Voltaire, in Poeme sur le desastre de Lisbonne (1756)

tags:
publicado por Carlos Carvalho às 16:53
link | comentar | favorito
Terça-feira, 27 de Setembro de 2005

Um poema para a campanha

Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,
E não se cura por fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto - eu, que as vou comer a ambas?


Alberto Caeiro

publicado por Carlos Carvalho às 22:52
link | comentar | favorito
Sábado, 26 de Fevereiro de 2005

Receita para fazer um Herói

"Receita para fazer um Herói", de Reinaldo Ferreira

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

tags:
publicado por Carlos Carvalho às 19:24
link | comentar | favorito
Sábado, 12 de Fevereiro de 2005

Um poema de Alberto Caeiro

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para quê te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

 

publicado por Carlos Carvalho às 18:56
link | comentar | favorito

.autor

. Carlos Carvalho

. cesaredama@sapo.pt

.pesquisar

.artigos recentes

. País relativo

. Devorado

. História triste

. Aniversário

. Ora porra!

. Terramoto

. Um poema para a campanha

. Receita para fazer um Her...

. Um poema de Alberto Caeir...

.arquivo

.sugestões

.sugestões

blogs SAPO

.subscrever feeds