Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007

A forca e as imagens

Algumas notas sobre o enforcamento de Saddam Hussein (e respectivos vídeos):

 

A pena. Sou contra a pena de morte. No entanto, ela existe em vários sistemas judiciais, como o iraquiano. Dada a natureza dos crimes e a biografia do ditador, este só poderia ser condenado à pena máxima. Estranho seria que tal não sucedesse: quem no Iraque terá cometido mais e maiores crimes do que Saddam Hussein? Este tinha, desde a sua captura, um encontro marcado com a forca.

 

O método. Por paradoxal que possa parecer, o visionamento do enforcamento pode vir a melhorar a imagem deste método de execução junto de certas opiniões públicas. Afinal o enforcamento não é como o vemos nos filmes. Afinal o enforcado não demora uma eternidade a morrer, nem morre por asfixia. Quando bem executado, o enforcamento é um método rápido e (quase) indolor de matar alguém.

 

Televisões e Internet. A generalidade das televisões recusou-se a mostrar o momento do enforcamento. O que não impediu o seu visionamento por milhões de pessoas: o vídeo está disponível na Internet. Dia após dia cresce a sua importância enquanto fonte de informação. Não tardará a encostar as televisões à parede: fará sentido uma televisão “censurar” estas imagens quando estas estão à disposição de quem as quer ver – alienando assim muitos espectadores? Temo que a concorrência com a Internet obrigue as televisões, a curto prazo, a deixar de lado muitos dos seus escrúpulos, bem como a baixar a fasquia dos seus critérios editoriais.

 

Câmaras e telemóveis. Quem, num primeiro momento, viu o vídeo oficial, ficou com a ideia de que a execução tinha decorrido com alguma dignidade. Quem viu a seguir o vídeo feito com um telemóvel não pôde ficar com a mesma impressão. A evolução e vulgarização tecnológicas tornam cada vez mais difícil o fabrico de verdades oficiais.

 

Matem o mensageiro. Filmar um enforcamento com um telemóvel é um acto mórbido. Mas foi graças a esta filmagem que ficámos a saber o que verdadeiramente aconteceu. Foi graças a ela que a versão oficial pôde ser desmentida. Eis como um acto perverso pode ser também um exercício de cidadania. Acresce que, aparentemente, quem filmou não foi quem humilhou Saddam. Reacção das autoridades iraquianas (e de boa parte da opinião pública mundial)? Matem o mensageiro! Apontou-se o dedo a quem fez o filme, deixou-se em paz quem humilhou. Como se o problema não fosse a humilhação, mas a sua exibição. Fica demonstrado, uma vez mais, o poder das imagens – e o poder detido por quem as conseguir controlar.

 

publicado por Carlos Carvalho às 03:43
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Quinta-feira, 10 de Agosto de 2006

Hard Talk

Excelente entrevista de Binyamin Netanyahu ao programa Hard Talk, da BBC. Disponível aqui.
publicado por Carlos Carvalho às 04:23
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Sábado, 5 de Agosto de 2006

Ezequiel

20 Recebi de Javé a seguinte mensagem:
 
21 «Criatura humana, olha agora para Sidon e profetiza contra ela,
 
22 dizendo: Assim diz o Senhor Javé: Aqui estou Eu contra ti, Sidon. Serei glorificado dentro de ti; todos reconhecerão que Eu sou Javé, quando fizer justiça contra ti, manifestando a minha santidade.
 
23  Mandarei a peste contra ti, e o sangue escorrerá pelas tuas ruas. Dentro de ti, os feridos irão morrendo, cercados pela espada do inimigo. Então ficarão a saber que Eu sou Javé».
 
24 «Para a casa de Israel não haverá mais espinho que fira ou ferrão doloroso, entre todos os seus vizinhos que a desprezam. Então ficarão a saber que Eu sou Javé.
 
25 Assim diz o Senhor Javé: Quando Eu reunir os israelitas do meio dos povos por onde se espalharam, vou mostrar entre os israelitas a minha santidade diante das nações. Então eles voltarão para a sua Terra, a Terra que dei ao meu servo Jacob.
 
26  Nela habitarão com segurança, construirão casas e plantarão vinhas. Habitarão em segurança, quando eu executar a minha sentença contra os vizinhos que os ameaçam. Então eles ficarão a saber que Eu sou Javé, o seu Deus».
 
Ez 28, 20-26
 
publicado por Carlos Carvalho às 03:29
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Terça-feira, 1 de Agosto de 2006

Cessar-fogo

Parece-me haver três situações em que as partes beligerantes aceitam falar de um cessar-fogo.
 
Uma ocorre quando o conflito chega a um impasse e, à falta de uma vitória, resta a ambas as partes contentarem-se com um empate.
 
Outra ocorre quando “dá jeito” suspender momentaneamente os conflitos, seja para acudir aos atingidos, para evacuar populações ou para observar certas datas (como a noite de Natal nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial).
 
Finalmente, uma terceira situação ocorre quando uma parte está claramente a ganhar o confronto, e outra parte a perdê-lo. Só neste caso é que faz sentido falar de um cessar-fogo incondicional.
 
Vários governantes libaneses, ao mesmo tempo que reconhecem a sua impotência militar, têm pedido um cessar-fogo incondicional a Israel. Confesso que não entendo este pedido. É que um cessar-fogo incondicional é algo que os mais fortes pedem, e/ou que os mais fracos oferecem. O Líbano quer um cessar-fogo incondicional? Então que comece por anunciar um cessar-fogo da parte do Hezbollah.
 
Este pedido passa bem nas televisões, e dá aos seus autores uma aura pacifista. No entanto, quem o analise com mais detalhe sabe que não é para ser levado a sério.
 
Em primeiro lugar, os governantes libaneses pedem que Israel cesse incondicionalmente os seus ataques sem fazerem o mesmo pedido ao Hezbollah. Porque não o fazem? Porque não podem (o que os torna irrelevantes nesta guerra)? Ou porque não querem (o que os torna uma parte envolvida no conflito)?
 
Em segundo lugar, o cessar-fogo pedido é tudo menos incondicional. Os governantes libaneses querem que Israel desista da guerra, que se sente à mesa das negociações, que faça uma troca de prisioneiros e que se retire de territórios que dizem pertencer ao Líbano. Ou seja, a parte mais fraca está a pedir à mais forte que se declare derrotada, e que ceda a todas as exigência feitas pelo Hezbollah aquando do rapto dos soldados israelitas - aumentando assim o poder e a influência desta organização na região. Isto vindo de quem nem sequer controla o próprio país...
 
Para haver um cessar-fogo é necessário que todas as partes estejam dispostas a aceitá-lo. Para haver um cessar-fogo incondicional é necessário que uma das partes se dê como vencida, restando-lhe negociar com os vencedores os termos da rendição. Tudo o demais é fogo-de-artifício, muito útil para entreter diplomatas, jornalistas e comentadores, mas que nada tem que ver com a realidade.
 
publicado por Carlos Carvalho às 20:39
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Segunda-feira, 31 de Julho de 2006

Silicone

A cobertura noticiosa de cenários de guerra, em que as deslocações dos jornalistas são bastante controladas, exige destes um forte sentido de autocontrolo, para que não se transformem em meros retransmissores de propaganda alheia e para que não passem ao lado da realidade.

 

As reportagens feitas em zonas controladas pelo Hezbollah a que vamos assistindo parecem, regra geral, clones umas das outras. Têm todas declarações “espontâneas” de populares, a amaldiçoar a América e Israel. Têm todas gente aos saltos e aos berros, jurando querer devotar o resto das suas vidas à causa do Hezbollah. Têm todas as mesmas ambulâncias, convenientemente acabadas de partir rumo a mais uma emergência. São tão parecidas que parecem resultar do mesmo guião. A questão é: quem anda a escrever este guião?

 

Como referiu Anderson Cooper na reportagem aqui citada, muitas das imagens que nos são servidas à hora do jantar não são espontâneas, nem resultam do trabalho apurado de um qualquer cameraman. Pelo contrário, são encenações da realidade servidas de bandeja aos repórteres, para que estes possam captar imagens apelativas sem muito trabalho.

 

Desconfio que os escrúpulos da maioria dos jornalistas não os impeçam de usar estas imagens. Como diz muito marialva a propósito do silicone no peito das senhoras, mais vale uma boa imitação do que um mau original. Neste caso, mais vale uma boa imagem encenada do que uma má imagem espontânea, sobretudo quando a primeira passa bem pela segunda.

 

Pode até acontecer que a encenação não se afaste muito da realidade. Pode até ser que um pouco de silicone televisivo torne a reportagem mais apelativa, a ainda por cima mais fácil de realizar. Mas esta opção tem riscos, riscos que os jornalistas deviam ponderar se vale a pena correr.

 

Um risco é o da imparcialidade. Qualquer encenação é feita por alguém, e em benefício desse alguém. Recorrer à encenação em vez da realidade leva a que os jornalistas acabem por passar pelo menos parte da propaganda debitada pelos encenadores.

 

Outro risco é o da intensidade. Não haverá muitas diferenças entre as imagens de uma ambulância em missão de socorro e as de uma ambulância que está à espera da chegada dos jornalistas para ligar as sirenes e arrancar para mais uma volta ao quarteirão. Não haverá muitas diferenças entre as imagens de manifestantes espontâneos e as de “populares” incentivados a manifestarem-se por militantes do Hezbollah (que se recusam a ser filmados). Tal como não há muitas diferenças entre uma perdiz morta por um caçador que passou todo o dia a calcorrear montes e vales e uma perdiz posta à frente de um caçador confortavelmente instalado para que este possa dar um tiro. O problema é que as primeiras situações obrigam ao esforço, e ocorrem com menor frequência, ao passo que as segundas dão uma ilusão de intensidade que tem pouco de real.

 

Por último, corre-se o risco da credibilidade. Optar entre o espectáculo em detrimento da realidade pode ser apelativo, e garante quase sempre imagens mais expressivas. Só que o público acabará, mais cedo ou mais tarde, por desconfiar dos jornalistas, passando a encarar as notícias como simples entretenimento. Nada que muitos responsáveis televisivos secretamente não desejem…

 

Nas reportagens que nos vão chegando do Médio Oriente, bem como de outras partes do mundo em conflito, quanto é real e quanto é silicone? Urge responder a esta pergunta, para que a dúvida sobre algumas das partes não nos leve a duvidar do todo.

 

publicado por Carlos Carvalho às 02:06
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Sábado, 29 de Julho de 2006

Visita guiada

COOPER (voice-over): Drive into southern Beirut, and you quickly discover another city entirely. A heavily bombed state within a state, beyond the control of the Lebanese government.

 

This is Hezbollah territory. Along the road posted like billboards, pictures of so-called martyrs, Hezbollah fighters who died battling Israel.

 

(on camera) You can drive around. It doesn't seem like there's anybody around. All of a sudden your eyes, it's almost like adjusting to the darkness. Suddenly, you realize there are people who are watching you and guys on motorcycles talking on cell phones who pass you by, watching very closely what you're doing.

 

(voice-over) Tension in this neighborhood is high. Many here are convinced Israel is sending in agents to help guide their aerial attacks.

 

(on camera) Not allowed to enter Hezbollah territory really without their permission. They control this whole area, even after the sustained Israeli bombing campaign. We've arranged with a Hezbollah representative to get permission to come here. We've been told to pull over to the side of the road and just wait.

 

(voice-over) We'd come to get a look at the damage and had hoped to talk with a Hezbollah representative. Instead, we found ourselves with other foreign reporters taken on a guided tour by Hezbollah. Young men on motor scooters followed our every movement.

 

They only allowed us to videotape certain streets, certain buildings. Once, when they thought we'd videotaped them, they asked us to erase the tape. These men are called al-Shabab, Hezbollah volunteers who are the organization's eyes and ears.

 

(on camera) You see their CD's on the wall still.

 

Hezbollah representatives are with us now but don't want to be photographed. They'll point to something like that and they'll say, "Well, look, this is a store." The civilians lived in this building. This is a residential complex.

 

And while that may be true, what the Israelis will say is that Hezbollah has their offices, their leadership has offices and bunkers even in residential neighborhoods. And if you're trying to knock out the Hezbollah leadership with air strikes, it's very difficult to do that without killing civilians.

 

As bad as this damage is, it certainly could have been much worse in terms of civilian casualties. Before they started heavily bombing this area, Israeli warplanes did drop leaflets in this area, telling people to get out.

 

The civilian death toll, though, has angered many Lebanese. Even those who do not support Hezbollah are outraged by the pictures they've seen on television of civilian casualties.

 

(voice-over) Civilian casualties are clearly what Hezbollah wants foreign reporters to focus on. It keeps the attention off them. And questions about why Hezbollah should still be allowed to have weapons when all the other militias in Lebanon have already disarmed.

 

After letting us take pictures of a few damaged buildings, they take us to another location, where there are ambulances waiting.

 

(on camera) This is a heavily orchestrated Hezbollah media event. When we got here, all the ambulances were lined up. We were allowed a few minutes to talk to the ambulance drivers. Then one by one, they've been told to turn on their sirens and zoom off so that all the photographers here can get shots of ambulances rushing off to treat civilians. That's the story -- that's the story that Hezbollah wants people to know about.

 

(voice-over) These ambulances aren't responding to any new bombings. The sirens are strictly for effect.

 

When a man in a nearby building is prompted to play Hezbollah resistance songs on his stereo, we decide it's time to go.

 

Hezbollah may not be terribly subtle about spinning a story, but it is telling perhaps that they try. Even after all this bombing, Hezbollah is still organized enough to have a public relations strategy, still in control enough to try and get its message out.

 

Transcrição de uma reportagem de Anderson Cooper, emitida na CNN em 2006-07-24, no programa ANDERSON COOPER 360º (sublinhados meus).

 

publicado por Carlos Carvalho às 23:33
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Quinta-feira, 27 de Julho de 2006

Como o mundo árabe vê o conflito

“Any Arab who wants to negotiate with Israel in the future will be ridiculed, because he will be told that the only way to extract concessions from the Jews is by waging war.”

 

publicado por Carlos Carvalho às 01:39
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Visado pela censura

É frequente ouvirmos nas reportagens oriundas do Líbano que o Hezbollah não permite que se filmem certos locais, e que leva os repórteres a visitar outros. Não me espantaria se algo parecido ocorresse do lado israelita.

 

Como é habitual nos cenários de guerra, os repórteres buscam (alguma) protecção junto dos beligerantes. Como é habitual nestes cenários, os militares (com ou sem aspas) controlam os movimentos dos jornalistas, não lhes permitindo que passem certas informações e incentivando-os a passarem outras. Como é habitual nestas situações, os jornalistas têm de aceitar a censura que lhes é imposta para poderem realizar o seu trabalho. Como infelizmente começa a ser habitual, o público consumidor destas notícias não é informado sobre a existência desta censura.

 

No antigo regime existia censura em Portugal, mas pelo menos esse facto era conhecido dos consumidores de notícias. Não havia informação livre, mas todos sabiam que existia censura, pelo que quem via, lia ou ouvia notícias sabia que estas correspondiam a uma versão enviesada da realidade. Nas reportagens de guerra actuais também a informação não é livre, mas raramente se dá disso conhecimento ao público. O enviesamento persiste, mas o público não é alertado para esse facto.

 

Não será obrigação dos media informar que determinada reportagem não foi produzida com total liberdade? Não estarão os media a colaborar com os censores ao não revelarem que determinada reportagem foi censurada?

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:04
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Quarta-feira, 26 de Julho de 2006

Nada de novo

A invasão do Líbano pelas tropas de Israel é uma acção terrorista e provocatória, criminosa, contra os povos libanês e palestiniano, em violação declarada e deliberada de um país soberano, em violação das resoluções da ONU e da comunidade internacional. Trata-se de uma operação programada e publicitada pelos próprios dirigentes de Israel, operação esta que se insere na estratégia do imperialismo americano, de que Israel é uma peça, um agente de não pouca importância.

 

Esta acção criminosa contra um país independente, desencadeada dentro dos moldes e propaganda nazis, não era possível sem o apoio dos Estados Unidos. A operação de agressão e invasão militar pelas tropas de Israel, semeando a morte e a destruição na capital e no Sul do País, esta operação, dizíamos, não surge isoladamente.

 

Sob a cínica palavra de ordem «Paz na Galileia!», o que Israel pretende é o extermínio, o genocídio dos patriotas libaneses, palestinianos e sírios.

 

O Partido Comunista Português exprimiu a sua solidariedade com o povo palestiniano, com o povo do Líbano, com o povo sírio e demais povos árabes que fazem frente à agressão imperialista e sionista e lutam pela independência nacional, pelo progresso e pela paz. O PCP insiste que só a exigência da retirada imediata e incondicional das tropas sionistas do Líbano pode pôr cobro a esta agressão de chacina e destruição contra as populações civis do Líbano. Toda a população vítima desta agressão impõe a sua suspensão imediata e a retirada das tropas agressoras.

 

Pela nossa parte sublinhamos, mais uma vez, que uma paz justa e duradoura no Médio Oriente só é possível com a retirada de Israel de todos os territórios árabes ocupados desde 1967 e com o respeito pelos direitos do povo palestiniano, incluindo o da edificação do seu próprio estado independente e soberano em território da Palestina.

 

Outras forças políticas e sociais do nosso país já condenaram esta invasão do Líbano, independente e soberano, e reclamam que lhe fosse posto termo.

 

A situação criada pela criminosa agressão das tropas sionistas no Sul do Líbano, com a invasão deste país, violando a sua soberania e independência, é uma situação que põe em causa a paz na região do Médio Oriente e em todo o mundo.

 

Mas em Bona, em Roma e agora até em Nova Iorque, no coração do próprio imperialismo (com a gigantesca manifestação de ontem), os povos, os homens, as mulheres, os jovens, as crianças dizem «não à morte», «sim à vida», não a tal política, não à política de guerra dos Reagans, Tatcher e seus lacaios Begins e companhia. Esta é a voz da vida e da paz, que acabará por vencer.

 

Resumo de uma intervenção de Alda Nogueira (PCP) na Assembleia da República, 1982-06-14.

 

publicado por Carlos Carvalho às 23:18
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Ventos e tempestades

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, declarou que "aqueles que semeiam ventos colhem tempestades". Sábias palavras, infelizmente não seguidas pelo próprio. Se as seguisse, talvez reparasse que a actual ofensiva israelita tem pouco de vento, e muito de tempestade…

 

publicado por Carlos Carvalho às 05:01
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Sábado, 22 de Julho de 2006

A gota de água

Penso ser pacífico considerar que a operação militar israelita estava preparada há já algum tempo, à espera do dia em que fosse necessário recorrer a ela. Israel conteve-se enquanto assistia ao descarrilar do processo de paz. Conteve-se enquanto assistia ao manter (reforçar?) do arsenal do Hezbullah. Conteve-se enquanto sofria frequentes atentados terroristas. Mas achou que já não se podia conter mais quando operacionais do Hamas e do Hezbollah entraram em território israelita para raptar três soldados.

 

À primeira vista, estes raptos parecem coisa pouca, e a reacção de Israel desmesurada. Contudo, começamos a mudar de opinião se olharmos para estes raptos não como um acto isolado, mas como a gota de água que fez transbordar o copo.

 

Israel não pode dar de si uma imagem de fraqueza e de vulnerabilidade. Por isso, há limites que não podem ser ultrapassados.

 

Perante a actual situação, Israel tem três opções: aceitar que o copo transborde (o que lhe seria fatal), contentar-se com o retirar da última gota (talvez a solução mais rápida para esta crise) ou exigir que o copo se esvazie mais um pouco (o que poderia prolongar a situação actual, garantindo embora uma “paz” mais duradoura).

 

Já agora: fala-se em constituir uma força internacional para servir de tampão entre Israel e o sul do Líbano. Apetece perguntar: que países estariam em condições de contribuir com militares para esta força?

 

publicado por Carlos Carvalho às 01:29
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Terça-feira, 18 de Julho de 2006

Especulações israelitas

É irresistível especular sobre o que Israel pretende com esta demonstração de força, dado o resgate dos soldados israelitas parecer mais um pretexto do que um objectivo (será que Israel recuaria se os soldados em questão fossem abatidos?). Especulemos então.

 

1. Nos últimos tempos, Israel procurou cumprir aquilo que a comunidade internacional lhe exigia. Mesmo quando não encontrou boa vontade das outras partes, avançou unilateralmente. Este “bom comportamento” de Israel não lhe trouxe mais segurança. Pelo contrário, serviu para reforçar os extremistas, que puderam cantar vitória e assim reforçar a sua popularidade, sem se verem obrigados a abandonar as suas teses mais radicais. A comunidade internacional pediu a paz. Israel aceitou o pedido. As outras partes não. Resultado: a comunidade internacional retirou apoio às outras partes, e deu rédea solta a Israel.

 

2. Israel sentiu que o clima internacional está a seu favor. Decidiu por isso pôr em marcha uma ofensiva há muito planeada. O rapto dos soldados foi o detonador aguardado.

 

3. Na troca de territórios por paz, Israel deu os territórios, os outros deram a palavra. Palestinianos e Hezbollah voltaram atrás com a sua palavra. Israel demonstra agora que também pode voltar a ocupar os territórios devolvidos.

 

4. Israel quer demonstrar que o Hezbollah não só não está a desarmar-se como, pelo contrário, tem um arsenal cada vez maior e mais sofisticado. O governo do Líbano não controla o sul do país, nem as suas forças armadas controlam a fronteira com Israel. Esta é uma guerra curiosa: a guerra de um estado contra um partido.

 

5. Israel quer responsabilizar a Síria e o Irão por esta crise, por estarem a armar o Hezbollah.

 

6. Israel não permitirá que o Irão entre no clube nuclear (literalmente, “só por cima do seu cadáver”). Israel não acredita no sucesso das negociações que a comunidade internacional quer promover. Com esta iniciativa, Israel está um passo mais perto de bombardear Teerão, e demonstra que não hesitará em fazê-lo se necessário. O Irão diz querer a guerra. Israel quer demonstrar que está preparada para ela. “Your move”, é o que Israel está a dizer ao Irão.

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:01
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Sábado, 15 de Julho de 2006

Estrada de Damasco

A violência volta a fermentar no Médio Oriente. Mais uma vez, Israel e vizinhos estão num estado de quase guerra. Após a vitória eleitoral do Hamas, defendi aqui que cabia a esta organização o ónus da paz. O tempo parece dar razão aos que sempre julgaram que com o Hamas no poder a paz seria mais difícil. Com isto, muitas das simpatias internacionais transferiram-se para o lado israelita, ou pelo menos hesitam defender uma organização tão pouco recomendável. Quando um soldado israelita foi raptado, muitos acharam compreensível a resposta de Israel.

 

Mas será que um rapto vale uma guerra? Não perderá Israel a razão com uma resposta tão desproporcionada? Não estará assim a alienar as simpatias recém-conquistadas?

 

Parece que no Médio Oriente é necessário recorrer ciclicamente à violência para reavivar o gosto pela paz. Mas para que esta regresse é preciso conter a violência dentro de certos limites. É preciso que quem se converteu à guerra não chegue a tais extremos que se veja impossibilitado de se reconverter à paz. É preciso não bombardear a estrada de Damasco.

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:03
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Sexta-feira, 14 de Julho de 2006

Resposta proporcional

BARTLET: It’s been 72 hours. That’s more than three days since they blew him out of the sky. And I’m tired of waiting dammit! This is candy ass! We are going to strike back today. What have we got?

 

FITZWALLACE: Three retaliatory strike scenarios. All three scenarios are comprehensive, meet the obligations of proportional response and pose minimal threat to U.S. personal and assets...    

 

BARTLET: What is the virtue of a proportional response?

 

LEO: It’s what we do, it’s what we’ve always done.

 

BARTLET: Well, if it’s what we do, if it’s what we’ve always done, don’t they know we’re going to do it? They did that, so we did this, it’s the cost of doing business, it’s been factored in, right? Am I right or am I missing something here?

 

FITZWALLACE: No sir, you’re right sir.

 

BARTLET: Then I ask again, what is the virtue of a proportional response?

 

FITZWALLACE: It isn’t virtuous Mr. President. It’s all there is sir.

 

BARTLET: It is not all there is.

 

FITZWALLACE: Pardon me Mr. President, just what else is there?

 

BARTLET: A disproportional response. Let the word ring forth from this time and this place, you kill an American, any American, we don’t come back with a proportional response, we come back with total disaster!

 

GENERAL: Are you suggesting we carpet-bomb Damascus?

 

BARTLET: General, I am suggesting that you and the rest of the national security put together a U.S. response scenario that doesn’t make me think we are just docking somebody’s damn allowance!

 

FITZWALLACE: This strike would be seen at home and abroad as a staggering overreaction by a first time Commander in Chief. That without the support of our allies, and without Congress, you’ll have doled out a five thousand dollar punishment for a fifty buck crime sir. Mr. President, the proportional response doesn’t empty the options box for the future, the way an all out assault--

 

BARTLET: Thank you. I honestly don’t know what the hell we’re doing here.

 

THE WEST WING - "A PROPORTIONAL RESPONSE" - Autor: AARON SORKIN

 

publicado por Carlos Carvalho às 23:29
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Quinta-feira, 30 de Março de 2006

Salários em Israel

Há dias, houve uma notícia sobre a campanha eleitoral em Israel que me despertou a atenção: o partido trabalhista deu nesta campanha um grande destaque às questões salariais.

 

Há salários em Israel? Mas afinal os israelitas discutem questões como a educação, o sistema de saúde, a situação económica, as reformas, a luta contra a corrupção, as leis laborais ou o nível salarial?

 

Por muito informados que nos julguemos, nunca associamos a discussão destes temas com Israel. Isto apesar da discussão estes temas ser importante em qualquer democracia, e frequentemente determinante para os resultados eleitorais.

 

Quando o tema é Israel ou a Palestina, a nossa mente parece estar formatada para presumir que tudo gira em torno da ocupação ou do terrorismo. Nada mais parece importar. Raramente temos a humildade de reconhecer que aquilo que nos interessa não coincide com os interesses das populações locais.

 

Em Israel e na Palestina há mais vida para além do terrorismo e da ocupação. O facto de não nos interessarmos por ela não faz com que esta vida cesse. Faz apenas com que tenhamos uma interpretação enviesada do que se está a passar. E dos resultados eleitorais.

 

PS: cf. este artigo, no Margens de Erro

publicado por Carlos Carvalho às 01:49
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2006

O ónus da paz

Porque é que Arafat nunca fez a paz com Israel? Porque não podia e porque não queria. Não podia porque para fazer a paz é preciso controlar as tropas - por muito carismática que fosse a sua liderança, Arafat não controlava verdadeiramente todas as facções palestinianas. Não queria porque tal significaria trazer para a ribalta questões domésticas que a "guerra" mantinha na penumbra - e que lhe poderiam custar a liderança.

O seu desaparecimento levou a um maior entendimento entre palestinianos e israelitas, mas levou também a que o seu partido fosse derrotado. Sem um líder carismático, e com um papão menos assustador, o Fatah viu expostas a sua corrupção e a sua má governação. Nada mais natural, perdeu as eleições.

É agora a vez do Hamas governar os destinos da Palestina. O problema é que este movimento, mais radical, não goza da popularidade internacional do partido de Arafat. Esta vitória não deixará de originar mixed feelings em muito boa gente que, embora apoie incondicionalmente a causa palestiniana, se opõe firmemente ao terrorismo - sobretudo quando promovido pelo estado.

Não é claro qual o caminho que o Hamas irá seguir. Mas parece-me haver apenas duas alternativas.

A primeira é imitar Sharon (e a OLP) na sua trajectória do extremismo para a moderação. Sharon, que fez a guerra, tornou-se no principal advogado da paz. Será o Hamas capaz de fazer o mesmo?

A segunda é pegar nas suas doutrinas mais radicais e torná-las política de estado. Se assim fizer, o Hamas será apontado como o principal responsável pela instabilidade no Médio Oriente, correndo mesmo o risco de ver a Palestina tratada como um estado pária - e de ver a simpatia internacional transferir-se em massa para o lado israelita.

A partir destas eleições, o ónus da paz passou para o lado dos palestinianos.

publicado por Carlos Carvalho às 01:28
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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2006

Deus é grande?

Aquando do primeiro internamento de Ariel Sharon, então por problemas cardíacos, foi noticiado o júbilo de palestinianos e israelitas mais radicais, opositores extremos das suas políticas. Muitos chegaram mesmo a rezar para que Sharon não recuperasse.

Agora que Sharon saiu de cena, o pior que poderá acontecer - a Israel e à Palestina - é ver estes extremistas na rua a gritar: "Deus é grande! Deus ouviu-nos!".

publicado por Carlos Carvalho às 00:00
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Sábado, 29 de Outubro de 2005

Connect the dots

Blondesgame.jpg

 

1. O Irão pretende desenvolver um programa de energia nuclear, apesar das suas amplas reservas petrolíferas.

2. O presidente iraniano quer varrer Israel do mapa. "Se Deus quiser, poderemos em breve viver num mundo sem os EUA e sem Sionismo", disse.

publicado por Carlos Carvalho às 18:18
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