Domingo, 7 de Janeiro de 2007

Criança

Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas porque deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, porque deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança isolada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.

 

Bernardo Soares – O Livro do Desassossego

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:01
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Segunda-feira, 17 de Julho de 2006

Calor

"O calor, como uma roupa invisível, dá vontade de o tirar."
 
Bernardo Soares, “O Livro do Desassossego”.
 
publicado por Carlos Carvalho às 01:08
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Quarta-feira, 1 de Março de 2006

Pessoa por escrever

A Biblioteca Nacional começou a disponibilizar on-line os originais de Fernando Pessoa. Para já, estão disponíveis os manuscritos e dactiloscritos do heterónimo Alberto Caeiro.

Mais do que contribuir para divulgar a obra do poeta, esta iniciativa serve sobretudo para elucidar o grande público sobre as discussões em torno da sua fixação. Nunca como agora foi possível ao leitor comum aceder directamente aos originais, pelo que teve sempre de aceitar os textos fixados pelos mais diversos especialistas e assistir "de fora" à troca de argumentos entre eles. Porquê tantas versões do mesmo poema? Porquê a troca de ordem de alguns versos? Porquê discutir se estamos perante um único poema ou perante dois poemas distintos?

Já sabíamos - pelo que nos iam dizendo - que a esmagadora maioria da obra de Pessoa não estava pronta para ser publicada aquando da sua morte. Para além de ter uma caligrafia quase ilegível, Pessoa era um escritor desorganizado. Assim, a publicação póstuma das suas obras implicou um trabalho hercúleo de pesquisa, decifração e organização dos originais. Nesse processo, houve que tomar várias opções, algumas complicadas. Vários especialistas optaram por uma intervenção mais "intensiva", de modo a apresentar ao público um Pessoa mais legível. Outros optaram por uma intervenção mais "minimalista", o que garante uma maior fidelidade aos originais mas transforma Pessoa num poeta mais fragmentário.

A Biblioteca Nacional permite-nos agora ter uma opinião mais fundamentada sobre esta discussão. E permite-nos também compreender melhor os argumentos de ambos os lados - dificultando o tomar de partido por um deles.

Com esta iniciativa, o leitor comum passa a compreender melhor que, por muitos anos que passem, por muitos livros que se editem e por muitos especialistas que se disponham a estudar os originais, haverá sempre uma decisão editorial discutível, uma variante duvidosa, um verso de atribuição incerta. Com esta iniciativa, o leitor comum passa a compreender que haverá sempre um Pessoa por escrever. E por conhecer.

publicado por Carlos Carvalho às 01:08
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Sábado, 7 de Janeiro de 2006

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos.

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com os melhores desenhos na louça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

publicado por Carlos Carvalho às 22:59
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Domingo, 20 de Novembro de 2005

Ora porra!

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

Álvaro de Campos

publicado por Carlos Carvalho às 00:54
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Terça-feira, 27 de Setembro de 2005

Um poema para a campanha

Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,
E não se cura por fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto - eu, que as vou comer a ambas?


Alberto Caeiro

publicado por Carlos Carvalho às 22:52
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Terça-feira, 5 de Julho de 2005

Defeitos de pontuação

"O ter tocado nos pés de Cristo não é desculpa para defeitos de pontuação."

Bernardo Soares, "Livro do Desassossego"

publicado por Carlos Carvalho às 21:11
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Sábado, 12 de Fevereiro de 2005

Um poema de Alberto Caeiro

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para quê te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

 

publicado por Carlos Carvalho às 18:56
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