Terça-feira, 6 de Dezembro de 2005

Vícios e Padres

A Igreja Católica anunciou recentemente a sua intenção de impedir a ordenação de padres com tendências homossexuais. Este anúncio, que causou muita polémica, foi por muitos considerado ilógico: o que interessa a orientação sexual do padre se este está obrigado ao celibato?

Por estranho que possa parecer, interpreto esta medida como um sinal de coerência e de precaução, e mesmo de preparação para o futuro.

Coerência
A Igreja vê a homossexualidade como um pecado, como um vício de carácter. Assim, nada mais lógico do que impedir o acesso ao sacerdócio daqueles que têm uma tendência manifesta para viver de forma viciosa e pecaminosa.

Faz todo o sentido discutir o princípio de que a homossexualidade é um pecado. Já não faz tanto sentido discutir, isoladamente, uma medida que a Igreja tomou em consonância com esse princípio.

Precaução
Há que ter em conta que a regra do celibato não é aplicável a todos os padres. Não sei se a medida agora tomada é extensível às igrejas uniatas, que em muitos casos autorizam o casamento dos seus sacerdotes. Mas mesmo no seio da Igreja Católica Romana há vários padres casados: basta que se tenham casado antes de se converterem (baptizarem).

Esta possibilidade tem servido para integrar na igreja romana vários sacerdotes oriundos de igrejas protestantes, sem que para isso tenham que renunciar ao seu casamento. Nos últimos tempos, várias destas igrejas têm ordenado sacerdotes declaradamente homossexuais, e que vivem em união com o seu parceiro. Com a evolução das leis civis, não tardará muito até que muitas destas igrejas venham a celebrar, também elas, casamentos homossexuais.

Com a medida agora tomada, a igreja romana poderá estar a prevenir-se contra a possibilidade de antigos sacerdotes protestantes, com casamentos homossexuais legalmente reconhecidos, poderem vir a ser ordenados padres.

Preparação para o Futuro (wishful thinking)
Por mais estática que a Igreja possa parecer, ela vai-se lentamente adaptando aos novos tempos. Não é de excluir a hipótese de que, num futuro mais ou menos longínquo, o celibato dos padres católicos possa vir a ser apenas uma questão de opção individual.

Talvez esta medida do Vaticano possa ser uma preparação para essa eventualidade:
Padres casados? Talvez.
Padres homossexuais (casados ou não)? Nem pensar!

Por outras palavras, a Igreja poderá estar a tentar separar a questão do celibato da da homossexualidade, para que a discussão de uma não venha a contaminar a discussão da outra.

E ambas merecem ser discutidas...

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publicado por Carlos Carvalho às 02:37
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