Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007

A forca e as imagens

Algumas notas sobre o enforcamento de Saddam Hussein (e respectivos vídeos):

 

A pena. Sou contra a pena de morte. No entanto, ela existe em vários sistemas judiciais, como o iraquiano. Dada a natureza dos crimes e a biografia do ditador, este só poderia ser condenado à pena máxima. Estranho seria que tal não sucedesse: quem no Iraque terá cometido mais e maiores crimes do que Saddam Hussein? Este tinha, desde a sua captura, um encontro marcado com a forca.

 

O método. Por paradoxal que possa parecer, o visionamento do enforcamento pode vir a melhorar a imagem deste método de execução junto de certas opiniões públicas. Afinal o enforcamento não é como o vemos nos filmes. Afinal o enforcado não demora uma eternidade a morrer, nem morre por asfixia. Quando bem executado, o enforcamento é um método rápido e (quase) indolor de matar alguém.

 

Televisões e Internet. A generalidade das televisões recusou-se a mostrar o momento do enforcamento. O que não impediu o seu visionamento por milhões de pessoas: o vídeo está disponível na Internet. Dia após dia cresce a sua importância enquanto fonte de informação. Não tardará a encostar as televisões à parede: fará sentido uma televisão “censurar” estas imagens quando estas estão à disposição de quem as quer ver – alienando assim muitos espectadores? Temo que a concorrência com a Internet obrigue as televisões, a curto prazo, a deixar de lado muitos dos seus escrúpulos, bem como a baixar a fasquia dos seus critérios editoriais.

 

Câmaras e telemóveis. Quem, num primeiro momento, viu o vídeo oficial, ficou com a ideia de que a execução tinha decorrido com alguma dignidade. Quem viu a seguir o vídeo feito com um telemóvel não pôde ficar com a mesma impressão. A evolução e vulgarização tecnológicas tornam cada vez mais difícil o fabrico de verdades oficiais.

 

Matem o mensageiro. Filmar um enforcamento com um telemóvel é um acto mórbido. Mas foi graças a esta filmagem que ficámos a saber o que verdadeiramente aconteceu. Foi graças a ela que a versão oficial pôde ser desmentida. Eis como um acto perverso pode ser também um exercício de cidadania. Acresce que, aparentemente, quem filmou não foi quem humilhou Saddam. Reacção das autoridades iraquianas (e de boa parte da opinião pública mundial)? Matem o mensageiro! Apontou-se o dedo a quem fez o filme, deixou-se em paz quem humilhou. Como se o problema não fosse a humilhação, mas a sua exibição. Fica demonstrado, uma vez mais, o poder das imagens – e o poder detido por quem as conseguir controlar.

 

publicado por Carlos Carvalho às 03:43
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