Segunda-feira, 11 de Setembro de 2006

Algarve francófono

A cada Verão que passa, ouve-se cada vez mais falar francês no Algarve. Estará o Algarve a ser vendido mais eficazmente como destino turístico em França, na Bélgica ou no Canadá?

 

Um olhar mais atento permite-nos descartar esta opção: a esmagadora maioria dos francófonos são emigrantes portugueses ou luso-descendentes, que escolheram o Algarve para passar uns dias de férias na praia.

 

Como estes não têm o dom da ubiquidade, tem-se verificado um fenómeno precisamente oposto: há cada vez menos emigrantes nas aldeias do interior, e os que ainda aparecem ficam por lá cada vez menos tempo.

 

A ideia de que os emigrantes regressam todos em Agosto para passar um mês inteiro de férias nas suas povoações de origem é, cada vez mais, uma ideia do passado. E é fácil de perceber porquê: o tempo vai passando.

 

Os emigrantes de primeira geração, aqueles que ainda passam mais tempo nas suas povoações de origem, vão perdendo os pais e familiares que todos os anos queriam rever. À falta destes, começam a escassear motivos para uma estada tão prolongada. Um mês era pouco para estar com a família. À falta desta, uma semana é mais do que suficiente para rever a aldeia e participar na romaria.

 

As segunda e terceira gerações, que sempre acharam a aldeia uma “seca”, cresceram e tornaram-se independentes. Já adultos, podem escolher onde querem passar as suas férias - e escolhem a praia. Muitos já não voltam. Muitos ainda regressam ao (cada vez menos) seu país, mas não a uma terra perdida no interior que quase nada lhes diz.

 

Portugal sempre encarou o regresso dos emigrantes como um dado adquirido. Mas o seu comportamento está a mudar. Com o tempo, os laços emocionais aos seus locais de origem vão afrouxando. Com o tempo, os portugueses que emigraram vão dando lugar aos luso-descendentes que regressam ao país dos seus pais. Uns e outros querem cada vez mais passar umas férias “normais”, que por acaso são em Portugal.

 

Não podemos deixar de olhar com cuidado para estes turistas. Nunca nos preocupámos muito em promover Portugal como destino turístico junto do “mercado da saudade”. Mas, agora que as saudades vão desaparecendo, ou os encaramos como turistas “normais” ou arriscamo-nos a que muitos deixem de regressar a Portugal. Mesmo ao Algarve.

 

publicado por Carlos Carvalho às 02:31
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