Quarta-feira, 5 de Julho de 2006

Gordas

Este artigo, publicado na SIC online, demonstra a ligeireza com que muitas notícias são escritas em Portugal. E mostra como um governante hábil pode aproveitar essa negligência para “vender” à opinião pública o que bem entender.
 
“Nos primeiros três meses de execução do ‘Simplex’, 74 por cento das medidas estão concluídas” - lê-se nas gordas. Quem terminar a sua leitura por aqui, fica com a impressão de que o governo já implementou 246 das 333 medidas prometidas. Este seria, sem dúvida, um “balanço positivo”. Esta é, sem dúvida, a mensagem que o governo quer fazer passar.
 
Mas quem se embrenhar na leitura do artigo (aquelas letras pequenas que ocupam o resto da página) deparar-se-à com uma paisagem mais sombria.
 
Mais de um quarto das medidas prometidas no SIMPLEX estão atrasadas. Os responsáveis pelo programa não souberam prever correctamente as dificuldades que iriam encontrar. O governo não conseguiu que os seus ministérios se entendessem, nem conseguiu domar a burocracia que ele próprio gera. Isto ao fim de apenas três meses. Balanço positivo?
 
Note-se que ninguém obrigou o governo a apresentar o SIMPLEX antes de tempo, nem a comprometer-se com prazos irrealistas. O governo apresentou as medidas que quis, quando quis e definiu livremente os prazos para a sua execução. Por sua livre iniciativa, transformou o SIMPLEX numa das suas principais bandeiras. Agora que muitas coisas estão a correr mal, o mínimo que se exige é que o governo não procure bodes expiatórios, nem iludir os portugueses.
 
O ministro António Costa teve até o descaramento de afirmar que as justificações para os atrasos "são razoáveis e não mostram desleixo", assumindo simultaneamente o papel de réu e de juiz. Descaramento maior, a SIC publica acriticamente a avaliação que o ministro faz do seu trabalho.
 
Num país com uma oposição activa e uma imprensa menos engajada, o ministro não poderia ter feito as declarações que fez, com a enorme cara-de-pau com que as fez. Só que estamos em Portugal. Por isso, viva o governo, e fiquemo-nos pelas gordas.
 
publicado por Carlos Carvalho às 00:50
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