Sábado, 13 de Maio de 2006

Funâmbulos da Cruz

Entendo que o tempo que corre não é próprio para questões religiosas. O mesmo não entendem já os sectários da religião cristã, que aproveitam todos os momentos e ocasiões para fazerem a sua terrível e absorvente propaganda. É certo haver recrudescido, nestes últimos meses, essa estúpida, inconcebível propaganda religiosa, que não é apenas destinada a fanatizar e a bestificar os crentes, mas sobretudo a desnacionalizar a sociedade portuguesa.
 
Neste momento em que todos os países procuram defender as suas liberdades, facilitando e procurando a cooperação e aproximação de todos sem distinção de partidos nem de credos; no momento em que Gustave Le Bon proclama o fracasso de todas as religiões existentes e Le Dantec morre proclamando a indiscutível vitória da ciência que contraria e contradiz absolutamente as crenças espiritualistas; no momento em que a única providência conhecida sobre a terra é a boca dos canhões e o braço do soldado, há ainda quem se preocupe com a bagatela duma seita, remexendo nas cinzas de cadáveres há tanto putrefactos? Ah! não se compreende! Não faz sentido semelhante teimosia da parte do clericalismo, ele, que em toda a parte tem mostrado a negatividade da sua obra, não obstante desenvolver por toda a parte, e sempre, uma tão intensa e tão assídua propaganda. Propaganda de perversão, em que os resultados são sempre os da morte do espírito.
 
Tivesse ela, ao menos, como entre os sacerdotes ingleses e belgas, um aspecto patriótico e eu calar-me-ia. Mas não se trata duma propaganda patriótica e nacionalizadora, como também acontece entre os franceses; trata-se, pelo contrário, duma propaganda feita por agentes alemães ou do Vaticano, que é a mesma cousa, pois na ocasião presente o mais legítimo representante do kaiser, nos países neutros, é Sua Santidade Bento XV.
 
Mas não desviemos a questão do seu aspecto nacional, pois as audaciosas tentativas da reacção clerical, dentro do nosso país, constituem um assunto palpitante e digno de ser tratado neste lugar. Está ainda na memória de todos o caso do bispo do Porto, querendo aqui introduzir, novamente, as ordens religiosas, manifestando assim um singular desprezo pelas leis do seu país. Esse acto de inaudito atrevimento, foi energicamente castigado pelo Governo da República. Noutro país, é forçoso dizê-lo, esse bispo seria enviado para um distante e bem penoso exílio, caso não fosse expulso da Pátria ou encarcerado como réu de alta traição.
 
Mas a República é tolerante e, por isso, castiga, apertando, muitas vezes, a mão ao delinquente. Procedeu assim para com esse bispo e vai proceder, certamente, do mesmo modo com o patriarca de Lisboa, que acaba de publicar e fazer distribuir uma carta pastoral sem se importar com os poderes constituídos, quando a lei é expressa. Espera e confia na acção do Governo, que saberá fazer cumprir as leis, assim como espera que saiba reprimir os abusos e escândalos que se estão cometendo nos estabelecimentos de ensino, nos quartéis, nas repartições públicas, onde se distribuem aos milhares toda a espécie de bentinhos e folhetos.
 
E visto tratar de fantochadas, não devo deixar no esquecimento as aparições de Lindoso e Fátima que são, no fundo, obra das catequeses e dos confessionários, onde se estão formando os mais pertinazes inimigos da República e da sua obra internacional. Desses confessionários partem os boatos que tanto alarme causam, ficando os seus autores acobertados pelo sigilo da confissão. É a propaganda feita na treva e contra a qual não temos armas, nós que lutamos à luz do sol, nas escolas, nos comícios públicos ou na tribuna parlamentar, onde eles não têm coragem de levar as infâmias e torpezas que no confessionário segredam às suas inconscientes ou mal intencionadas devotas... Não só às devotas, mas também aos devotos, que eles vão ouvir de confissão às repartições públicas e parece que mesmo ao campo da batalha, em França.
 
Lembro ao Governo, e em especial ao Sr. Ministro da Guerra, que deve precaver-se contra esta nova espécie de invasão, que é bem pior que as dos gafanhotos e mais nociva do que a dos gases asfixiantes. Foi com propagandas destas que se perdeu a nacionalidade portuguesa no tempo em que Roma dominava aqui. Pois bem: fechemos os ouvidos e Roma entrará de novo em Portugal! E uma vez instalada, começará por dispor das consciências e das vidas e dos haveres dos cidadãos, como sempre têm feito, onde lhe permitem a entrada.
 
Nas minhas palavras não vai qualquer ataque à religião das almas puras. Eu ataco, sim, os vigaristas da Igreja Católica; os batoteiros do altar, que na sua acção nefasta e criminosa tanto se confundem com os outros vigaristas, os das esquinas, e com os outros batoteiros, os da roleta, a ponto de muita gente perguntar, como Strauss: «Teremos ainda nós uma religião?»
 
Olhe o Governo com cuidado para isto. Por mim continuarei alerta, defendendo os fracos e os humildes do perigo, com que os ameaçam essas hienas disfarçadas em cordeiros e que um poeta já crismou com o epíteto de funâmbulos da Cruz.
 
Resumo de uma intervenção de Tomás da Fonseca no Senado da República, 1917-08-23
 
tags:
publicado por Carlos Carvalho às 19:28
link | comentar | favorito

.autor

. Carlos Carvalho

. cesaredama@sapo.pt

.pesquisar

.artigos recentes

. Elites à rasca?

. Versões de Portas

. A maior de sempre?

. Fama

. Passos

. Escalões

. Obrigadinho

. Não entendo

. Coincidências

. O aleijadinho de Alijó

. Humor negro

. Calendário

. Manuais escolares em .pdf

. Guerra ao imposto

. Cuidado com os ciclistas ...

.arquivo

.sugestões

.sugestões

blogs SAPO

.subscrever feeds