Quarta-feira, 10 de Maio de 2006

Vai nascer longe

Com a desertificação galopante da maioria do país, coloca-se um dilema à organização regional dos cuidados de saúde: se por um lado só se compreende a existência de certos serviços se houver suficientes utentes para justificar o seu funcionamento, por outro estes devem estar a uma distância das populações que lhes permita o seu acesso em tempo útil.
 
Por um lado, quer-se serviços bem preparados, por outro, estes devem estar o mais próximos possível de quem deles necessita.
 
O ministro da saúde quer fazer passar a ideia de que mais vale uma boa maternidade ligeiramente mais distante do que uma má maternidade à mão de semear. Infelizmente, em muitos casos a opção será outra: mais vale uma maternidade próxima (ainda que mal equipada) do que não ter maternidade alguma - ou do que ter os filhos no meio da estrada.
 
A questão da maternidade de Elvas é duplamente preocupante: a alternativa proposta em Portugal situa-se a mais de 50 km (a quase uma hora de automóvel), e a mais viável situa-se em Badajoz.
 
Não é de hoje a opção de muitos cidadãos “raianos” de se dirigirem a Espanha para terem melhores cuidados de saúde. Mas começa a ser preocupante ver o próprio Estado a demitir-se das suas obrigações e a recomendar aos seus cidadãos o recurso a hospitais espanhóis.
 
Entendamo-nos: estamos a falar de maternidades, e não de doenças raras, operações complicadas que por cá não se fazem ou de testes que exigem material caríssimo que o Estado não tem dinheiro para adquirir. Nestes casos, justifica-se o recurso a hospitais e especialistas estrangeiros. Mas maternidades? Posso estar enganado, mas acho que todos nascemos um dia, e que quase todos já passámos por uma.
 
Muitos portugueses optam já hoje por abastecerem a dispensa em Espanha, por comprar carro em Espanha, por meter combustível em Espanha, por ir ao médico em Espanha, por mudar a sede social das suas empresas para Espanha, até mesmo por residir em Espanha. Agora muitos são mandados nascer em Espanha. Perante isto, não faltará quem se pergunte: então para que serve o Estado português, e porque carga de água pago impostos em Portugal?
 
Já agora, leia-se a alínea 3 b) do artigo 64.º da Constituição:
 
“Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado (...) garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde”
 
Quando é o próprio Estado a recomendar a saída do país para uma coisa tão fundamental como ter um filho, percebe-se que o texto da Constituição não passa por vezes de uma boa piada...
 
publicado por Carlos Carvalho às 00:10
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