Terça-feira, 8 de Março de 2005

O Papa e a resignação

A propósito de mais um problema de saúde do Papa, voltaram a surgir vozes a defender a sua resignação.

Que está muito velho.
Que causa espécie o seu sofrimento.
Que é indigno exibir a sua decadência em público.

Discordo dessas vozes, pelo menos enquanto o Papa mantiver as suas capacidades intelectuais.

Tendemos a apreciar a aparência em detrimento da substância. Incomoda-nos mais a imagem do sofrimento do que o sofrimento em si. É um insulto para o nosso subconsciente separar as decadências física, intelectual e cívica. Preocupa-nos menos a saúde do Papa do que o apaziguamento da nossa consciência. Ao permanecer no seu posto, o Papa dá-nos a todos uma bofetada que merecemos.

Apelar à resignação do Papa é tentar resolver um problema varrendo-o para debaixo do tapete. Só que este problema não tem resolução. Nem todos os problemas são descartáveis. As pessoas não são descartáveis. O Papa sofre, e sofrerá cada vez mais até ao dia da sua morte. A sua doença não tem cura. A sua idade não tem cura. Não será a resignação que lhe aliviará o sofrimento.

Se eu estivesse no lugar do Papa, como reagiria? A dor é certa, a decadência é certa, e ser Papa é tudo o que me resta.

O Papa não resigna. O Papa resigna-se.

 

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publicado por Carlos Carvalho às 01:10
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