Sexta-feira, 11 de Março de 2005

Memória de um debate

Jerónimo de Sousa (PCP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: O Governo AD entrou à bruta no ano de 1982. O povo português, e em particular as classes trabalhadoras, ganham cada vez mais consciência dos perigos que esta política, este governo e esta AD representam para os seus direitos, para as suas conquistas e para o próprio regime democrático.
Quando centenas de milhares de trabalhadores estão ameaçados pelo desemprego, a única resposta que esta AD e este governo encontram é a repressão, a ameaça, a calúnia, o aumento dos preços, imposição de um tecto salarial e leis vincadamente reaccionárias, como é o caso da proposta de lei dos despedimentos.
O PCP luta e lutará pelas profundas aspirações das classes laboriosas do nosso povo, procurando a sua unidade, defendendo os seus interesses concretos, afirmando-se como força indispensável para o prosseguimento do regime democrático e em defesa das transformações e das novas realidades operadas com o 25 de Abril.

Silva Marques (PSD): - Sr. Deputado Jerónimo de Sousa, V. Ex.a, que falou em nome do Partido Comunista Português, devia estar em silêncio no momento em que a Polónia, oprimida e esmagada, está em silêncio pelo partido de que V. Ex.a se reclama.
Os trabalhadores - e não são uma dúzia nem meia dúzia, mas milhões e não são só os simples aderentes do sindicato Solidariedade - estão neste momento presos em campos de concentração, e não estão só presos como são fuzilados, torturados, reduzidos à fome. Esta é que é a realidade.
Nessa conjuntura V. Ex. devia estar em silêncio e não vir aqui invocar o direito dos trabalhadores. V. Ex.as podem fazer a vossa agitação aqui, no Parlamento, porque estamos em democracia e assim defenderemos. Contudo, se estivessem na Polónia estavam em silêncio.

Jerónimo de Sousa (PCP): - A verdade é que os problemas da Polónia - que existem e nós reconhecemo-lo, não fugimos à discussão, e oxalá que esses problemas sejam resolvidos para bem do povo polaco - são utilizados pelos senhores como capa, como cortina de fumo para esconder os problemas dos Portugueses.
Contudo, na Polónia ainda continuam a existir serviços gratuitos na segurança social, continua a existir o direito ao emprego e ao trabalho, enquanto aqui os senhores rejeitam e recusam ao nosso povo aquilo que são os direitos humanos fundamentais.
Quando vemos os Ministros a atacar o Partido Comunista Português, isso dá-nos a certeza de que estamos no caminho certo, que estamos ao lado dos trabalhadores, que a democracia é possível, que o 25 de Abril vai vencer. Quanto ao resto dos protestos, dispenso-me de responder a provocações tolas e palermas.

Sousa Tavares (PSD): - O problema que aqui se debate - o da situação dos trabalhadores portugueses é evidentemente sério. Todos nós nos preocupamos com ele e, neste caso, o Sr. Deputado Jerónimo de Sousa tem razão. Simplesmente já não tem razão, porque o Partido Comunista - parece - é o único partido que na Europa tem hoje em dia a coragem de defender a repressão dos trabalhadores. Isso é uma vergonha tal que eu só teria para responder ao Sr. Deputado Jerónimo de Sousa a expressão que Yves Montand usou em relação a Georges Marchais. No entanto, não a quero usar por respeito por esta Câmara. O Partido Comunista é o único partido que defende a repressão dos trabalhadores.

Jerónimo de Sousa (PCP): - Sr. Deputado Sousa Tavares, nunca o ouvi levantar a voz em relação a outros problemas que existem no globo. Nunca se referiu à prisão e à morte de dirigentes e delegados sindicais na Turquia, em El Salvador, na Guatemala, em vários outros países. O senhor calou-se sempre. Mais uma vez vem aqui acenar com a Polónia para procurar esconder as realidades do nosso povo e a própria situação internacional.

Sousa Tavares (PSD): - Eu não falei na Polónia. Se o Sr. Deputado Jerónimo de Sousa é ignorante, que o seja. Não há ninguém neste país que não saiba que desde o Vietname à Guatemala, a São Salvador tenho protestado - mais do que ele - contra todas as situações de opressão aos trabalhadores. Não há ninguém que não saiba que eu sou sempre o primeiro a protestar contra todas as situações, de direita ou de esquerda, que oprimem os trabalhadores em qualquer parte do mundo.
Cale-se, Sr. Deputado Jerónimo de Sousa. Perante mim não tem nenhuma espécie de autoridade moral. O senhor é que não se opõe às situações de opressão dos trabalhadores. Eu, pelo contrário, tenho-me oposto durante toda a minha vida, em toda a parte, em Portugal ou seja onde for, em qualquer parte do mundo, contra a repressão dos trabalhadores. Cale-se e não seja ignorante.

Jerónimo de Sousa (PCP): - Sr. Deputado Sousa Tavares, a sua voz grossa não me impressiona e, para o acalmar, devo dizer-lhe que sou capaz de falar mais grosso do que o senhor. O que eu disse foi que o senhor não tinha falado da Turquia. Quanto à afirmação de ignorante, devolvo-a. Ignorante é o senhor.
Não se admite que me chame aquilo que me chamou, porque, se for necessário, mais grosso falo eu. Enquanto o senhor tem a experiência que referiu, eu tenho a experiência de 15 anos de empresa, de fábrica, de exploração, 5 anos de Parlamento e nunca admiti que nenhum deputado, seja ele quem for, esteja a mandar «bocas» como o senhor. Fale mais vezes, se for necessário, e cale-se, porque não tem o direito de falar como o fez e ofender esta Assembleia.

Sousa Tavares (PSD): - Olhe, vá à merda! Idiota! Mandrião! Vá trabalhar, que foi aquilo que nunca fez na vida! Calaceiro!

Resumo de um debate ocorrido na Assembleia da República, 5-1-1982.

publicado por Carlos Carvalho às 03:39
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