Segunda-feira, 21 de Março de 2005

Aspirinas e antibióticos

À semelhança do que fez Guterres, esperava-se nos primeiros dias do novo governo que Sócrates anunciasse uma medida fácil e popular. Ela aí está: a possibilidade de vir a adquirir medicamentos de venda livre noutros locais que não as farmácias.

Com esta medida, Sócrates procurou fazer passar a imagem de ser um governante disposto a enfrentar lobbies poderosos como o das farmácias. Curiosamente, ninguém reparou que esta medida corresponde a uma velha pretensão do lobby dos hipermercados. Uma pergunta fica no ar: Sócrates enfrentou um lobby ou cedeu a outro?

Apesar de ninguém saber ainda como irá ser posta em prática, esta medida foi já elogiada por muita gente. Não me incluo neste grupo. Algumas objecções:

Quem lucra? O preço dos medicamentos é fixado pelo Estado e não pode ser alterado, pelo que o aumento da oferta não trará qualquer benefício económico ao consumidor. Pelo contrário, este poderá vir a ser alvo de campanhas de estímulo ao consumo, pelo que poderá vir a gastar mais dinheiro em medicamentos de que não precisa.

Locais de venda. Qual a diferença entre escolher um xarope numa prateleira de supermecado, comprar um comprimido contra o enjoo num posto de combustível, pedir um antiácido num restaurante ou adquirir um descongestionante nasal numa máquina de venda automática?

Garantias. Respondendo ao ponto anterior, o consumidor espera que a aquisição de medicamentos seja mediada por um farmacêutico que o possa aconselhar, em que possam ser aviadas receitas médicas (um médico pode receitar medicamentos de venda livre) e em que os prazos de validade e as condições de armazenamento dos medicamentos sejam respeitados. Ou seja, numa farmácia.

Conclusão. Os medicamentos - sujeitos ou não a receita médica - só devem ser vendidos em farmácias. A questão não está nos supermercados poderem vender medicamentos, a questão está nos supermercados não poderem ter uma farmácia no seu interior.

Num país em que os filhos não podem herdar a farmácia dos pais (a menos que sejam licenciados em Farmácia) e em que um licenciado em Farmácia não pode livremente estabelecer-se por conta própria, o governo não tem coragem de liberalizar um dos sectores mais corporativos da nossa economia.

O governo anuncia aspirinas, mas a cura exige antibióticos.

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publicado por Carlos Carvalho às 01:40
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