Segunda-feira, 13 de Junho de 2005

A morte lava mais branco

Morreu Álvaro Cunhal. Com uma unanimidade que o próprio talvez estranhasse, a sua vida foi evocada num tom laudatório e consensual. Sinal de que a sua figura se tornou inócua.

É certo que se trata duma personagem histórica incontornável. É certo que foi uma pessoa íntegra que soube sair de cena com dignidade. É certo que na morte há que ser benevolente para com quem já cá não está. Mas também é certo que Álvaro Cunhal foi tudo menos consensual.

Álvaro Cunhal foi uma personagem multifacetada, e nem todas as suas facetas foram recomendáveis. É uma daquelas figuras que, pela sua dimensão, acaba sempre por nos apaixonar, mesmo que não nos reconheçamos em quase nada do que ele representou. Tem-se por ele o fascínio que se tem pelos vilões dos filmes, que são quase sempre mais interessantes do que os bons da fita.

Álvaro Cunhal marcou indelevelmente a história do nosso país (e de outros), mas não pelas melhores razões. Acabou por aceitar o actual regime, não porque o quisesse, mas porque não teve alternativa.

Ao ver as imagens de arquivo em que Mário Soares abraça Álvaro Cunhal, ocorreu-me um pensamento: houve aqueles que lutaram contra a ditadura porque a ditadura existia, e houve aqueles que lutaram contra a ditadura porque não eram eles os ditadores.

publicado por Carlos Carvalho às 23:49
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