Sábado, 8 de Outubro de 2005

A verdade

A verdade está no fundo de um poço, li certa vez, não me lembro mais se num livro ou num artigo de jornal. Em todo o caso, em letra de forma, e como duvidar de informação impressa? Eu, pelo menos, não costumo discutir, muito menos negar, a literatura e o jornalismo.
(...)
O meritíssimo dr. Siqueira, juiz aposentado, respeitável e probo cidadão, de lustrosa e erudita careca, explicou-me tratar-se de um lugar-comum, ou seja, coisa tão clara e sabida a ponto de transformar-se num provérbio, num dito de todo mundo. Com a sua voz grave, de inapelável sentença, acrescentou curioso detalhe: não só a verdade está no fundo de um poço, mas lá se encontra inteiramente nua, sem nenhum véu a cobrir-lhe o corpo, sequer as partes vergonhosas. No fundo do poço e nua.
(...)
No entanto, por mais que ele me explique tratar-se apenas de um provérbio popular, muitas vezes encontro-me a pensar nesse poço, certamente profundo e escuro, onde foi a verdade esconder sua nudez, deixando-nos na maior das confusões, a discutir a propósito de um tudo ou de um nada, causando-nos a ruína, o desespero e a guerra.


Jorge Amado, “Os Velhos Marinheiros”

publicado por Carlos Carvalho às 20:11
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