Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

Coisas a procurar – o astronauta

O astronauta é uma das figuras mais procuradas por quem visita Salamanca. Onde encontrá-lo? Num pórtico lateral da Catedral Nova, construída entre os séculos XVI e XVIII. “O que faz aqui um astronauta?” – pergunta que muitos já terão feito perante tão evidente anacronismo.

 

Porque é de um anacronismo que se trata. Na sequência de um restauro recente, e perdida a memória do que lá estava antes, decidiu-se deixar na fachada um testemunho da nossa era. Explicação simples, mas que não ocorre de imediato ao turista desprevenido. Talvez porque, perante um monumento, assumamos instintivamente que este sempre foi assim – ou que é assim há muito tempo. Nada mais falso, como demonstra o astronauta.

 

O astronauta espanta-nos pelo inesperado. Mas, se pensarmos bem, este faz tanto sentido como, por exemplo, encontrar uma fachada barroca no mosteiro de Alcobaça.

 

publicado por Carlos Carvalho às 23:14
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 19 de Maio de 2006

Pacheco e as viagens

“Já sabemos que a indústria das férias tropicais está de vento em popa, como uma breve visita ao aeroporto de Lisboa revela, com as pequenas multidões que partem pálidas e regressam coloridas e com chapéus, sandálias e modismos brasileiros, mexicanos, dominicanos e cubanos.”
 
Com esta frase, retirada do Abrupto, Pacheco Pereira (JPP) parece desdenhar do comum português de classe média que se atreve a passar uns dias de férias nos trópicos. Diz mesmo que este é um sintoma de que “o mundo que o criou [Santana Lopes] está bem mais ‘por aqui’ do que muitos querem ver.”
 
Curiosamente, JPP não hesita em publicitar no seu blogue as inúmeras viagens que realiza, nem em aí publicar abundantes artigos sobre as mesmas.
 
Caro JPP: Será que o que é bom para si é mau para os outros?
 
Gosto de muito do que escreve, e tenho-o em elevada conta. Mas não posso concordar com o tom de superioridade com que por vezes se refere a “essa gente” que se atreve a viajar sem o seu beneplácito.
 
publicado por Carlos Carvalho às 03:13
link do post | comentar | favorito
|

Que inveja!

Com a melhoria da qualidade de vida verificada em Portugal nas últimas décadas do século XX, a classe média passou a poder viajar. Apesar de agora a economia ter piorado, a classe média não parece disposta a abdicar de um hábito adquirido.
 
Nestas últimas décadas o ritmo de vida acelerou, o número de filhos diminuiu, as pessoas ficaram mais isoladas da família e da sociedade, o emprego tornou-se mais exigente e menos estável, intensificou-se a sociedade de consumo e deixou de ser uma vergonha viver com dívidas. O comum dos cidadãos habituou-se a ver nas férias um escape para um mundo (cada vez mais) cão, e nos trópicos uma alternativa cada vez mais vantajosa em relação ao tradicional Algarve.
 
O que antigamente era um destino exótico passou a ser um destino massificado, o que antigamente era um luxo da classe alta passou a ser um bem de primeira necessidade da classe média. Talvez a percepção desta realidade esteja um pouco atrasada em relação à realidade em si. Talvez por isso haja muitos a exclamar: “que inveja!”
 
“Que inveja!” - exclamam os amigos/conhecidos/familiares/colegas sempre que alguém exibe um bronzeado recém-adquirido no Brasil/México/República Dominicana/Cuba.
 
“Que inveja!” - exclamam os media (de forma mais mesquinha) quando argumentam com o esgotar das ofertas para estes destinos para desmentir o mau estado da economia ou para confirmar a forma irresponsável como os portugueses gastam o seu dinheiro.
 
“Que piroseira!” - exclamam algumas elites, saudosas dos tempos em que viajar era um sinal de status, e em que podiam falar das suas viagens ser que alguém de menor condição os pudesse interromper com aquele “eu já lá estive” tão irritante.
 
Desdenhar e invejar são por vezes as duas faces da mesma moeda. Alguns invejam as viagens dos outros. Outros desdenham que alguns possam viajar. Uns e outros parecem ignorar que viajar já não é um sonho irrealizável. Uns e outros parecem ignorar que viajar já não é um luxo, mas um bem de primeira necessidade que nos permite ganhar forças para enfrentar uma realidade cada vez mais agreste.
 
Os portugueses viajam cada vez mais. Porque podem. E porque precisam.
 
tags:
publicado por Carlos Carvalho às 02:07
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 18 de Maio de 2006

Palmas para Kukulcan

 

 
Chichen Itzá é um lugar maravilhoso. Não só pela sua arquitectura, mas também pela sua acústica.
 
Um dos monumentos mais conhecidos é o maior campo de bola do México. Apesar dos seus mais de 160 metros de comprimento, os sussurros de quem se encontre no edifício de uma das suas extremidades são audíveis no edifício situado na extremidade oposta. Cada equipa que aqui jogava era composta por sete jogadores, o mesmo número de ecos que ouvimos quando batemos as mãos a meio-campo.
 
Mas o monumento mais importante (e o mais conhecido) é a pirâmide de Kukulcan (ou Quetzalcoatl, o deus pássaro-serpente). Esta foi construída de modo a que um sacerdote que falasse do seu topo fosse facilmente ouvido pelas multidões aglomeradas na sua base. Por outro lado, quem bata as mãos em frente da sua fachada sul ouvirá como resposta o som de um pássaro (o quetzal) vindo do topo da pirâmide, e uns momentos depois ouvirá o som de uma cobra oriundo do templo dos guerreiros (à esquerda na fotografia).
 
Ainda hoje este fenómeno impressiona quem o testemunha. Imagine-se o impacto que teria naqueles que há séculos adoravam Kukulcan...

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:45
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 16 de Maio de 2006

Cozumel

publicado por Carlos Carvalho às 02:41
link do post | comentar | favorito
|

Duas senhoras

A península do Iucatão foi visitada o ano passado por duas senhoras, Emily e Wilma, que não deixaram saudades. Estes dois furacões causaram grandes estragos, dos quais a região ainda não recuperou totalmente.
 
Primeiro veio o Emily, que afectou sobretudo a zona mais a norte (Cancun). Veio e passou. Voaram alguns telhados, caíram algumas árvores, muitos turistas tiveram de ser evacuados. Nada a que esta região não esteja habituada. Reconstruiu-se o que foi destruído, e a vida regressou ao normal.
 
Só que, semanas depois, chegou o Wilma. Chegou e ficou. Durante três dias ninguém pôde sair de casa, tal era a força da tempestade. Mas o pior veio a seguir. Depois de tão prolongada estadia, o Wilma deixou marcas na paisagem, nas casas, nos hotéis e na memória dos muitos que nunca tinham experimentado um furacão com esta violência (a maioria a população).
 
O que tinha acabado de ser reconstruído foi novamente destruído. O que o Emily não tinha afectado não teve a mesma sorte com o Wilma. As populações tiveram que viver dias a fio sem água ou electricidade.
 
O Wilma teve um grande impacto na natureza. As praias de Cancun quase que desapareceram, o que obrigou à realização de dragagens para reconstruir os tão famosos areais. A vegetação foi afectada pelos ventos, mas também pelos três dias de dilúvio de água salgada. Como resultado, muito do verde deu lugar a tons mais acastanhados, indicando árvores despidas, derrubadas ou mortas. Os pássaros fugiram, e só voltarão em força quando a floresta recuperar.
 
Mas o Wilma afectou também as pessoas. Compreensivelmente, o governo deu prioridade ao restabelecimento do abastecimento de água e luz e à reconstrução das casas afectadas. Os hoteis tiveram que esperar, e que se entender com seguradoras pouco interessadas em acelerar o pagamento de indemnizações. Só que quase toda a população depende do turismo, e quase todos os hotéis foram obrigados a fechar (muitos ainda não reabriram). Resultado: a esmagadora maioria da população ficou mais de três meses sem poder trabalhar.
 
Aos poucos a vida vai voltando ao normal no Iucatão. Aos poucos, as cicatrizes vão desaparecendo das infra-estruturas e da paisagem. Mas estas duas senhoras tão cedo não serão esquecidas por quem teve que as aturar.

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:11
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 14 de Maio de 2006

Subindo pirâmides

Um aviso para quem planear uma visita à península do Iucatão baseado em guias de viagens antigos ou em conselhos de quem lá esteve há anos: já não é possível subir às pirâmides como antigamente.
 
Talvez para evitar actos de vandalismo, talvez para garantir a sua preservação, o governo mexicano proibiu os turistas de subir à maioria das pirâmides. Perde-se uma experiência, mas ganha-se uma visão mais limpa dos monumentos.
 
Uma das poucas excepções é a pirâmide da fotografia, situada em Cobá. Menos vistosa (mas mais alta) do que outras pirâmides mais conhecidas, apenas uma das suas fachadas foi ainda resgatada à floresta. Subir os seus mais de 40 metros de altura não é tarefa fácil. Mas para a maioria (sobretudo para quem tenha vertigens) o difícil mesmo é descê-la. No dia em que lá estive, uma turista caiu da escadaria abaixo.
 
Diga-se contudo que o esforço é recompensado. Por um lado, as vistas são deslumbrantes. Por outro, ir às pirâmides e não as subir será para muitos como ir a Roma e não ver o Papa...

 

publicado por Carlos Carvalho às 05:24
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 11 de Maio de 2006

Polícia iucateca

Esta fotografia foi tirada algures no estado do Iucatão, do interior do autocarro que me transportava até Chichen Itzá.
 
A princípio, reparei que a pick-up seguia com alguma urgência, dada a sua velocidade e a forma afoita como ia ultrapassando os demais veículos. Posteriormente, percebi o porquê deste comportamento: esta era uma pick-up da polícia, e transportava dois detidos (presumivelmente) para a esquadra mais próxima. Como se pode ver, estes detidos estavam devidamente guardados pelo polícia que com eles seguia no compartimento traseiro.
 
Guardei esta fotografia por dois motivos. Em primeiro lugar, pela óbvia curiosidade do meio de transporte. Em segundo lugar, porque este foi o único indício que tive da existência de criminalidade nesta parte do mundo durante a semana que por lá passei.

 

publicado por Carlos Carvalho às 01:28
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 10 de Maio de 2006

Palapas

 
Muitos maias habitam ainda nas suas tradicionais palapas (cabanas). Muitos fazem-no porque não têm alternativa. Mas muitos continuam a fazê-lo apesar de terem uma casa de cimento.
 
Após os furacões do ano passado, o governo promoveu a construção de casas de cimento, mais resistentes às intempéries. Por outro lado, muitos maias bem sucedidos ostentam casas de cimento construídas à beira da estrada. No entanto, nas traseiras ou nas imediações existe quase sempre uma palapa, onde por habituação ou conforto muitos preferem ainda viver.

 

publicado por Carlos Carvalho às 01:07
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 9 de Maio de 2006

Onde estão os maias?

Uma das perguntas que ocorre a quem chega ao Iucatão é: onde estão os maias? A resposta é simples: estão onde sempre estiveram. A civilização maia sucumbiu, as pessoas não.
 
Os naturais da península do Iucatão consideram-se maias. E são-no. São-no na fisionomia, no orgulho pela sua história, em muitos dos seus costumes, na língua que continuam a falar entre si. E são-no também no distanciamento (recíproco) relativamente aos aztecas.
 
O México é predominantemente azteca, mas o Iucatão é sobretudo maia. As diferenças não são apenas culturais: estão estampadas nas suas caras, nos seus corpos, na sua fisionomia. Os aztecas que decidem ir viver para o Iucatão olham com desconfiança para os maias, e são olhados com desconfiança por estes.
 
Talvez esta desconfiança derive de uma espécie de quase racismo entre eles. Talvez derive das pulsões autonómicas (independentistas?) da península do Iucatão e da integração promovida (imposta?) pelo governo central dos Estados Unidos Mexicanos. A verdade é que o Iucatão foi em tempos independente. A verdade é que a sua permanência na federação mexicana foi em tempos imposta pelas armas.
 
Maias e aztecas coexistem pacificamente lado a lado. Mas só dificilmente se misturam.
 
publicado por Carlos Carvalho às 03:44
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 6 de Maio de 2006

Besta e bestial

Não é possível contar a história do Iucatão sem referir o nome de uma personagem: Diego de Landa.
 
Cristão fervoroso e bispo do Iucatão, Diego de Landa procurou espalhar a fé cristã e combater a idolatria. Como muitos maias continuassem a adorar os seus deuses, Diego de Landa mandou queimar milhares de ídolos e dezenas de livros, talvez convencido de que as representações da serpente emplumada (Kukulcan, o equivalente maia de Quetzalcoatl) não passariam de evocações do diabo. Como resultado, perderam-se irremediavelmente muitos escritos e registos históricos da civilização maia.
 
Anos depois, tentando porventura corrigir os seus exageros, escreveu um livro chamado “Relação das Coisas do Iucatão”, que legou à História um valioso testemunho directo de várias facetas da cultura maia: os seus costumes, a sua religião, as suas lendas, as suas ciências, o seu calendário e até um arremedo do seu sistema de escrita.
 
Diego de Landa ficou assim para a História como uma figura fascinante, reconhecida simultaneamente como vilão e como herói. Deve-se a ele muito do que se sabe sobre os maias. E também muito do que nunca se saberá.
 
 
publicado por Carlos Carvalho às 18:59
link do post | comentar | favorito
|

Tulum

publicado por Carlos Carvalho às 00:05
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 5 de Maio de 2006

Regresso

Estou de volta, depois de uma semana (bem) passada na península do Iucatão. Prefiro esta designação à de Riviera Maia, mais adaptada a quem procura exclusivamente sol e praia, e que de bom grado ingressa nas “prisões de turistas” mais conhecidas como hotéis com tudo incluído.
 
Não há aqui nenhum tipo de ironia: eu fiquei num desses hotéis, cujo objectivo é fazer com que os hóspedes circulem entre a sua praia, as suas piscinas, os seus restaurantes e os seus bares, sem que sintam necessidade de sair do hotel para fazer seja o que for. Simplesmente, decidi não me cingir ao hotel, antes procurei explorar um pouco o que a região tem para oferecer.
 
Enquanto Riviera Maia, a experiência é mediana: o mar é deslumbrante, mas a maioria das praias é banal. Enquanto península do Iucatão, a experiência é única: as visitas a maravilhas naturais (recifes, cenotes) ou culturais (ruínas maias) fazem a diferença entre umas férias simpáticas e uma semana inesquecível.
 

 

publicado por Carlos Carvalho às 22:18
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2005

Torre Agbar - Barcelona

torre.JPG

Para os que acham polémico o projecto para o Parque Mayer ...
publicado por Carlos Carvalho às 21:12
link do post | comentar | favorito
|

.autor

. Carlos Carvalho

. cesaredama@sapo.pt

.pesquisar

.artigos recentes

. Coisas a procurar – o ast...

. Pacheco e as viagens

. Que inveja!

. Palmas para Kukulcan

. Cozumel

. Duas senhoras

. Subindo pirâmides

. Polícia iucateca

. Palapas

. Onde estão os maias?

. Besta e bestial

. Tulum

. Regresso

. Torre Agbar - Barcelona

.arquivo

.sugestões

blogs SAPO

.subscrever feeds