Segunda-feira, 16 de Abril de 2007

Destempo

Teria José Sócrates ganho as legislativas como ganhou se as dúvidas sobre as suas habilitações literárias tivessem surgido, como era suposto, durante a campanha eleitoral?

 

Não ponho em causa a investigação que está a ser feita em torno deste caso. Mais vale tarde do que nunca. Mas veio tarde. Este é o tipo de dúvidas que devem ser esclarecidas antes de um qualquer acto eleitoral. Sobretudo quando já se conhecem alguns indícios de que nem tudo bate certo.

 

Antes de uma eleição, a descoberta de um comportamento menos correcto de um qualquer candidato permite que o eleitorado possa fazer uma escolha informada, sabendo que, se optar por rejeitar esse candidato, tal opção terá poucas ou nenhumas consequências institucionais.

 

Após o acto eleitoral o caso muda de figura. O agora titular de um cargo público já não pode ser avaliado de per si. Para além da pessoa, o eleitorado terá também de avaliar a sua obra e as consequências do seu afastamento (se for esse o caso) no funcionamento das instituições.

 

Enquanto que um simples comportamento menos digno poderia impedir a eleição de um candidato, só um acto muito grave o poderá levar a cair uma vez eleito. A menos, claro, que o seu desempenho no cargo tenha sido desastroso. Uma investigação a destempo não deixa de ser importante, até mesmo desejável. Deixa é de ser tão relevante para o eleitorado.

 

Voltemos a Sócrates. Este caso, se conhecido antes das eleições, poderia ter posto em causa a sua vitória, ou, pelo menos, a margem com que foi conseguida. Sendo conhecido quase a meio do mandato, não é suficiente para levar à sua queda. Pode, quanto muito, comprometer a sua reeleição.

 

publicado por Carlos Carvalho às 23:55
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Terça-feira, 10 de Abril de 2007

A entrevista

Sócrates vai ser entrevistado na RTP. Espera-se que esta entrevista sirva para dissipar as dúvidas em torno do seu currículo. Espera-se igualmente que sirva para diminuir as suspeitas em torno da governamentalização da RTP. Entrevistador e entrevistado estarão por isso sob o olhar atento do público, e das suas prestações muito dependerá a imagem futura das instituições que representam.

 

Pretexto usado pela RTP para justificar a entrevista? O balanço de dois anos de governo. Com um mês de atraso. A coisa promete…

 

publicado por Carlos Carvalho às 04:06
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Domingo, 18 de Fevereiro de 2007

O ano do porco

Tem-se falado muito da crise nos jornais, não faltando quem avance as mais variadas justificações para a sua existência. Infelizmente, muitos esquecem-se da mais óbvia de todas: entrámos no ano do porco.

 

Na Ásia, cada vez mais rica, este é o ano do porco dourado. Por cá, onde as coisas estão cada vez mais difíceis, este poderá muito bem ser o ano do porco de barro – mais exactamente, o ano em que vamos ter de o partir para conseguir mais uns tostões.

 

Entre impostos e empréstimos, a classe média – aquela que sustenta os jornais (sobretudo os de referência) – está cada vez mais empobrecida, vendo-se obrigada a poupar em tudo aquilo que puder. Os jornais não são um bem de primeira necessidade, e, deixando de os comprar, sempre se poupam umas centenas de euros por ano.

 

Crise nos jornais? Crise. Ponto.

 

publicado por Carlos Carvalho às 22:39
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Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007

Gato escondido

Um dos programas humorísticos com mais sucesso em Portugal é o “Contra-Informação”, onde se caricaturam com graça (e por vezes sem piedade) as mais diversas figuras mediáticas (políticos, dirigentes desportivos, socialites, …). Procura-se brincar com pessoas de todos os quadrantes, e com um leque de temas o mais abrangente possível.

 

Imaginemos que os criativos do programa decidiam deixar de fazer humor com figuras de certos partidos ou com dirigentes de certos clubes. Imaginemos que faziam rábulas sobre José Sócrates mas nunca sobre Francisco Louçã, que ridicularizavam Pinto da Costa mas nunca Luís Filipe Vieira ou Filipe Soares Franco. Seria esta uma decisão aceitável?

 

Passemos a outro programa. Tem havido alguma polémica sobre os temas que os “Gato Fedorento” optam por (não) abordar. Opções sectárias, dizem alguns. Opções sectárias, confirmam os próprios, quando assumem que não sentem qualquer obrigação de serem imparciais.

 

Parte-se do princípio de que um programa de humor deve escolher os seus alvos segundo critérios humorísticos. É legítima a opção dos criadores de não seguirem esta regra, de se autocensurarem, de não abordarem pejorativamente temas e interesses que lhes são caros ou de só atacarem aqueles que são contrários às suas convicções. Só que, tomada esta posição, deixarão de ser vistos “apenas” como humoristas, passando a ser considerados também (sobretudo?) como intervenientes políticos e sociais.

 

Um programa de intervenção política pode até fazer rir, mas não deixa de ser um programa de intervenção política. Optando os “Gato Fedorento” por este caminho, não deverão estranhar que o público (ou parte dele) comece a tentar decifrar hidden agendas em cada piada. Ou que comece a desconfiar do gato escondido por detrás do gato visível, porventura tão ou mais fedorento do que este.

 

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publicado por Carlos Carvalho às 03:00
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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007

Mais do mesmo?

Fevereiro de 2006: Na sequência de um caso de violação de segredo de Justiça, são realizadas buscas na redacção de um jornal, tendo sido apreendido material informático.

 

Julho de 2006: O Tribunal da Relação de Lisboa considerou estas buscas ilegítimas, obrigando à restituição de todo o material apreendido. Segundo este tribunal, foi colocado em causa o direito à liberdade de expressão.

 

Janeiro de 2007: Na sequência de um caso de violação de segredo de Justiça, são realizadas buscas na redacção de um jornal, tendo sido apreendido material informático.

 

Há algo de estranho nisto tudo. Apesar de nem os processos nem o jornal serem os mesmos, as parecenças entre estas duas situações são evidentes. No entanto, a primeira originou um coro de protestos, ao passo que a segunda parece estar a passar de forma mais discreta na opinião pública. Mesmo após uma decisão judicial a condenar este tipo de investigações. Primeiro estranha-se, depois entranha-se?

 

Agora reparo: os investigadores também não são os mesmos…

 

publicado por Carlos Carvalho às 03:07
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Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007

A forca e as imagens

Algumas notas sobre o enforcamento de Saddam Hussein (e respectivos vídeos):

 

A pena. Sou contra a pena de morte. No entanto, ela existe em vários sistemas judiciais, como o iraquiano. Dada a natureza dos crimes e a biografia do ditador, este só poderia ser condenado à pena máxima. Estranho seria que tal não sucedesse: quem no Iraque terá cometido mais e maiores crimes do que Saddam Hussein? Este tinha, desde a sua captura, um encontro marcado com a forca.

 

O método. Por paradoxal que possa parecer, o visionamento do enforcamento pode vir a melhorar a imagem deste método de execução junto de certas opiniões públicas. Afinal o enforcamento não é como o vemos nos filmes. Afinal o enforcado não demora uma eternidade a morrer, nem morre por asfixia. Quando bem executado, o enforcamento é um método rápido e (quase) indolor de matar alguém.

 

Televisões e Internet. A generalidade das televisões recusou-se a mostrar o momento do enforcamento. O que não impediu o seu visionamento por milhões de pessoas: o vídeo está disponível na Internet. Dia após dia cresce a sua importância enquanto fonte de informação. Não tardará a encostar as televisões à parede: fará sentido uma televisão “censurar” estas imagens quando estas estão à disposição de quem as quer ver – alienando assim muitos espectadores? Temo que a concorrência com a Internet obrigue as televisões, a curto prazo, a deixar de lado muitos dos seus escrúpulos, bem como a baixar a fasquia dos seus critérios editoriais.

 

Câmaras e telemóveis. Quem, num primeiro momento, viu o vídeo oficial, ficou com a ideia de que a execução tinha decorrido com alguma dignidade. Quem viu a seguir o vídeo feito com um telemóvel não pôde ficar com a mesma impressão. A evolução e vulgarização tecnológicas tornam cada vez mais difícil o fabrico de verdades oficiais.

 

Matem o mensageiro. Filmar um enforcamento com um telemóvel é um acto mórbido. Mas foi graças a esta filmagem que ficámos a saber o que verdadeiramente aconteceu. Foi graças a ela que a versão oficial pôde ser desmentida. Eis como um acto perverso pode ser também um exercício de cidadania. Acresce que, aparentemente, quem filmou não foi quem humilhou Saddam. Reacção das autoridades iraquianas (e de boa parte da opinião pública mundial)? Matem o mensageiro! Apontou-se o dedo a quem fez o filme, deixou-se em paz quem humilhou. Como se o problema não fosse a humilhação, mas a sua exibição. Fica demonstrado, uma vez mais, o poder das imagens – e o poder detido por quem as conseguir controlar.

 

publicado por Carlos Carvalho às 03:43
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Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007

Eu posso!

Há, por alturas de Natal e Ano Novo, uma nova tradição entre muitos comentadores e jornalistas cá do burgo: zurzir no consumismo do “tuga”, sobretudo no de classe média, tendo por base uma leitura superficial e populista de dois ou três indicadores “económicos”.

 

As transacções electrónicas atingem novos recordes? Isto só pode significar que os consumidores são irresponsáveis porque gastam cada vez mais dinheiro, e os comerciantes uns mentirosos que têm a lata de se queixar da crise. Pouco importa que o uso de cheques, em declínio, seja activamente desincentivado pelos bancos (agora até já têm prazo de validade!), e que os consumidores estejam cada vez menos inclinados para transportar largas somas de dinheiro “vivo”. O facto de os portugueses recorrerem cada vez mais ao dinheiro “de plástico” – nas lojas ou na Internet – não significa necessariamente que estejam a gastar mais. Significa que estão a pagar de maneira diferente.

 

Os SMS enviados atingem valores absurdos? Gasto irresponsável de dinheiro, dizem os apontadores de dedos. É claro que pode também significar uma maior adaptação a uma tecnologia que revolucionou as nossas vidas, uma substituição do tradicional postal de boas festas ou uma dispensa de visitar amigos e conhecidos (sintoma de uma sociedade cada vez mais impessoal).

 

As viagens de reveillon estão esgotadas? Cambada de consumistas, dizem os profissionais da indignação, esquecendo-se que hoje em dia as viagens são vistas como um bem de primeira necessidade, permitindo uma pausa indispensável para que se consiga aguentar um ritmo de vida cada vez mais exigente e intranquilo.

 

Uma análise séria destes indicadores poderá ajudar a detectar mudanças nos hábitos e nos padrões de consumo da nossa sociedade. Uma análise populista serve para afectar uma superioridade moral e para criticar a plebe.

 

O mais curioso é que, analisando o que se conhece de muitos destes poupadores de dinheiro alheio, verificamos que eles próprios não seguem os conselhos que não hesitam em dar aos outros. Alguns são doidos por gadgets, outros não largam o telemóvel, outros ofercem(-se) presentes caríssimos, outros ainda estão constantemente a viajar (alguns escrevem mesmo artigos ou livros a publicitar essas viagens). Muitos dos que criticam o consumismo dos outros não passam, eles próprios, de consumistas desenfreados.

 

“Mas eu posso!” – suspeito que seja a sua defesa.

 

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publicado por Carlos Carvalho às 03:45
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Terça-feira, 28 de Novembro de 2006

Cautelar

Augusto Santos Silva declarou que a nova entidade reguladora das televisões poderá, em situações limite, decretar a suspensão cautelar de um programa. Por mim, tudo bem. Desde, claro, que a lei preveja uma ressalva tão grata a este governo: a de que a suspensão cautelar possa ser contornada invocando o interesse (do) público…

 

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publicado por Carlos Carvalho às 00:45
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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

A última lição

Tenho lido, a propósito da morte de Sottomayor Cardia, vários textos elogiosos para com o homem e sua obra. Elogios certamente merecidos, embora não esteja habilitado para os corroborar ou desmentir: a minha idade só me permite ter dele uma vaga memória enquanto político.

 

Contudo, há um episódio de que me recordo, e que vi pouco abordado por estes dias. Um episódio triste. Foi o da sua pré-candidatura às eleições presidenciais de 1996, ou melhor, a forma como esta foi recebida.

 

“A última loucura de Sottomayor Cardia”, apareceu então escarrapachado na primeira página de um jornal ou de uma revista (já não me lembro de qual). Frase assassina, que ridicularizou o homem e liquidou as suas intenções. Este foi um dos pontos mais baixos do jornalismo português, e não sei se os jornalistas responsáveis por este título lhe chegaram alguma vez a pedir desculpa.

 

Sottomayor Cardia dificilmente seria presidente. Mas, atendendo às suas qualidades pessoais e à sua obra (como agora se tem lido), era certamente presidenciável. Nada mais legítimo do que pretender candidatar-se a umas eleições que, no papel, são suprapartidárias.

 

Tirei várias lições deste episódio. Primeira: não basta a um homem ser sério e ter um currículo abonatório para evitar enxovalhos. Segunda: uma candidatura presidencial que emane da sociedade civil tende a ser ridicularizada. Terceira: só são levados a sério os candidatos presidenciais envolvidos na política partidária e/ou que contem com o apoio de um dos partidos estabelecidos.

 

Em suma, e salvo raríssimas excepções, a abertura das nossas eleições à sociedade não passa de uma treta. Foi isto que aprendi com Sottomayor Cardia. Que descanse em paz.

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:57
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Sábado, 18 de Novembro de 2006

Contraprogramação

As televisões estão cada vez mais parecidas. Graças às tácticas de contraprogramação, já sabíamos que os vários canais tendem a combater a concorrência recorrendo às mesmas armas: combatem notícias com notícias, filmes com filmes, novelas com novelas… O que já não é tão comum é vê-los combater entrevistas políticas com entrevistas políticas.

 

Foi o que aconteceu esta semana: Santana Lopes (RTP1) versus Cavaco Silva (SIC). Após um longo período sem concederem entrevistas televisivas, ambos escolheram exactamente o mesmo dia e a mesma hora para voltarem à televisão. Não sei qual das entrevistas foi agendada em primeiro lugar, mas o que os entrevistados não poderiam ignorar é que iriam, do ponto de vista das audiências, estar em confronto directo.

 

Parece-me óbvio que, neste confronto, a vantagem pertencia a Santana Lopes. Santana tinha a seu favor a agenda noticiosa (lançou um livro, ao passo que não se passou nada de especial com Cavaco nem este tinha nada de especial para dizer). Tinha a seu favor a sua forma de estar na política (esta é uma atitude que não surpreende em Santana, mas que é de todo inesperada em Cavaco). Tinha a seu favor as suas responsabilidades presentes (Santana está semi-afastado da política, ao passo que Cavaco é o Presidente da República: qual deles deve resguardar mais a sua imagem?).

 

Não foi com certeza a sua intenção, mas a impressão com que se fica é a de que Cavaco procurou, com a sua entrevista, abafar o que Santana tinha para dizer. E falhou: os espectadores mostraram mais interesse por Santana Lopes do que pelo Presidente da República!

 

Conhecidas as audiências, não terá faltado na SIC quem achasse que a estação optou pelo entrevistado errado. Pelo mais fraco (televisivamente). Pelo menos interessante. Palavras que não devem estar associadas à Presidência.

 

Por tudo isto, acho que Cavaco Silva deveria ter evitado esta situação equívoca. Deveria ter adiado a sua entrevista para momento mais oportuno. Ao não o fazer, Cavaco Silva cometeu um erro de principiante – coisa que ele certamente não é…

 

publicado por Carlos Carvalho às 03:58
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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

Democracia segundo o Público

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publicado por Carlos Carvalho às 01:40
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Sexta-feira, 29 de Setembro de 2006

Ainda mais uns trocos

Em várias conversas tidas recentemente, apercebi-me que muita gente tomou como boa a informação contida no “documentário” Loose Change. “Se a RTP o passou é porque a coisa é credível” – disseram algumas dessas pessoas.

 

Sinceramente, penso que já nem sequer vale a pena insistir em contrariar essas pessoas. Se até agora ainda não perceberam o que está errado, não creio que o venham a perceber.

 

E o que está errado são os factos. Podemos especular sobre factos conhecidos – o que até pode ser um exercício interessante. Podemos até duvidar dos factos que nos são apresentados – sobretudo quando as fontes não nos oferecem confiança. Não podemos é deturpar, manipular, omitir e falsificar factos só para que estes encaixem nas nossas teorias. Se procedermos assim, então não há nada neste mundo que não possa ser provado/desmentido.

 

O mais grave neste “documentário” não é o ter sido realizado. O mais grave é o ter sido transmitido pela RTP, um órgão de informação que se diz credível. Tomemos um exemplo nacional. A RTP pode passar um documentário a dizer que a morte de Sá Carneiro foi um atentado. A RTP pode passar um documentário a dizer que a morte de Sá Carneiro foi um acidente. O que a RTP não pode fazer é passar um “documentário” que afirme que não foram encontrados corpos em Camarate, que afinal Sá Carneiro está vivo, e que tudo não passou de uma manobra de diversão para que ele pudesse fugir para as Maldivas com Snu Abecassis. Quem não consegue distinguir uma coisa da outra não merece ostentar uma carteira de jornalista, nem ter quaisquer responsabilidades na programação de uma televisão paga por todos nós para (alegadamente) prestar um serviço público.

 

Já agora: passou há dias na SIC Notícias um documentário sobre o primeiro homem a conseguir engravidar. Passaram entrevistas do próprio e de amigos. Passaram declarações do médico que lhe implantou um útero. Mostraram fotografias do procedimento cirúrgico e creio que até de uma ecografia. Houve mesmo um jornal que chegou a noticiar o caso. A coisa estava bem feita, e muitos teriam acreditado na história se, ao fim de largos minutos, os autores do documentário não tivessem confessado o embuste. Aqui, como no Loose Change, a informação foi propositadamente manipulada para induzir em erro os espectadores. Só que aqui, ao contrário do Loose Change, os autores fizeram-no para alertar os espectadores contra charlatães. Uma coisa é a dúvida legítima, outra é a crendice cega. Uma ajuda ao desenvolvimento da sociedade, a outra empurra-a para a idade das trevas.

 

 

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publicado por Carlos Carvalho às 18:20
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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2006

Não há segredos grátis

Luís Filipe Vieira declarou ontem, em entrevista à RTP, que tinha conhecimento prévio das transcrições das escutas telefónicas que recentemente foram publicadas na imprensa. Mais grave, disse ter sido chantageado com a possibilidade da sua publicação, caso continuasse a falar sobre determinados assuntos.

 

Alheemo-nos da figura e do caso em particular. Recapitulemos: uma pessoa – não acusada pelo sistema judicial – viu partes de conversas telefónicas suas divulgadas publicamente com o intuito de a denegrir. Antes da divulgação, teve pleno conhecimento das transcrições e foi ameaçado com a sua divulgação. Pergunta-se: que objectivos pretende atingir quem passa estas notícias para os jornais? E não estarão os jornalistas a colaborar, involuntariamente, com a prática de crimes mais graves do que a "simples" fuga ao segredo de justiça?

 

Há quem esteja disposto a violar a lei para passar aos jornalistas, gratuitamente, informações sob segredo de justiça. Não passarão estas pessoas mais rapidamente estas informações a quem lhes pagar bem por elas?

 

Há quem esteja disposto a violar a lei para denegrir alguém. Antes de chegar aos jornalistas, não terão já estas pessoas tentado extorquir dinheiro ou de alguma forma coagir os visados?

 

Preocupam-me as fugas ao segredo de justiça de que ouço falar. Preocupam-me muito mais aquelas de que nem sequer desconfio que existem.

 

Não existirá em Portugal, já montada e bem oleada, uma lucrativa indústria de fugas ao segredo de justiça? Quem é que acha que estas informações não valem dinheiro? Quem é que acha que não há muita boa gente disposta a pagar elevadas quantias para as obter?

 

Será que a colaboração com criminosos vale uma manchete?

 

publicado por Carlos Carvalho às 18:16
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Terça-feira, 19 de Setembro de 2006

Litros e milímetros

Num dos directos a propósito do furacão Gordon, ouvi um jornalista dizer que se espera uma precipitação na ordem dos oitenta milímetros, o que (segundo ele) poderá significar até cem litros de chuva por metro quadrado.

 

Para memória futura: 1 mm = 1 l/m2

 

Será pedir muito que, de vez em quando, este tipo de reportagens sejam feitas por jornalistas que tenham um mínimo de (in)formação sobre os temas a cobrir?

 

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publicado por Carlos Carvalho às 23:15
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O que pensa a RTP do Holocausto?

A RTP transmitiu uma coisa vagamente parecida com um documentário, chamada “Loose Change”, em que são apresentadas teorias alternativas (grosseiramente montadas e facilmente desmentíveis) sobre o 11 de Setembro. Apesar das inúmeras críticas, a RTP persistiu no erro, transmitindo várias vezes esta coisa nos seus vários canais (sem qualquer distanciamento crítico).

 

Por outro lado, e com base em argumentos semelhantes, muitos negam a existência do Holocausto. Um deles, como é sabido, é o presidente do Irão. Será que a RTP concorda com ele? Se não, com que autoridade é que o pode refutar?

 

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publicado por Carlos Carvalho às 00:17
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Terça-feira, 12 de Setembro de 2006

Mais uns trocos

A emissão de “Loose Change” seria admissível se enquadrada num programa sobre teorias de conspiração, ou de (des)informação tratada com má-fé.

 

Pelo contrário, a RTP transmitiu esta coisa em conjunto com documentários sérios e bem realizados sobre o 11 de Setembro, como se pretendesse que a credibilidade dos vizinhos se lhe transferisse por osmose. Em conversas que tive hoje com várias pessoas, pude verificar que a estratégia resultou: muita gente tomou esta coisa como credível, e aceitou como boas muitas das suas especulações.

 

Pior ainda, a RTP anunciou esta coisa como “uma denúncia séria sobre o 11 de Setembro”, quando basta uma simples pesquisa na Internet para desmontar o chorrilho de imprecisões, de falsidades e até de imbecilidades que a coisa contém. (Quem as não vê não merece ter responsabilidades numa televisão que se diz séria.)

 

A RTP conspurcou o seu nome ao querer dar credibilidade a uma coisa que descaradamente não a tem. A RTP conspurcou o seu nome ao exibir uma coisa que ofende a memória daqueles que morreram naquele dia. A RTP conspurcou o seu nome ao não ter ninguém na sua redacção ou na sua direcção com tomates para evitar a emissão de informações manifestamente forjadas. Se os jornalistas da RTP engolem uma coisa destas, só com muita cara-de-pau é que podem exigir que as notícias que nos apresentam sejam levadas a sério.

 

O nome e a reputação da RTP estão conspurcados. Há que lavá-los. Com um pedido de desculpas. Ou com uma demissão.

 

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publicado por Carlos Carvalho às 00:25
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Segunda-feira, 11 de Setembro de 2006

Vergonha

“Loose Change” é um daqueles pseudodocumentários que abundam na Internet, em que se apresentam as mais delirantes teorias da conspiração para culpar o governo americano de tudo o que acontece no mundo. Fazem-se perguntas à medida das respostas, distorcem-se factos, ingoram-se outros que não encaixam na conspiração e apresentam-se sugestões que rapidamente se transformam em certezas (do “pode ter sido assim” passa-se logo para o “foi assim de certeza”). É o típico “documentário” sem qualquer credibilidade, feito por pessoas sem qualquer credibilidade e a que acedemos através de meios sem qualquer credibilidade. Foi esta madrugada transmitido pela RTP1.

 

Os aviões não eram os aviões originais. O que aconteceu a estes? Foram desviados para aeroportos isolados, onde os seus passageiros ficaram detidos. E os telefonemas que estes fizeram? As suas vozes foram imitadas por programas informáticos disponibilizados pelo FBI. Este é um exemplo do nível de demência a que chega este “documentário”.

 

O vergonhoso é que um “documentário” destes tenha ido para o ar no principal canal da televisão pública portuguesa. É a isto que chamamos uma estação de televisão responsável? É a isto que chamamos de serviço público? Não perceberão os responsáveis da RTP o quão ofensivo é este tipo de “documentários” para a memória dos que morreram? Será que a antiamericanite de muitos destes responsáveis lhes retirou toda a lucidez?

 

A emissão deste “documentário” é uma vergonha. Gostava de saber quem foi o irresponsável que permitiu a sua emissão, e quando teremos notícias da sua demissão.

 

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publicado por Carlos Carvalho às 03:05
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Segunda-feira, 31 de Julho de 2006

Silicone

A cobertura noticiosa de cenários de guerra, em que as deslocações dos jornalistas são bastante controladas, exige destes um forte sentido de autocontrolo, para que não se transformem em meros retransmissores de propaganda alheia e para que não passem ao lado da realidade.

 

As reportagens feitas em zonas controladas pelo Hezbollah a que vamos assistindo parecem, regra geral, clones umas das outras. Têm todas declarações “espontâneas” de populares, a amaldiçoar a América e Israel. Têm todas gente aos saltos e aos berros, jurando querer devotar o resto das suas vidas à causa do Hezbollah. Têm todas as mesmas ambulâncias, convenientemente acabadas de partir rumo a mais uma emergência. São tão parecidas que parecem resultar do mesmo guião. A questão é: quem anda a escrever este guião?

 

Como referiu Anderson Cooper na reportagem aqui citada, muitas das imagens que nos são servidas à hora do jantar não são espontâneas, nem resultam do trabalho apurado de um qualquer cameraman. Pelo contrário, são encenações da realidade servidas de bandeja aos repórteres, para que estes possam captar imagens apelativas sem muito trabalho.

 

Desconfio que os escrúpulos da maioria dos jornalistas não os impeçam de usar estas imagens. Como diz muito marialva a propósito do silicone no peito das senhoras, mais vale uma boa imitação do que um mau original. Neste caso, mais vale uma boa imagem encenada do que uma má imagem espontânea, sobretudo quando a primeira passa bem pela segunda.

 

Pode até acontecer que a encenação não se afaste muito da realidade. Pode até ser que um pouco de silicone televisivo torne a reportagem mais apelativa, a ainda por cima mais fácil de realizar. Mas esta opção tem riscos, riscos que os jornalistas deviam ponderar se vale a pena correr.

 

Um risco é o da imparcialidade. Qualquer encenação é feita por alguém, e em benefício desse alguém. Recorrer à encenação em vez da realidade leva a que os jornalistas acabem por passar pelo menos parte da propaganda debitada pelos encenadores.

 

Outro risco é o da intensidade. Não haverá muitas diferenças entre as imagens de uma ambulância em missão de socorro e as de uma ambulância que está à espera da chegada dos jornalistas para ligar as sirenes e arrancar para mais uma volta ao quarteirão. Não haverá muitas diferenças entre as imagens de manifestantes espontâneos e as de “populares” incentivados a manifestarem-se por militantes do Hezbollah (que se recusam a ser filmados). Tal como não há muitas diferenças entre uma perdiz morta por um caçador que passou todo o dia a calcorrear montes e vales e uma perdiz posta à frente de um caçador confortavelmente instalado para que este possa dar um tiro. O problema é que as primeiras situações obrigam ao esforço, e ocorrem com menor frequência, ao passo que as segundas dão uma ilusão de intensidade que tem pouco de real.

 

Por último, corre-se o risco da credibilidade. Optar entre o espectáculo em detrimento da realidade pode ser apelativo, e garante quase sempre imagens mais expressivas. Só que o público acabará, mais cedo ou mais tarde, por desconfiar dos jornalistas, passando a encarar as notícias como simples entretenimento. Nada que muitos responsáveis televisivos secretamente não desejem…

 

Nas reportagens que nos vão chegando do Médio Oriente, bem como de outras partes do mundo em conflito, quanto é real e quanto é silicone? Urge responder a esta pergunta, para que a dúvida sobre algumas das partes não nos leve a duvidar do todo.

 

publicado por Carlos Carvalho às 02:06
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Ficção

No township de Kalehong, subúrbios de Joanesburgo, milhares de simpatizantes do ANC celebravam a retirada de unidades do exército sul-africano. Como habitualmente, aqui, a festa confundiu-se com a violência e esta esteve à beira de degenerar em tragédia. Mas a criança que jaz no chão não está morta, apenas finge. Na ausência do real, simula-se, então: um batalhão de fotógrafos e cameramen precipita-se sobre o suposto cadáver. Mais sensível e mais inteligente, porém, um fotógrafo desconhecido preferiu antes, como quem se olha ao espelho, fotografar a fotografia. A morte (ou a sua aparência) tornou-se um espectáculo e o que há de diferente nesta fotografia é que ela fotografa o próprio espectáculo. Como fez Velásquez em As Meninas, somos confrontados com o objecto e com o olhar que desvenda o objecto. E o que resulta deste momento de génio de um fotógrafo é que a notícia que a fotografia revela passa a ser, não a suposta morte de mais um negro na África do Sul, mas a denúncia arrasadora da crueldade mediática para que por vezes resvalamos, e que chega ao ponto de encenar a própria tragédia, na ausência da tragédia real.

 

Fotografia e texto publicados na Grande Reportagem n.º 37 (Abril de 1994).

 

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publicado por Carlos Carvalho às 00:00
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Sábado, 29 de Julho de 2006

Visita guiada

COOPER (voice-over): Drive into southern Beirut, and you quickly discover another city entirely. A heavily bombed state within a state, beyond the control of the Lebanese government.

 

This is Hezbollah territory. Along the road posted like billboards, pictures of so-called martyrs, Hezbollah fighters who died battling Israel.

 

(on camera) You can drive around. It doesn't seem like there's anybody around. All of a sudden your eyes, it's almost like adjusting to the darkness. Suddenly, you realize there are people who are watching you and guys on motorcycles talking on cell phones who pass you by, watching very closely what you're doing.

 

(voice-over) Tension in this neighborhood is high. Many here are convinced Israel is sending in agents to help guide their aerial attacks.

 

(on camera) Not allowed to enter Hezbollah territory really without their permission. They control this whole area, even after the sustained Israeli bombing campaign. We've arranged with a Hezbollah representative to get permission to come here. We've been told to pull over to the side of the road and just wait.

 

(voice-over) We'd come to get a look at the damage and had hoped to talk with a Hezbollah representative. Instead, we found ourselves with other foreign reporters taken on a guided tour by Hezbollah. Young men on motor scooters followed our every movement.

 

They only allowed us to videotape certain streets, certain buildings. Once, when they thought we'd videotaped them, they asked us to erase the tape. These men are called al-Shabab, Hezbollah volunteers who are the organization's eyes and ears.

 

(on camera) You see their CD's on the wall still.

 

Hezbollah representatives are with us now but don't want to be photographed. They'll point to something like that and they'll say, "Well, look, this is a store." The civilians lived in this building. This is a residential complex.

 

And while that may be true, what the Israelis will say is that Hezbollah has their offices, their leadership has offices and bunkers even in residential neighborhoods. And if you're trying to knock out the Hezbollah leadership with air strikes, it's very difficult to do that without killing civilians.

 

As bad as this damage is, it certainly could have been much worse in terms of civilian casualties. Before they started heavily bombing this area, Israeli warplanes did drop leaflets in this area, telling people to get out.

 

The civilian death toll, though, has angered many Lebanese. Even those who do not support Hezbollah are outraged by the pictures they've seen on television of civilian casualties.

 

(voice-over) Civilian casualties are clearly what Hezbollah wants foreign reporters to focus on. It keeps the attention off them. And questions about why Hezbollah should still be allowed to have weapons when all the other militias in Lebanon have already disarmed.

 

After letting us take pictures of a few damaged buildings, they take us to another location, where there are ambulances waiting.

 

(on camera) This is a heavily orchestrated Hezbollah media event. When we got here, all the ambulances were lined up. We were allowed a few minutes to talk to the ambulance drivers. Then one by one, they've been told to turn on their sirens and zoom off so that all the photographers here can get shots of ambulances rushing off to treat civilians. That's the story -- that's the story that Hezbollah wants people to know about.

 

(voice-over) These ambulances aren't responding to any new bombings. The sirens are strictly for effect.

 

When a man in a nearby building is prompted to play Hezbollah resistance songs on his stereo, we decide it's time to go.

 

Hezbollah may not be terribly subtle about spinning a story, but it is telling perhaps that they try. Even after all this bombing, Hezbollah is still organized enough to have a public relations strategy, still in control enough to try and get its message out.

 

Transcrição de uma reportagem de Anderson Cooper, emitida na CNN em 2006-07-24, no programa ANDERSON COOPER 360º (sublinhados meus).

 

publicado por Carlos Carvalho às 23:33
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Sexta-feira, 28 de Julho de 2006

Problemas na coluna

António Perez Metelo, em coluna publicada hoje no DN (intitulada “'Katyushas' verbais”), assinou a seguinte pérola:

 

“O atabalhoado fogo verbal lançado pela direita parlamentar mais parecia uma saraivada de katyushas do Hezbollah: a maioria sai desgovernada e não acerta o alvo pretendido e os que provocam estragos limitados mais parecem reforçar a determinação dos inimigos do que acelerar a sua pretendida desmoralização.”

 

Em suma, António Perez Metelo compara a actuação da direita parlamentar ao lançamento de mísseis pelo Hezbollah. Esta comparação é de um profundo mau gosto, e imprópria de quem quer ser levado a sério como comentador responsável.

 

Caro António Perez Metelo: acha legítimo que uma situação que está a causar centenas de mortos seja usada para gracejar com o desempenho da oposição? Veio-lhe um sorriso aos lábios enquanto escrevia tais palavras? Perante este exemplo, como podem V.a Ex.a e o seu jornal criticar, de cara séria, algumas declarações mais infelizes de Alberto João Jardim ou de Fernando Ruas?

 

Esta comparação, sempre lamentável, poderia ser desculpável se produzida num ambiente partidário, durante uma discussão informal e mais acalorada. Não tem qualquer desculpa quando é apresentada por escrito e num jornal de referência.

 

Aliás, já há muito que António Perez Metelo abandonou o registo de comentador independente e tecnicamente preparado, para passar a vestir despudoradamente a sua camisola partidária.

 

Há muitos comentadores com ligações ou simpatias partidárias a escrever nos jornais, onde aproveitam o espaço que lhes cedem para louvar ou defender os respectivos partidos. Se a ligação partidária destes comentadores for divulgada ou sobejamente conhecida, não vem daqui mal ao mundo. Mas quando, a coberto duma fachada de independência e de competência, alguns (que se dizem) jornalistas usam as suas colunas para bajular os partidos e governos que apoiam, isto é grave, e destrói a imagem de isenção e de seriedade do jornalista e até do próprio jornal.

 

Não raras vezes, António Perez Metelo insere-se nesta categoria de “jornalistas”, que se apresentam como tal mas que não passam de uns lambe-botas. Desta vez ultrapassou os limites do bom-gosto, mas já há muito que ultrapassou os limites do pudor. Se tivesse vergonha na cara, já há muito que teria deixado de se apresentar como jornalista.

 

Querem testar as minhas palavras? Então leiam dois ou três artigos de opinião deste autor e a seguir respondam a esta pergunta: em quem votou António Perez Metelo nas últimas eleições?

 

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publicado por Carlos Carvalho às 20:55
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Quinta-feira, 27 de Julho de 2006

Visado pela censura

É frequente ouvirmos nas reportagens oriundas do Líbano que o Hezbollah não permite que se filmem certos locais, e que leva os repórteres a visitar outros. Não me espantaria se algo parecido ocorresse do lado israelita.

 

Como é habitual nos cenários de guerra, os repórteres buscam (alguma) protecção junto dos beligerantes. Como é habitual nestes cenários, os militares (com ou sem aspas) controlam os movimentos dos jornalistas, não lhes permitindo que passem certas informações e incentivando-os a passarem outras. Como é habitual nestas situações, os jornalistas têm de aceitar a censura que lhes é imposta para poderem realizar o seu trabalho. Como infelizmente começa a ser habitual, o público consumidor destas notícias não é informado sobre a existência desta censura.

 

No antigo regime existia censura em Portugal, mas pelo menos esse facto era conhecido dos consumidores de notícias. Não havia informação livre, mas todos sabiam que existia censura, pelo que quem via, lia ou ouvia notícias sabia que estas correspondiam a uma versão enviesada da realidade. Nas reportagens de guerra actuais também a informação não é livre, mas raramente se dá disso conhecimento ao público. O enviesamento persiste, mas o público não é alertado para esse facto.

 

Não será obrigação dos media informar que determinada reportagem não foi produzida com total liberdade? Não estarão os media a colaborar com os censores ao não revelarem que determinada reportagem foi censurada?

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:04
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Sábado, 22 de Julho de 2006

Amiúde

Segundo esta notícia da Lusa, “Manuel Fernandes participou amiúde nos trabalhos de pré-época do Benfica, devido a queixas constantes”.

 

Segundo a Lusa, o facto de Manuel Fernandes estar lesionado fez com que ele participasse frequentemente nos treinos. Esta frase, convenhamos, não faz sentido. A menos que a Lusa atribua a “amiúde” um outro significado qualquer…

 

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publicado por Carlos Carvalho às 05:03
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Quarta-feira, 5 de Julho de 2006

Gordas

Este artigo, publicado na SIC online, demonstra a ligeireza com que muitas notícias são escritas em Portugal. E mostra como um governante hábil pode aproveitar essa negligência para “vender” à opinião pública o que bem entender.
 
“Nos primeiros três meses de execução do ‘Simplex’, 74 por cento das medidas estão concluídas” - lê-se nas gordas. Quem terminar a sua leitura por aqui, fica com a impressão de que o governo já implementou 246 das 333 medidas prometidas. Este seria, sem dúvida, um “balanço positivo”. Esta é, sem dúvida, a mensagem que o governo quer fazer passar.
 
Mas quem se embrenhar na leitura do artigo (aquelas letras pequenas que ocupam o resto da página) deparar-se-à com uma paisagem mais sombria.
 
Mais de um quarto das medidas prometidas no SIMPLEX estão atrasadas. Os responsáveis pelo programa não souberam prever correctamente as dificuldades que iriam encontrar. O governo não conseguiu que os seus ministérios se entendessem, nem conseguiu domar a burocracia que ele próprio gera. Isto ao fim de apenas três meses. Balanço positivo?
 
Note-se que ninguém obrigou o governo a apresentar o SIMPLEX antes de tempo, nem a comprometer-se com prazos irrealistas. O governo apresentou as medidas que quis, quando quis e definiu livremente os prazos para a sua execução. Por sua livre iniciativa, transformou o SIMPLEX numa das suas principais bandeiras. Agora que muitas coisas estão a correr mal, o mínimo que se exige é que o governo não procure bodes expiatórios, nem iludir os portugueses.
 
O ministro António Costa teve até o descaramento de afirmar que as justificações para os atrasos "são razoáveis e não mostram desleixo", assumindo simultaneamente o papel de réu e de juiz. Descaramento maior, a SIC publica acriticamente a avaliação que o ministro faz do seu trabalho.
 
Num país com uma oposição activa e uma imprensa menos engajada, o ministro não poderia ter feito as declarações que fez, com a enorme cara-de-pau com que as fez. Só que estamos em Portugal. Por isso, viva o governo, e fiquemo-nos pelas gordas.
 
publicado por Carlos Carvalho às 00:50
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Sexta-feira, 23 de Junho de 2006

Censura

A SIC, em parceria com o Sapo XL, transmite os seus canais em directo pela Internet. No entanto, e durante o Campeonato do Mundo de Futebol, a emissão de dois desses canais - SIC e SIC Notícias - encontra-se suspensa.
 
A TV Cabo, durante o Mundial, impede os assinantes de vários canais de terem acesso à sua emissão, não só quando transmitem jogos em directo mas também, por vezes, quando transmitem resumos e imagens em diferido dos mesmos.
 
A Sport Tv parece querer ganhar clientes a todo o custo, recorrendo a expedientes que vão muito além do razoável para controlar a retransmissão das imagens dos jogos.
 
Surpresa? Nem tanto. O Sapo XL, a TV Cabo e a Sport TV pertencem ao mesmo grupo empresarial. Quando um mesmo dono domina deste modo o mercado, é bastante fácil controlar o que os espectadores podem ver. Fácil e tentador. Quem disse que não há censura em Portugal?
 
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publicado por Carlos Carvalho às 00:10
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Sábado, 10 de Junho de 2006

Coisas da "Sábado"

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publicado por Carlos Carvalho às 17:52
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Sexta-feira, 2 de Junho de 2006

Teleiniciativas

“Preocupados com o que está a acontecer em Timor, os jovens universitários portugueses estão a organizar-se num movimento espontâneo, e decidiram enviar para os jovens timorenses uma mensagem, que foi lida esta tarde junto à Torre de Belém. Os estudantes portugueses que participaram nesta cerimónia queriam demonstrar aos jovens que se encontram no território que é possível acreditar no futuro. No final da cerimónia simbólica junto à Torre de Belém, foi entregue à embaixadora de Timor-Leste em Portugal, Pascoela Barreto, uma declaração para que todos se unam contra a violência. Os jovens universitários pretendiam que esta iniciativa fosse mais representativa do que quantitativa.” – Telejornal, 2006-06-01
 
Enquanto era lida esta notícia, foram mostradas imagens da referida iniciativa, que não passou de um punhado de estudantes a passearem-se junto à Torre de Belém agitando uma bandeira portuguesa, uma bandeira timorense e uma ou outra tarja.
 
A questão não está na bondade da iniciativa (apesar das sua flagrante inutilidade). A questão está em saber porquê que esta notícia mereceu honras de transmissão no Telejornal. Vejamos:
 
1. Se eu pegar em duas bandeiras e meia dúzia de amigos e for passear para a Torre de Belém, não creio que o Telejornal se interesse muito pelo assunto. Mas se eu me apresentar como representante dos estudantes, e se mandar na véspera um fax para a RTP informando-a de uma manifestação estudantil, o caso muda de figura. Querem aparecer na TV? Fácil: façam constar que representam qualquer coisa.
 
2. Quem conseguir juntar Timor, declarações vagas e demagógicas e jovens ingénuos na mesma iniciativa, conseguirá também chamar a atenção dos media. Não é necessário juntar muitas pessoas.
 
3. “Uma iniciativa mais representativa do que quantitativa”. Por outras palavras, a iniciativa foi um fiasco. No mínimo, pode questionar-se a representatividade deste movimento no mundo estudantil.
 
4. Quem noticiou preferiu ignorar este facto. Pelo contrário, preferiu vender-nos a sua visão pseudocorporativa da sociedade. Preferiu dizer que os manifestantes eram poucos, mas representavam muitos.
 
5. Os organizadores parecem ter objectivos claros para a sua vida. Enquanto não acabam o curso, afectam uma representatividade que não têm. Depois de se formarem, querem ser sindicalistas.
 
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publicado por Carlos Carvalho às 00:32
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Quarta-feira, 31 de Maio de 2006

Blogues, media e Timor

Não estou suficientemente informado sobre a situação timorense para a poder comentar. Infelizmente, julgo não estar só nesta ignorância. Infelizmente, julgo estar acompanhado pela maioria dos cidadãos, dos jornalistas e até dos políticos.
 
Apesar de tudo, há uma coisa que ficou cristalina: a imagem idílica de Timor que nos foi vendida durante anos a fio está longe de corresponder à realidade. Se acreditasse em teorias da conspiração, diria que os media nacionais se conluiaram para nos manter na ignorância. Como não acredito em tais teorias, sou forçado a concluir que os media não sabiam muito mais do assunto do que eu.
 
Nestes últimos dias, aprendi mais sobre Timor através da leitura de um ou outro blogue (destaco o Bloguitica) do que em anos e anos de notícias publicadas nos mais diversos media. O grave é que, aparentemente, os jornalistas também. Grande parte das análises que os media têm feito sobre o assunto parecem ter por fonte os mesmos blogues em que - finalmente! - consegui recolher alguma informação.
 
Na questão de Timor, o mundo parece estar ao contrário: os media tradicionais venderam-nos causas, emoções, exaltação patriótica, subjectividade. Tivemos de recorrer aos blogues para conhecer os factos e para os ver analisados de forma objectiva.
 
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publicado por Carlos Carvalho às 01:13
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Quinta-feira, 20 de Abril de 2006

Então quando?

Esta é uma história recorrente. Sempre que um responsável político é questionado sobre um assunto incómodo à saída (ou entrada) de um evento, responde invariavelmente que está ali para falar sobre aquele evento e não sobre outros temas.
 
Já quando o mesmo responsável está interessado em comentar a actualidade, não hesita em aproveitar a presença dos jornalistas num determinado evento para marcar a agenda política.
 
Sempre que não lhe interessa falar, o responsável político impõe regras draconianas aos jornalistas. Sempre que lhe interessa aparecer nas manchetes, ele é o primeiro a violar as regras que impôs – isto sem que os jornalistas esbocem o mais pálido protesto.
 
Da próxima vez que um político se furtar a responder questões sobre um tema incómodo alegando a desadequação da pergunta ao evento, gostaria que um jornalista menos subserviente (e com tudo no sítio) fizesse a pergunta óbvia: “se não responde agora, então quando é que estará disponível para responder?”
 
Obviamente que parto do princípio de que os jornalistas não subservientes e corajosos abundam em Portugal...
 
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publicado por Carlos Carvalho às 23:17
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Sexta-feira, 14 de Abril de 2006

Juízes e activistas

Ao analisar um recurso, confio no Supremo Tribunal de Justiça (STJ) para que este faça a interpretação mais avisada da lei. O que não quero é que os juizes do STJ se transformem em activistas de uma determinada causa e que, baseados apenas nas suas convicções, se substituam ao legislador e venham a punir aqueles que a Lei não pune.
 
No caso dos maus tratos a menores, e após leitura do acórdão, entendo que o STJ tomou uma decisão perfeitamente razoável. Vejamos os factos:
 
1. A arguida foi condenada por maus tratos a um menor deficiente mental (fechou-o várias vezes num quarto escuro durante longos períodos, amarrou-o várias vezes à cama e deu-lhe várias vezes bofetadas). Estes factos foram dados como provados, e o STJ nada apontou à sentença aplicada.
 
2. O Ministério Público recorreu da sentença por a arguida não ter sido condenada por maus tratos a outros menores, aparentemente por o Tribunal considerar não ter havido reiteração de condutas. O MP considerou que a reiteração de condutas não era necessária para haver crime.
 
3. O STJ deu razão ao MP ao colocar o ponto de referência relativamente à verificação deste crime, não na reiteração mas na gravidade, traduzida por crueldade, insensibilidade ou até vingança.
 
4. No caso das outras crianças, a arguida deu palmadas no rabo a uma por não querer ir à escola, deu uma bofetada noutra após esta lhe ter atirado uma faca e mandou uma terceira de castigo para o quarto por se recusar a comer a salada. Estas atitudes foram pontuais e não reiteradas.
 
5.  O STJ entendeu que não é crime dar uma palmada esporádica no rabo de uma criança se esta se recusar ir à escola. O STJ entendeu que não é crime mandar uma criança para o quarto por se recusar a comer a salada. O STJ entendeu que não é crime dar uma bofetada “a quente” a uma criança que nos acabou de atirar uma faca. O STJ entendeu que, dentro do razoável, estas atitudes podem fazer parte da educação de uma criança, não podendo ser consideradas criminosas.
 
Então porquê tanta polémica?
 
Em primeiro lugar, parece-me ter havido uma leitura errada e apressada do acórdão por parte de alguns jornalistas. As reboque das notícias assim produzidas, escritas de modo a instigar a indignação dos leitores, houve quem reagisse “a quente”, insultando a decisão do STJ.
 
Por outro lado, parece-me que alguns “educadores activistas”, que acham inaceitável o recurso a qualquer punição física com fins educativos, acabaram por aproveitar a “onda” para fazerem passar as suas convicções.
 
Cada um pode ter a opinião que quiser sobre a educação duma criança. Não pode é esperar que as suas opiniões se substituam à Lei. Para o comum dos mortais, condenar é não estar de acordo. Para um juiz, condenar é aplicar uma pena. O STJ não recomendou o recurso aos castigos corporais. Limitou-se a dizer que, dentro do razoável, estes não são criminalizáveis.
 
É perfeitamente legítimo defender que as crianças não devem ser educadas com palmadas no rabo, mesmo que esporádicas. O que me parece exagerado é defender que quem dá uma palmada esporádica deve ir para a cadeia durante um a cinco anos.
 
Nota: Cf. Este artigo, no Blasfémias.
 
publicado por Carlos Carvalho às 00:05
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