Sexta-feira, 18 de Novembro de 2005

Ensaio sobre a cegueira

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"Há médicos a mais em alguns hospitais. Vou-lhe dar um exemplo: há 59 oftalmologistas no Hospital dos Capuchos. E no entanto se o senhor quiser uma consulta de oftalmologia não consegue. Então isto não são médicos a mais? Isto é uma vergonha nacional! Isto é um paradoxo, isto é uma vergonha nacional!" - Correia de Campos (ministro da Saúde), SIC Notícias, 2005-11-16

Estas declarações do ministro da Saúde são uma vergonha:

1.
Destas declarações parece resultar que a culpa é dos médicos. Embora possa não ter sido essa a sua intenção, quem ouviu as declarações do ministro sentiu-se tentado a concluir que, se há tantos médicos e tão poucas consultas, então os médicos são todos uns calaceiros que não querem trabalhar.

Esta insinuação, já de si grave, é agravada pelo facto dos números estarem errados. Segundo a directora do Serviço de Oftalmologia, Lucília Lopes, o Hospital dos Capuchos conta apenas com 30 especialistas, dos quais seis são internos ainda em formação. Dos restantes 24, 16 prestam serviços de urgência no Hospital de São José, o que justifica o tempo de espera de cerca de ano e meio para uma consulta de oftalmologia.

Ou seja, o ministro permitiu que se duvidasse do empenho dos médicos baseado em informações erradas. Será que um ministro da Saúde que não consegue saber o número de médicos a trabalhar num determinado hospital pode vir falar de rigor?

Isto, claro, partindo do princípio de que o erro foi involuntário...

2.
Começa a tornar-se insuportável a mania deste governo de encontrar inimigos. Sempre que toma uma medida, parece que essa medida tem de ser tomada contra alguém. Sempre que anuncia uma reforma, tem a necessidade de virar a maioria da opinião pública contra a classe que é alvo dessa reforma.

O problema é que este tipo de actuação cria ódios profundos nas classes atacadas. O problema é que, com tanto conflito, as classes atacadas começam já a ser a maioria da opinião pública.

Há médicos a mais? E de quem é a culpa: dos empregados ou do empregador?

Este ministro tem ainda a agravante de ser reincidente na pasta, pelo que, ao queixar-se da situação, está também a queixar-se do seu trabalho, dos governos a que pertenceu e dos governos que apoiou.

Conclusão:
Este governo parece ter de si a imagem de um carroceiro a conduzir uma junta de bestas. O problema, caros governantes, é que começa a ser chicote a mais para tão poucas cenouras...

publicado por Carlos Carvalho às 02:44
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