Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2005

Direita, abstenção e debates

É já bastante conhecido o argumento de que a existência de múltiplas candidaturas à esquerda contribui para diminuir a abstenção neste sector político. Concordo com o argumento.

Menos discutida tem sido a abstenção à direita. Para este eleitorado, não há nenhuma candidatura particularmente entusiasmante: todos os candidatos são de esquerda, pelo que lhe resta optar pelo menos esquerdista de todos: Cavaco Silva. Admito por isso que muitos eleitores de direita se encontrem divididos entre Cavaco e a abstenção.

Apesar da hagiografia oficial, creio que Cavaco é um dos políticos mais hábeis (em todos os sentidos) que Portugal conheceu após o 25 de Abril - nesta campanha, talvez só Mário Soares se lhe possa comparar (mas sem nunca o compreender).

"The biggest trick of the devil is to convince people that he does not exist", diz a expressão anglo-saxónica. Mal comparado, a maior habilidade de Cavaco é convencer as pessoas de que não é político, e de que não tem qualquer interesse na política.

Embora lhe reconheça honestidade e competência, não simpatizo particularmente com todas as facetas da imagem que Cavaco nos quer dar de si.

No entanto, após o debate Cavaco - Soares, e perante a baixeza que este último candidato por vezes atingiu, sinto-me mais motivado do que antes para votar Cavaco. Após este debate, a escolha deixou de ser apenas ideológica e racional, passando também (sobretudo?) a ser emocional e pessoal.

Escolher entre Cavaco e Soares passou a ser escolher entre educação e falta de chá, entre objectividade e narcisismo, entre respeito e arrogância.

Propostas e ideologias à parte, há duas condições sine qua non para quem quer ser presidente: respeitar os outros e ser respeitável. Ao escolher atacar tão rasteiramente Cavaco, Soares facilitou a escolha à direita: a escolha deixou de estar no campo da ideologia para passar a estar sobretudo no campo do carácter.

Se antes do debate a direita ponderava votar a favor de Cavaco, após o debate a direita passou a querer votar contra Soares.

Arrisco por isso dizer que, com este debate, Mário Soares perdeu mais do que ganhou. Pode eventualmente ter reforçado a sua posição à esquerda, mas contribuiu decisivamente para reduzir a abstenção à direita – aumentando o universo de votantes e o número daqueles que não irão votar em si.

Soares até pode ter ganho votos com este debate, mas seguramente que perdeu percentagem de votação.

publicado por Carlos Carvalho às 03:05
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