Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006

Carro, comboio ou ciência?

A SIC noticiou que está a decorrer um estudo comparativo entre a utilização da linha de Sintra (comboio) e o IC-19 (automóvel). Algumas citações:

- A CP e o IST estão a desenvolver um estudo para apurar as diferenças entre fazer a linha de Sintra de comboio ou o IC-19 de carro. Para já, ganha o comboio.
-
A CP pretende "ter elementos objectivos que permitam às pessoas compreender o quanto podem ganhar pela opção de escolherem o transporte público, neste caso o comboio, em detrimento do automóvel" - Rui Lucena, CP
- "
O que vai ser possível concluir é que as mais-valias da ferrovia são muito maiores do que aquilo que imaginámos inicialmente" - Tiago Farias, Professor do IST
-"
A viagem do IC-19 é completamente irracional" - Tiago Farias, Professor do IST
-
A CP recorre agora à ciência para seduzir novos passageiros. As conclusões finais do estudo do IST serão conhecidas na próxima semana.

O que está mal nesta notícia? Pode estar tudo, ou pode não estar nada. O problema é que se estão a apresentar como verdades absolutas as conclusões de um estudo que ainda não está concluído. Esta reportagem pode ser boa para o marketing da CP, mas em nada beneficia a ciência. Algumas objecções:

- Um estudo (ainda não terminado, quanto mais publicado!) da iniciativa da CP conclui que os serviços da CP são mais vantajosos.

- Um professor universitário (suponho que responsável pelo estudo) a aparentar ter um enviezamento inicial pelas possíveis conclusões. Quando existem demasiadas certezas à partida, tende-se por vezes a subavaliar as conclusões contrárias às convicções iniciais.

- Não são conhecidos os materiais e métodos, os pressupostos iniciais e o delineamento experimental adoptados. Por exemplo, os pontos de partida e de chegada foram escolhidos aleatoriamente? Como foi escolhida a hora de início do percurso? Foram tidos em conta os meios de transporte entre as estações e o ponto de partida/chegada? Fizeram observações sob diferentes condições meteorológicas? Foram considerados aqueles que têm que fazer mais do que um percurso por dia?, etc.

Como se vê, há muitos factores ainda desconhecidos que um estudo rigoroso não pode ignorar. Não digo que este ou outros estudos mais aprofundados não venham a concluir pela vantagem do comboio. Digo é que é sinal de alguma ligeireza dizer, nesta fase, que foi feita ciência.

Nada tenho contra o patrocínio de estudos científicos por empresas. Acho é que, nestes casos, os cientistas têm de ter especial cuidado para servirem a Ciência e não as estratégias promocionais dos patrocinadores.

publicado por Carlos Carvalho às 02:41
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