Quarta-feira, 1 de Março de 2006

Pessoa por escrever

A Biblioteca Nacional começou a disponibilizar on-line os originais de Fernando Pessoa. Para já, estão disponíveis os manuscritos e dactiloscritos do heterónimo Alberto Caeiro.

Mais do que contribuir para divulgar a obra do poeta, esta iniciativa serve sobretudo para elucidar o grande público sobre as discussões em torno da sua fixação. Nunca como agora foi possível ao leitor comum aceder directamente aos originais, pelo que teve sempre de aceitar os textos fixados pelos mais diversos especialistas e assistir "de fora" à troca de argumentos entre eles. Porquê tantas versões do mesmo poema? Porquê a troca de ordem de alguns versos? Porquê discutir se estamos perante um único poema ou perante dois poemas distintos?

Já sabíamos - pelo que nos iam dizendo - que a esmagadora maioria da obra de Pessoa não estava pronta para ser publicada aquando da sua morte. Para além de ter uma caligrafia quase ilegível, Pessoa era um escritor desorganizado. Assim, a publicação póstuma das suas obras implicou um trabalho hercúleo de pesquisa, decifração e organização dos originais. Nesse processo, houve que tomar várias opções, algumas complicadas. Vários especialistas optaram por uma intervenção mais "intensiva", de modo a apresentar ao público um Pessoa mais legível. Outros optaram por uma intervenção mais "minimalista", o que garante uma maior fidelidade aos originais mas transforma Pessoa num poeta mais fragmentário.

A Biblioteca Nacional permite-nos agora ter uma opinião mais fundamentada sobre esta discussão. E permite-nos também compreender melhor os argumentos de ambos os lados - dificultando o tomar de partido por um deles.

Com esta iniciativa, o leitor comum passa a compreender melhor que, por muitos anos que passem, por muitos livros que se editem e por muitos especialistas que se disponham a estudar os originais, haverá sempre uma decisão editorial discutível, uma variante duvidosa, um verso de atribuição incerta. Com esta iniciativa, o leitor comum passa a compreender que haverá sempre um Pessoa por escrever. E por conhecer.

publicado por Carlos Carvalho às 01:08
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