Sábado, 26 de Setembro de 2009

Frei Genebro (resumo alargado)

Nesse tempo ainda vivia o divino Francisco de Assis – e já por toda a Itália se louvava a santidade de Frei Genebro, seu amigo e discípulo. Frei Genebro, na verdade, completara a perfeição em todas as virtudes evangélicas.

 
Um dia, indo este admirável mendicante de Spoleto para Terni, e como mais de três anos se tinham passado desde que visitara Egídio, largou a estrada [e] começou a subir a colina. A meia encosta dormia um homem, que decerto por ali guardava porcos. Em breve avistou, com efeito, o rebanho de porcos. Frei Genebro pensou nos lobos e lamentou o sono do pastor descuidado.
 
No fim da mata começava a rocha. A cabana do ermitão apenas se percebia entre aqueles escuros granitos pela horta que em frente verdejava. Egídio não andaria afastado porque sobre o murozinho de pedra solta ficara pousado o seu podão. Frei Genebro empurrou a porta, que não tinha loquete para ser mais hospitaleira.
- Irmão Egídio!
Do fundo da choça rude veio um lento gemido:
- Quem me chama? Aqui, neste canto, neste canto a morrer!... A morrer, meu irmão!
- Dizei, irmão Egídio, pois que o Senhor me trouxe, que posso fazer eu pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes vós feito na virtude desta solidão!
- Meu bom frei Genebro, toda esta noite me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de porco assado…
- É um pedaço de porco assado que apeteceis? Pois sossegai, irmão querido, que bem sei como vos contentar.
 
E imediatamente agarrou o afiado podão que pousava sobre o muro da horta [e] correu pela colina até onde encontrara o rebanho de porcos. Surpreendeu um bacorinho desgarrado e desabou sobre ele, e enquanto lhe sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois golpes certeiros do podão, a perna por onde o agarrava. Depois, com as mãos salpicadas de sangue, deixando a rês a arquejar numa poça de sangue, o piedoso homem galgou a colina, correu à cabana, gritou dentro alegremente:
- Irmão Egídio, a peça de carne já o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria dos Anjos, era bom cozinheiro.
Entrou enfim na choça triunfalmente, com o assado que fumegava e rescindia, cercado de frescas folhas de alface.
Farto, consolado, Egídio deu um suspiro. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justiça, pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco!
 
Egidio cerrara os olhos, nem se moveu, porque seu espírito, tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo, como a um bom servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra.
 
Frei Genebro retornou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde esse dia, a actividade de sua virtude. (…)
 
Frei Genebro morreu. Logo que ele cerrou os olhos carnais, um grande anjo tomou, nos braços, a alma de Frei Genebro. Então, subitamente, nas alturas, apareceram os dois imensos pratos duma balança – um que rebrilhava como diamante e era reservado às suas boas obras, outro, negrejando mais que carvão, para receber o peso das suas obras más.
 
O prato diamantino começou a descer. Tão pesado vinha que as suas grossas cordas se retesavam, rangiam. Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou, finalmente, com a sua carga preciosa. Um frémito de alegria passou na luz do Paraíso, que um Santo novo enriquecia. E a alma de Genebro anteprovou as delícias da bem-aventurança.
 
Subitamente, porém, o prato negro começou a descer, duro, temeroso. O prato mais triste que a noite parara em pavoroso equilíbrio com o prato que rebrilhava. E os serafins, Genebro, o anjo que o trouxera, descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo, um pobre porquinho com uma perna barbaramente cortada, arquejando, a morrer, numa poça de sangue... o animal mutilado pesava tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas! Então o anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou cair, na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genebro.
 
Eça de Queirós – “Frei Genebro”
publicado por Carlos Carvalho às 00:35
link do post | comentar | favorito
|

.autor

. Carlos Carvalho

. cesaredama@sapo.pt

.pesquisar

.artigos recentes

. Elites à rasca?

. Versões de Portas

. A maior de sempre?

. Fama

. Passos

. Escalões

. Obrigadinho

. Não entendo

. Coincidências

. O aleijadinho de Alijó

. Humor negro

. Calendário

. Manuais escolares em .pdf

. Guerra ao imposto

. Cuidado com os ciclistas ...

.arquivo

.sugestões

blogs SAPO

.subscrever feeds