Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Computadores

O governo lembrou-se de assinalar o início do ano escolar distribuindo computadores a rodos. Computadores para alunos. Computadores para professores. Mas nada de computadores para as escolas – o que faria mais sentido. Esquisita, esta iniciativa de Sócrates e sus muchachos.

 

Primeiro estranha-se, depois descobre-se a manha.

 

Primeiro perguntamos: mas como foram escolhidos os felizes contemplados? Por mérito? Pela sua condição económica? E os professores? Não poderiam adquirir eles os computadores com o seu salário? Porque foram esquecidas as salas de informática e de professores das escolas – aquelas em que este investimento daria mais frutos?

 

Respostas simples, uma vez ultrapassada a ilusão das imagens e dos soundbites. Os computadores não foram oferecidos. Foram adquiridos por quem os recebeu. Beneficiaram de um preço mais baixo, mas em contrapartida tiveram de assumir um contrato de fidelização de três anos com a TMN, cujo logótipo apareceu escarrapachado em cada pacote oferecido. E à TMN interessa-lhe, naturalmente, vender uma ligação à Internet por cada computador – o que não aconteceria se estes equipamentos ficassem todos na mesma sala.

 

O negócio não é mau. Ganham alunos e professores, que conseguem preços mais em conta. Ganha a TMN, que oferece equipamentos em troca da fidelização de clientes (à semelhança do que acontece com certos planos de telemóveis). Ganha o governo, que lançou este projecto simpático há já algum tempo. Ah, e ganha a TMN, que consegue figurantes de luxo para as suas acções de promoção. Porque foi exactamente esse o papel dos governantes nesta iniciativa (que nada tem que ver com a abertura do ano escolar): de meros intermediários entre a TMN e os seus clientes.

 

Escusado teria sido misturar a entrega destes computadores com o início do ano escolar – é o que se chama misturar alhos com bugalhos. Mas estavam lá as televisões. Estavam lá os alunos, ansiosos por experimentar as suas novas máquinas. Estavam lá os membros do governo, magnânimes, a distribuir computadores como quem dá milho aos pombos. E todos vimos nos noticiários aqueles segundos em que nos disseram: “Sócrates oferece computadores”.

publicado por Carlos Carvalho às 00:20
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1 comentário:
De Maia a 18 de Setembro de 2007 às 13:32
Se não fosse a propaganda, que outras acções positivas podíamos atribuir ao Governo?

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