Quinta-feira, 26 de Abril de 2007

Radares

Não há quem não tenha ouvido falar nos radares que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) mandou instalar em várias artérias da cidade. Estavam ainda em período experimental e já os media transbordavam de notícias sobre os milhares de “aceleras” apanhados, e que após esse período não deixariam de ser punidos exemplarmente.

 

Esta iniciativa tinha as suas vantagens: punha a fiscalização à vista e a actuar sobre todos, acabando com os radares escondidos, com as acusações de “caça à multa” e com o sentimento de injustiça de sermos multados a 100 à hora numa estrada em que os que nos ultrapassam a 150 ou a 200 ficam habitualmente impunes. Mas, acima de tudo, pareceu-me um método eficaz para atingir o principal objectivo a que se propunha: diminuir a velocidade média de circulação em certos “pontos negros” das estradas lisboetas, o que contribuiria necessariamente para reduzir a sinistralidade.

 

Mas a coisa correu mal. Primeiro foi a falta de certificação dos aparelhos. Estes precisavam de ser aferidos pelas entidades competentes, para se ter a certeza de que as velocidades registadas correspondiam às velocidades reais. Em seguida surgiram conflitos com a legislação que protege os nossos dados pessoais. Resultado: muitos radares foram desligados, e os que funcionam não podem registar as infracções que detectam. Dinheiro deitado ao lixo?

 

Há duas maneiras de olhar para todo este episódio. Podemos vestir a camisola da CML, lamentando a forma como as suas tentativas de defender os cidadãos esbarram na burocracia e nas regras bizantinas impostas pelo Estado. Ou podemos criticar a CML por gastar o dinheiro dos contribuintes numa iniciativa sem cuidar de saber se esta teria cobertura legal.

 

Eu escolho a segunda posição. Tudo pode não ter passado de uma trapalhada – o que é grave. Mas mais grave ainda é este episódio servir na perfeição para ilustrar o que aparenta ser uma tendência crescente no nosso país: a ânsia de controlar os cidadãos parece estar a ganhar primazia sobre a vontade de cumprir a Lei.

tags: ,
publicado por Carlos Carvalho às 04:16
link do post | comentar | favorito
|

.autor

. Carlos Carvalho

. cesaredama@sapo.pt

.pesquisar

.artigos recentes

. Elites à rasca?

. Versões de Portas

. A maior de sempre?

. Fama

. Passos

. Escalões

. Obrigadinho

. Não entendo

. Coincidências

. O aleijadinho de Alijó

. Humor negro

. Calendário

. Manuais escolares em .pdf

. Guerra ao imposto

. Cuidado com os ciclistas ...

.arquivo

.sugestões

blogs SAPO

.subscrever feeds