Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

Erva na eira

Barbosa de Melo (PSD): - (...) Nada nos pode autorizar a atribuir ao 25 de Abril valor mágico e absoluto. Não foi um milagre nem uma perdição, como parecem ainda acreditar alguns e os seus contrários. É um facto histórico com muito de positivo e algo de negativo - sim, um facto que teve também a sua face trágica que não é hoje ocasião de lembrar. Do que não há dúvida é de que tem muito a ver connosco e com os nossos filhos, sendo por isso fácil falar dele com o olhar no presente e no futuro.

(…)

Por outro lado, muitos hábitos e dogmas adquiridos e aceites ao longo de tantos anos de menoridade política teimam em subsistir na consciência pública portuguesa. Assim, a acreditarmos em sociólogos e historiadores de ideias, os estados de opressão tendem a fazer nascer, no meio do povo que os sofre, filosofias de salvação traduzidas na predição do advento de um estado social último e perfeito para se chegar ao qual é legitimo sacrificar o presente, incluindo a própria liberdade. Talvez nesta possível lei da história esteja a explicação para a cegueira pelas utopias que teima em subsistir entre nós, mesmo depois que a todos é efectivamente reconhecido o direito de participar na vida política e de participar, pela democracia, na realização de um mundo novo.

(…)

Pela inércia adquirida do passado muitos continuam a sonhar com a Índia e a deixar crescer a erva na eira - como escreveu um grande poeta e pensador português. Ora a democracia, se vive do realismo crítico e da imaginação crítica, morre sempre às mãos destas ilusões sebastianistas ou destas utopias alienantes.

(…)

Assim, continua viva na mentalidade colectiva uma certa tentação ou nostalgia pela ortodoxia política. Continua a pensar-se por aí, consciente e inconscientemente, que em política verdade é igual a uniformidade, valendo a crítica como ofensa, a oposição como pecado, a diversidade como absurdo. E mesmo em muitos que julgam acertar o passo pelo reconhecimento do pluralismo das crenças e das opiniões, não raro mostram que dessa ideia se utilizam tão só para ornar o discurso. Assim, continuamos a viver numa mentalidade político-administrativa construída sob o signo do centralismo, tão característico e útil para as ditaduras, consumadas ou tentadas, antes ou depois do 25 de Abril. É urgente que a opinião pública repense o próprio Estado para dar a vida e expressão à filosofia consubstanciada na Constituição, concebendo-o como entidade complexa onde o poder se reparte e se contrabalança entre órgãos centrais e órgãos regionais e locais, como convém à liberdade.

 

AR, 1977-04-25

publicado por Carlos Carvalho às 23:00
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