Quinta-feira, 12 de Abril de 2007

Da engenharia

A designação de engenheiro é um uso social, é um uso de cortesia. Eu nunca pensei que fosse preciso o primeiro-ministro explicar isto. Todos os portugueses sabem que se licenciam em letras ou em direito são doutores, aqueles que se licenciam em engenharia são engenheiros. Outra coisa diferente é o título profissional. Eu nunca desejei exercer engenharia civil profissionalmente, nunca requeri a entrada na Ordem, porque para o fazer, se o quisesse fazer, teria que fazer exames na Ordem. Ora, eu nunca desejei isso.

 

José Sócrates, RTP (transcrição minha)

 

Esta é uma das zonas cinzentas na discussão em torno das habilitações académicas do primeiro-ministro. Sócrates tem razão em parte do que diz. Mas também pode ser acusado de ter usado abusivamente o título de engenheiro. Falha grave?

 

Também eu sou licenciado numa engenharia. Também eu nunca me inscrevi na Ordem (embora, ao contrario do que sucede com Sócrates, esta reconheça a minha licenciatura). Também eu já me apelidei (ou permiti que me apelidassem) de engenheiro. Então porquê criticar o primeiro-ministro? Vamos por partes.

 

Sócrates tem razão quando diz que a designação de engenheiro é usada, socialmente, de forma lata. No trato informal, quotidiano, não estou para gastar o meu latim a explicar a todos os que me tratam por engenheiro que não, não sou engenheiro, sou apenas licenciado em engenharia porque nunca me inscrevi na Ordem. Quando, em assuntos informais ou não profissionais, tenho de declarar a minha profissão (por exemplo, num consultório médico), opto frequentemente por me dizer engenheiro em vez de licenciado em engenharia. Poupo tempo. Poupo explicações. Poupo-me a fazer uma distinção que, nestas situações, me parece uma bizantinice.

 

Mas tenho a perfeita consciência de que estou a utilizar abusivamente um título a que não tenho direito. Eu e todos aqueles que cursaram uma engenharia. Um exemplo de outra profissão: “Já acabou o curso de Direito. Já é advogado”. Esta afirmação, desculpável se proferida por um familiar do licenciado, seria indesculpável na boca do próprio. Porquê? Porque este é obrigado a saber que só poderá utilizar o título de advogado depois de inscrito na respectiva Ordem.

 

Porque não me inscrevi na Ordem? Por achar que a minha licenciatura (e a minha faculdade) tinha suficiente prestígio no mercado de trabalho, e porque não precisei dessa inscrição na minha actividade profissional. Obviamente que, profissionalmente, jamais me atreveria a apresentar-me como engenheiro. Jamais me atreveria a incluir esse título num currículo, ou a induzir em erro quem me viesse a contratar. Isso seria eticamente condenável. Uma mentira. Mesmo que a Ordem reconheça o meu curso, pelo que teria o acesso facilitado relativamente àqueles cuja licenciatura não é reconhecida.

 

Porque não reconhece a Ordem todos os cursos? Para defender o próprio título. Este estava tradicionalmente consignado a meia dúzia de licenciaturas em universidades públicas. Com o passar do tempo, foi-se generalizando. Passou a ser usado em bacharelatos (alguns clonando mesmo o nome de licenciaturas já existentes). Passou a ser usado de forma lata em cursos que pouco ou nada tinham que ver com as licenciaturas tradicionais (há quem se diga engenheiro publicitário…). Com a proliferação de licenciaturas (e de universidades), poderia estabelecer-se uma competição feroz entre elas, o que poderia levar a um abaixamento das exigências. O que é um engenheiro? Resposta difícil, já que o mesmo título serve para profissões muito diferentes. Há engenheiros que tratam de árvores, outros que tratam de pontes, outros de computadores,... A Ordem abarca-os a todos, mas exige-lhes uma formação suficientemente sólida, sobretudo em ciências exactas (matemática, física, química). Assim, a acreditação de cursos serve para a Ordem procurar separar o trigo do joio. Licenciados de cursos não acreditados só podem inscrever-se na Ordem após ultrapassarem duras provas de admissão.

 

Sócrates está neste caso. Como o próprio reconheceu, nunca desejou nem nunca precisou de fazer essas provas. Como tal, nunca será engenheiro. O que não é grave. Só que, ao apresentar-se como tal, sabia perfeitamente que estava a usar um título a que não tinha direito. Pelo que deveria ter tomado todas as providências para evitar o seu uso em currículos, documentos e actos oficiais. Não o fez. Errou. Merece censura. Cada um que decida em que grau.  

publicado por Carlos Carvalho às 05:45
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4 comentários:
De Insano a 12 de Abril de 2007 às 10:34
Não resisto à provocação...

Qual é o interesse de usar títulos num consultório médico...?
De Carlos Carvalho a 12 de Abril de 2007 às 18:13
Nenhum. Mas, frequentemente, temos de preencher uma ficha de paciente em que nos perguntam a profissão.
De Insano a 12 de Abril de 2007 às 23:27
Mas é algo de "surreal" trazer títulos académicos para um consultório.... para que até as patologias tem que ter formação... ;)

Espero um dia onde a prática de grande parte das multinacionais, o tratar por tu de cima abaixo, abranja toda a nossa sociedade.

Abraço,
De Carlos Carvalho a 13 de Abril de 2007 às 00:11
Subscrevo o que disse.

Quanto aos consultórios, só vejo utilidade em saber a profissão do paciente se esta informação servir para estudar doenças profissionais, ou a incidência de certas doenças em determinadas profissões.

Quanto ao uso excessivo de títulos pela sociedade, procuro dar aqui o meu contributo: se reparar, este é um blogue livre de títulos académicos... :)

Abraço.

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