Quarta-feira, 4 de Abril de 2007

A má moeda

Animais. Não há outro nome para eles: animais! Vão para um estádio para se embebedarem, para se drogarem, para presentearem os adeptos do clube adversário com insultos, cuspidelas, com o arremesso de garrafas e demais objectos, entre os quais bombas e até as cadeiras em que estão sentados. Se conseguirem partir a cabeça de alguém, tanto melhor. O espectáculo é-lhes secundário.

 

Há quem diga que a culpa é da polícia. Do clube visitante. Do clube visitado. Da Liga. Da Federação. Do sistema educativo. Da sociedade. Eu digo que a culpa é dos animais que, sistematicamente, se comportam desta maneira em todos os jogos a que assistem. E que assim continuarão a comportar-se até serem punidos, e impedidos de entrar nos estádios.

 

O futebol é um espectáculo. Caro, ainda por cima. Onde o adepto comum gosta de ir acompanhado de familiares e amigos. Onde gosta de levar os filhos. Onde vai na esperança de uma alegria. De onde sai por vezes com uma enorme tristeza, com uma enorme desilusão. Mas onde não espera ser agredido. Nem de lá sair com a cabeça partida.

 

E como é tratado este adepto? Tem que esperar em filas enormes para comprar bilhete, tem que enfrentar filas ainda maiores para ultrapassar as várias barreiras policiais, tem que ser revistado, o seu bilhete tem que ser exibido aos seguranças e tem que passar nos torniquetes para só então poder aceder ao seu lugar no estádio. Paga caro e é mal tratado.

 

Porquê este tratamento? Para evitar comportamentos de risco, dizem. Mas então que tratamento é dado aqueles que reincidem nesses comportamentos? Têm facilidades no acesso aos bilhetes. Têm direito a ser escoltados para o estádio, onde têm um sector só para eles. Têm a entrada no estádio facilitada (frequentemente, nem sequer precisam de bilhete…). Tudo isto com o beneplácito e com a protecção das forças policiais. Não deixa de ser irónico: os animais são ajudados a entrar nos estádios pelas mesmas autoridades que de lá os deveriam afastar.

 

É por estas e por outras que muitos jogos de futebol são classificados de alto risco. Onde os pais são desaconselhados a levar os filhos. Onde o espectador comum é tratado como criminoso. E onde os criminosos têm o acesso facilitado. Não admira que muita gente tenha deixado de ir à bola…

 

Diz-se por aí que a má moeda afasta a boa moeda. Esta lei, que tem servido para tantas coisas, serve também para o futebol. Ao cuidado dos dirigentes desportivos, das autoridades e até do legislador: qual destas moedas interessa afastar dos estádios?

 

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publicado por Carlos Carvalho às 00:57
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