Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007

Gato escondido

Um dos programas humorísticos com mais sucesso em Portugal é o “Contra-Informação”, onde se caricaturam com graça (e por vezes sem piedade) as mais diversas figuras mediáticas (políticos, dirigentes desportivos, socialites, …). Procura-se brincar com pessoas de todos os quadrantes, e com um leque de temas o mais abrangente possível.

 

Imaginemos que os criativos do programa decidiam deixar de fazer humor com figuras de certos partidos ou com dirigentes de certos clubes. Imaginemos que faziam rábulas sobre José Sócrates mas nunca sobre Francisco Louçã, que ridicularizavam Pinto da Costa mas nunca Luís Filipe Vieira ou Filipe Soares Franco. Seria esta uma decisão aceitável?

 

Passemos a outro programa. Tem havido alguma polémica sobre os temas que os “Gato Fedorento” optam por (não) abordar. Opções sectárias, dizem alguns. Opções sectárias, confirmam os próprios, quando assumem que não sentem qualquer obrigação de serem imparciais.

 

Parte-se do princípio de que um programa de humor deve escolher os seus alvos segundo critérios humorísticos. É legítima a opção dos criadores de não seguirem esta regra, de se autocensurarem, de não abordarem pejorativamente temas e interesses que lhes são caros ou de só atacarem aqueles que são contrários às suas convicções. Só que, tomada esta posição, deixarão de ser vistos “apenas” como humoristas, passando a ser considerados também (sobretudo?) como intervenientes políticos e sociais.

 

Um programa de intervenção política pode até fazer rir, mas não deixa de ser um programa de intervenção política. Optando os “Gato Fedorento” por este caminho, não deverão estranhar que o público (ou parte dele) comece a tentar decifrar hidden agendas em cada piada. Ou que comece a desconfiar do gato escondido por detrás do gato visível, porventura tão ou mais fedorento do que este.

 

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publicado por Carlos Carvalho às 03:00
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2 comentários:
De Insano a 15 de Fevereiro de 2007 às 07:28
Depois do "ai que giros que eles são..." e respectiva tentativa de domesticação... não se pode perdoar uma derrota nas eleições...
Está aberta a caça aos felinos....

Abraço,
De Carlos Carvalho a 16 de Fevereiro de 2007 às 00:40
Caro Insano:

Não pretendo atacar os “Gato Fedorento” (de quem sou fã), e muito menos a sua tomada de posição no referendo – daí só agora ter publicado este texto. Lembro-lhe que as críticas aos “Gato Fedorento” não começaram agora: ainda há alguns meses foram criticados por não “atacarem” ninguém ligado ao Benfica…

A questão que pretendi colocar é a seguinte: até que ponto deve um humorista abster-se de caricaturar os que lhe são próximos (seja essa proximidade politica, clubística ou afectiva)?

Um humorista pode abster-se de zurzir em pessoas e temas que lhe são caros. Mas, ao fazê-lo, está a subordinar os seus interesses humorísticos a outros que considera mais importantes. Isto não é uma crítica. É – parece-me – uma evidência.

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