Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007

Eu posso!

Há, por alturas de Natal e Ano Novo, uma nova tradição entre muitos comentadores e jornalistas cá do burgo: zurzir no consumismo do “tuga”, sobretudo no de classe média, tendo por base uma leitura superficial e populista de dois ou três indicadores “económicos”.

 

As transacções electrónicas atingem novos recordes? Isto só pode significar que os consumidores são irresponsáveis porque gastam cada vez mais dinheiro, e os comerciantes uns mentirosos que têm a lata de se queixar da crise. Pouco importa que o uso de cheques, em declínio, seja activamente desincentivado pelos bancos (agora até já têm prazo de validade!), e que os consumidores estejam cada vez menos inclinados para transportar largas somas de dinheiro “vivo”. O facto de os portugueses recorrerem cada vez mais ao dinheiro “de plástico” – nas lojas ou na Internet – não significa necessariamente que estejam a gastar mais. Significa que estão a pagar de maneira diferente.

 

Os SMS enviados atingem valores absurdos? Gasto irresponsável de dinheiro, dizem os apontadores de dedos. É claro que pode também significar uma maior adaptação a uma tecnologia que revolucionou as nossas vidas, uma substituição do tradicional postal de boas festas ou uma dispensa de visitar amigos e conhecidos (sintoma de uma sociedade cada vez mais impessoal).

 

As viagens de reveillon estão esgotadas? Cambada de consumistas, dizem os profissionais da indignação, esquecendo-se que hoje em dia as viagens são vistas como um bem de primeira necessidade, permitindo uma pausa indispensável para que se consiga aguentar um ritmo de vida cada vez mais exigente e intranquilo.

 

Uma análise séria destes indicadores poderá ajudar a detectar mudanças nos hábitos e nos padrões de consumo da nossa sociedade. Uma análise populista serve para afectar uma superioridade moral e para criticar a plebe.

 

O mais curioso é que, analisando o que se conhece de muitos destes poupadores de dinheiro alheio, verificamos que eles próprios não seguem os conselhos que não hesitam em dar aos outros. Alguns são doidos por gadgets, outros não largam o telemóvel, outros ofercem(-se) presentes caríssimos, outros ainda estão constantemente a viajar (alguns escrevem mesmo artigos ou livros a publicitar essas viagens). Muitos dos que criticam o consumismo dos outros não passam, eles próprios, de consumistas desenfreados.

 

“Mas eu posso!” – suspeito que seja a sua defesa.

 

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publicado por Carlos Carvalho às 03:45
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