Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006

Estudos

A APF divulgou um estudo/sondagem por si encomendado a uma empresa de estudos de mercado. Gostaria de me pronunciar sobre o mesmo, mas estranhamente este ainda não está disponível online. Curiosa maneira de fazer ciência, esta de não facilitar o acesso às fontes, obrigando os interessados a contentarem-se com um resumo das conclusões já filtradas por jornalistas e conferencistas…

 

Também não sei se esta sondagem foi depositada junto da ERC, o que é obrigatório por lei face ao teor de algumas perguntas (sobre intenções de voto).

 

Admitamos no entanto que este estudo não ande longe dos números reais. Só que números são apenas números, servindo de pouco se não forem interpretados de forma isenta. Assim, podemos afirmar que o estudo corrobora alguns dos argumentos do “sim”. Mas corrobora igualmente alguns dos argumentos do “não”. Alguns exemplos:

 

- Face ao número de mulheres que já abortaram e à homogeneidade da sua distribuição por classes sociais, cai por terra a ideia de que as mulheres precisam da ajuda financeira do Estado para abortar. Aliás, não se compreende por que motivo o Estado deverá suportar financeiramente os abortos daquelas que têm dinheiro para “ir a Londres”.

 

- Percebe-se que o aborto é (ou foi – neste aspecto os dados não são claros) muitas vezes o único método contraceptivo a que as mulheres recorreram. Pelo que é mais urgente investir no planeamento familiar e na educação sexual do que financiar abortos.

 

- Constata-se que abortar pode pôr em causa a saúde física e (sobretudo) psíquica da mulher. Mesmo quando o aborto é realizado por profissionais competentes.

 

- 363 mil mulheres já abortaram. 18 mil fizeram-no no último ano. Logo, o estudo refere-se a abortos realizados ao longo de cerca de 20 anos. Não conseguiram detectar nenhuma evolução de comportamentos? Ou tal não foi estudado (apesar de, aparentemente, terem os números à sua disposição)?

 

Creio que há argumentos válidos de ambos os lados, e que qualquer solução legislativa terá sempre virtudes e defeitos. No próximo referendo não iremos decidir entre o bem e o mal - iremos escolher o mal menor. Para tal, urge estudar aprofundadamente o problema em todas as suas vertentes.

 

Pelo que dele se conhece, este estudo, quando publicado, poderá vir a dar a conhecer uma parte da realidade. Mas estará longe de retratar todas as facetas do problema. Poderá vir a ser útil, mas não será nunca definitivo.

 

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publicado por Carlos Carvalho às 03:23
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