Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2006

Biologia e sociedade

Uma das maiores conquistas dos nossos tempos foi a da emancipação da mulher. Apesar de ainda nem tudo estar feito, o que já se conseguiu em termos de igualdade entre géneros é tido como irreversível, ao ponto das gerações mais novas já não conceberem a vida sem a sua existência. Ainda bem que assim é.

 

Só que, como todas as conquistas, a emancipação da mulher não foi conseguida sem sacrifícios. E o maior foi talvez o da sua biologia.

 

Para conseguirem vingar num mundo de homens, as mulheres tiveram em muitos casos de agir como eles, viver como eles, equipararem-se a eles. Tiveram amiúde de sacrificar aquelas especificidades femininas capazes de as prejudicar num mercado de trabalho cada vez mais competitivo. Para poderem competir em pé de igualdade com os homens, tiveram de adiar a maternidade e prescindir de uma prole numerosa.

 

Em certo sentido, as funções sociais e biológicas da mulher entraram em conflito. De difícil resolução. Se por um lado é impossível advogar um retrocesso no papel da mulher na sociedade, por outro não é possível viver desfasado da biologia.

 

É neste dilema que vivem muitas das mulheres da minha geração. Querem ter filhos mas a sua carreira não o permite, vão adiando a gravidez muitas vezes para além do biologicamente recomendável, e quando finalmente decidem engravidar têm frequentemente dificuldades em consegui-lo (quando não é já tarde demais). Entre 1996 e 2005, a idade média da mulher ao nascimento do primeiro filho subiu quase dois anos. Ao invés do que acontecia ainda há dez anos, há hoje muito mais primeiras gravidezes entre os 30-34 anos do que entre os 20-24.

 

Este é um dos maiores problemas da minha geração: como conciliar a biologia da mulher com as suas novas funções sociais (sem abdicar destas)?

 

Em meu entender, a legalização do aborto não contribui em nada para esta conciliação. Pelo contrário, temo que acabe por contribuir para agravar o problema.

 

O mercado de trabalho é hostil para com a maternidade. E a sociedade pouco faz para combater esta hostilidade. Com a legalização do aborto, temo que este venha a ser usado como mais uma arma contra as mulheres, e que estas venham a ser (ainda mais) coagidas a praticá-lo.

 

“Aborta!” – dirá o mercado de trabalho à mulher. “Aborta e não me chateies!” – será a protecção que esta obterá da sociedade.

 

Não me parece que seja este o caminho.

 

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publicado por Carlos Carvalho às 02:05
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