Sexta-feira, 29 de Setembro de 2006

Ainda mais uns trocos

Em várias conversas tidas recentemente, apercebi-me que muita gente tomou como boa a informação contida no “documentário” Loose Change. “Se a RTP o passou é porque a coisa é credível” – disseram algumas dessas pessoas.

 

Sinceramente, penso que já nem sequer vale a pena insistir em contrariar essas pessoas. Se até agora ainda não perceberam o que está errado, não creio que o venham a perceber.

 

E o que está errado são os factos. Podemos especular sobre factos conhecidos – o que até pode ser um exercício interessante. Podemos até duvidar dos factos que nos são apresentados – sobretudo quando as fontes não nos oferecem confiança. Não podemos é deturpar, manipular, omitir e falsificar factos só para que estes encaixem nas nossas teorias. Se procedermos assim, então não há nada neste mundo que não possa ser provado/desmentido.

 

O mais grave neste “documentário” não é o ter sido realizado. O mais grave é o ter sido transmitido pela RTP, um órgão de informação que se diz credível. Tomemos um exemplo nacional. A RTP pode passar um documentário a dizer que a morte de Sá Carneiro foi um atentado. A RTP pode passar um documentário a dizer que a morte de Sá Carneiro foi um acidente. O que a RTP não pode fazer é passar um “documentário” que afirme que não foram encontrados corpos em Camarate, que afinal Sá Carneiro está vivo, e que tudo não passou de uma manobra de diversão para que ele pudesse fugir para as Maldivas com Snu Abecassis. Quem não consegue distinguir uma coisa da outra não merece ostentar uma carteira de jornalista, nem ter quaisquer responsabilidades na programação de uma televisão paga por todos nós para (alegadamente) prestar um serviço público.

 

Já agora: passou há dias na SIC Notícias um documentário sobre o primeiro homem a conseguir engravidar. Passaram entrevistas do próprio e de amigos. Passaram declarações do médico que lhe implantou um útero. Mostraram fotografias do procedimento cirúrgico e creio que até de uma ecografia. Houve mesmo um jornal que chegou a noticiar o caso. A coisa estava bem feita, e muitos teriam acreditado na história se, ao fim de largos minutos, os autores do documentário não tivessem confessado o embuste. Aqui, como no Loose Change, a informação foi propositadamente manipulada para induzir em erro os espectadores. Só que aqui, ao contrário do Loose Change, os autores fizeram-no para alertar os espectadores contra charlatães. Uma coisa é a dúvida legítima, outra é a crendice cega. Uma ajuda ao desenvolvimento da sociedade, a outra empurra-a para a idade das trevas.

 

 

tags:
publicado por Carlos Carvalho às 18:20
link do post | comentar | favorito
|

.autor

. Carlos Carvalho

. cesaredama@sapo.pt

.pesquisar

.artigos recentes

. Elites à rasca?

. Versões de Portas

. A maior de sempre?

. Fama

. Passos

. Escalões

. Obrigadinho

. Não entendo

. Coincidências

. O aleijadinho de Alijó

. Humor negro

. Calendário

. Manuais escolares em .pdf

. Guerra ao imposto

. Cuidado com os ciclistas ...

.arquivo

.sugestões

blogs SAPO

.subscrever feeds