Quinta-feira, 14 de Setembro de 2006

Milagres

Uma coisa que sempre me intrigou nas várias Igrejas foi a declaração de milagres. Um tipo, devoto fervoroso, cura-se sem que os médicos saibam como. Perante a ignorância, parte-se para uma explicação sobrenatural: como não sei o que aconteceu, posso afirmar com certeza que houve uma intervenção divina.

 

O Homem tem pavor à ignorância. Tem de ser capaz de explicar tudo. O que não é necessariamente mau. É este pavor que nos deu a Ciência. Só que esta tem os seus limites (que não esconde), e à medida que vai descobrindo novas respostas descobre também novas perguntas.

 

O que fazer quando a Ciência não é suficiente para nos apaziguar o espírito? É nesta altura que surge o conceito de Deus. O Homem intui que, por mais que procure, por mais que descubra, por mais que acumule conhecimentos, há perguntas a que nunca será capaz de responder, há coisas que transcendem as suas capacidades cognitivas. É aqui que Deus se encontra. O difícil é distinguir entre o que jamais saberemos e o que ainda desconhecemos, pelo que corremos sempre o risco de chamar Deus à nossa ignorância.

 

Uma boa medida para prevenir este erro é não colocar Deus no caminho da Ciência. Acreditemos ou não em Deus, enquanto cientistas temos que agir como se Ele não existisse. Em Ciência não há verdades absolutas, intervenções ou revelações divinas, limites à curiosidade. Há apenas perguntas respondidas (satisfatoriamente ou não) e perguntas por responder.

 

Se não foi Deus a curar aquele tipo, então como explicas a sua cura? Simples: não explico. O facto de não saber explicar uma coisa não me obriga a tomar como boa a primeira explicação que me apresentam.

 

Dizer “Deus fez isto” não me torna mais conhecedor do que aconteceu. Apenas tranquiliza a minha ignorância, e diminui o meu empenho na procura de uma resposta alternativa.

 

Encontro a Verdade quando deixo de a procurar. Encontro Deus quando deixo de perguntar. Deus, por definição, é o não conhecível. Como posso então saber o que Ele faz ou deixa de fazer?

 

Há coisas que não consigo explicar? Há. Há milagres? Não sei. Mas, para minha inquietação e contrariando a minha preguiça, ajo como se não existissem. Prefiro não mascarar a minha ignorância com analgésicos.

  

publicado por Carlos Carvalho às 00:01
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