Terça-feira, 1 de Agosto de 2006

Cessar-fogo

Parece-me haver três situações em que as partes beligerantes aceitam falar de um cessar-fogo.
 
Uma ocorre quando o conflito chega a um impasse e, à falta de uma vitória, resta a ambas as partes contentarem-se com um empate.
 
Outra ocorre quando “dá jeito” suspender momentaneamente os conflitos, seja para acudir aos atingidos, para evacuar populações ou para observar certas datas (como a noite de Natal nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial).
 
Finalmente, uma terceira situação ocorre quando uma parte está claramente a ganhar o confronto, e outra parte a perdê-lo. Só neste caso é que faz sentido falar de um cessar-fogo incondicional.
 
Vários governantes libaneses, ao mesmo tempo que reconhecem a sua impotência militar, têm pedido um cessar-fogo incondicional a Israel. Confesso que não entendo este pedido. É que um cessar-fogo incondicional é algo que os mais fortes pedem, e/ou que os mais fracos oferecem. O Líbano quer um cessar-fogo incondicional? Então que comece por anunciar um cessar-fogo da parte do Hezbollah.
 
Este pedido passa bem nas televisões, e dá aos seus autores uma aura pacifista. No entanto, quem o analise com mais detalhe sabe que não é para ser levado a sério.
 
Em primeiro lugar, os governantes libaneses pedem que Israel cesse incondicionalmente os seus ataques sem fazerem o mesmo pedido ao Hezbollah. Porque não o fazem? Porque não podem (o que os torna irrelevantes nesta guerra)? Ou porque não querem (o que os torna uma parte envolvida no conflito)?
 
Em segundo lugar, o cessar-fogo pedido é tudo menos incondicional. Os governantes libaneses querem que Israel desista da guerra, que se sente à mesa das negociações, que faça uma troca de prisioneiros e que se retire de territórios que dizem pertencer ao Líbano. Ou seja, a parte mais fraca está a pedir à mais forte que se declare derrotada, e que ceda a todas as exigência feitas pelo Hezbollah aquando do rapto dos soldados israelitas - aumentando assim o poder e a influência desta organização na região. Isto vindo de quem nem sequer controla o próprio país...
 
Para haver um cessar-fogo é necessário que todas as partes estejam dispostas a aceitá-lo. Para haver um cessar-fogo incondicional é necessário que uma das partes se dê como vencida, restando-lhe negociar com os vencedores os termos da rendição. Tudo o demais é fogo-de-artifício, muito útil para entreter diplomatas, jornalistas e comentadores, mas que nada tem que ver com a realidade.
 
publicado por Carlos Carvalho às 20:39
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