Segunda-feira, 31 de Julho de 2006

Silicone

A cobertura noticiosa de cenários de guerra, em que as deslocações dos jornalistas são bastante controladas, exige destes um forte sentido de autocontrolo, para que não se transformem em meros retransmissores de propaganda alheia e para que não passem ao lado da realidade.

 

As reportagens feitas em zonas controladas pelo Hezbollah a que vamos assistindo parecem, regra geral, clones umas das outras. Têm todas declarações “espontâneas” de populares, a amaldiçoar a América e Israel. Têm todas gente aos saltos e aos berros, jurando querer devotar o resto das suas vidas à causa do Hezbollah. Têm todas as mesmas ambulâncias, convenientemente acabadas de partir rumo a mais uma emergência. São tão parecidas que parecem resultar do mesmo guião. A questão é: quem anda a escrever este guião?

 

Como referiu Anderson Cooper na reportagem aqui citada, muitas das imagens que nos são servidas à hora do jantar não são espontâneas, nem resultam do trabalho apurado de um qualquer cameraman. Pelo contrário, são encenações da realidade servidas de bandeja aos repórteres, para que estes possam captar imagens apelativas sem muito trabalho.

 

Desconfio que os escrúpulos da maioria dos jornalistas não os impeçam de usar estas imagens. Como diz muito marialva a propósito do silicone no peito das senhoras, mais vale uma boa imitação do que um mau original. Neste caso, mais vale uma boa imagem encenada do que uma má imagem espontânea, sobretudo quando a primeira passa bem pela segunda.

 

Pode até acontecer que a encenação não se afaste muito da realidade. Pode até ser que um pouco de silicone televisivo torne a reportagem mais apelativa, a ainda por cima mais fácil de realizar. Mas esta opção tem riscos, riscos que os jornalistas deviam ponderar se vale a pena correr.

 

Um risco é o da imparcialidade. Qualquer encenação é feita por alguém, e em benefício desse alguém. Recorrer à encenação em vez da realidade leva a que os jornalistas acabem por passar pelo menos parte da propaganda debitada pelos encenadores.

 

Outro risco é o da intensidade. Não haverá muitas diferenças entre as imagens de uma ambulância em missão de socorro e as de uma ambulância que está à espera da chegada dos jornalistas para ligar as sirenes e arrancar para mais uma volta ao quarteirão. Não haverá muitas diferenças entre as imagens de manifestantes espontâneos e as de “populares” incentivados a manifestarem-se por militantes do Hezbollah (que se recusam a ser filmados). Tal como não há muitas diferenças entre uma perdiz morta por um caçador que passou todo o dia a calcorrear montes e vales e uma perdiz posta à frente de um caçador confortavelmente instalado para que este possa dar um tiro. O problema é que as primeiras situações obrigam ao esforço, e ocorrem com menor frequência, ao passo que as segundas dão uma ilusão de intensidade que tem pouco de real.

 

Por último, corre-se o risco da credibilidade. Optar entre o espectáculo em detrimento da realidade pode ser apelativo, e garante quase sempre imagens mais expressivas. Só que o público acabará, mais cedo ou mais tarde, por desconfiar dos jornalistas, passando a encarar as notícias como simples entretenimento. Nada que muitos responsáveis televisivos secretamente não desejem…

 

Nas reportagens que nos vão chegando do Médio Oriente, bem como de outras partes do mundo em conflito, quanto é real e quanto é silicone? Urge responder a esta pergunta, para que a dúvida sobre algumas das partes não nos leve a duvidar do todo.

 

publicado por Carlos Carvalho às 02:06
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