Segunda-feira, 31 de Julho de 2006

Ficção

No township de Kalehong, subúrbios de Joanesburgo, milhares de simpatizantes do ANC celebravam a retirada de unidades do exército sul-africano. Como habitualmente, aqui, a festa confundiu-se com a violência e esta esteve à beira de degenerar em tragédia. Mas a criança que jaz no chão não está morta, apenas finge. Na ausência do real, simula-se, então: um batalhão de fotógrafos e cameramen precipita-se sobre o suposto cadáver. Mais sensível e mais inteligente, porém, um fotógrafo desconhecido preferiu antes, como quem se olha ao espelho, fotografar a fotografia. A morte (ou a sua aparência) tornou-se um espectáculo e o que há de diferente nesta fotografia é que ela fotografa o próprio espectáculo. Como fez Velásquez em As Meninas, somos confrontados com o objecto e com o olhar que desvenda o objecto. E o que resulta deste momento de génio de um fotógrafo é que a notícia que a fotografia revela passa a ser, não a suposta morte de mais um negro na África do Sul, mas a denúncia arrasadora da crueldade mediática para que por vezes resvalamos, e que chega ao ponto de encenar a própria tragédia, na ausência da tragédia real.

 

Fotografia e texto publicados na Grande Reportagem n.º 37 (Abril de 1994).

 

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publicado por Carlos Carvalho às 00:00
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