Sexta-feira, 30 de Junho de 2006

Médias e soberanas

No que toca à paridade, as coisas por estes lados até que nem começaram mal. O problema é que, à medida que o tempo foi passando, as mulheres foram ficando cada vez mais afastadas da liderança do país.
 
Nos tempos do primeiro Condado Portucalense (ou, se preferirem, Condado de Portucale), entre os dez detentores do título houve três mulheres: Onega Lucides, Mumadona Dias (conhecida sobretudo pelo seu testamento) e Ilduara Mendes. Apesar dos nomes, crê-se que foram senhoras de grande valor. Proporção de mulheres: 30%.
 
Já nos tempos do segundo Condado Portucalense, e se dermos como legítimas as pretensões de D. Teresa de Leão, houve uma condessa entre dois condes (D. Henrique e D. Afonso Henriques). Proporção de mulheres: 33%.
 
Na Monarquia, as contas complicam-se. Quantos reis devemos considerar? 34? 35? 36? A questão não é pacífica. Mas se incluirmos D. Beatriz (filha de D. Fernando), D. António (Prior do Crato) e D. Miguel na lista dos soberanos, temos uma total de três rainhas - D. Beatriz, D. Maria I e D. Maria II - e de 33 reis. Proporção de mulheres: 8%.
 
Na República, as contas também não são fáceis. Canto e Castro foi um presidente legítimo? E Salazar? Incluindo o primeiro e excluindo o segundo, temos um total de 18 presidentes (Bernardino Machado foi Presidente por duas vezes). Proporção de mulheres: 0%.
 
Considerando o número de anos decorridos, entre 868 e 1853 tivemos sete soberanas (condessas ou rainhas), duas das quais de duvidosa legitimidade. Excluindo os 22 anos sem condado, temos, em média, uma soberana a cada 137 anos.
 
D. Maria II morreu há 153 anos. Para cumprir a média, devemos uma mulher à chefia do Estado desde 1990. Mas admitamos que a República iniciou uma nova contagem. Esta ainda só leva 96 anos. Se se cumprir a média, teremos uma mulher na Presidência lá para o ano de 2047.
 
Considerando o número de “soberanos”, temos um total de 67 condes, reis e presidentes. Arredondando, em cada dez “soberanos” um foi mulher.
 
Neste caso, nem sequer vale a pena fazer contas entre a morte de D. Maria II e a eleição de Ramalho Eanes. Se se cumprir a tradição de reeleição dos presidentes para um segundo mandato, então teremos uma mulher na presidência lá para 2066.
 
Mas nem só de médias vive a humanidade. Se atendermos ao número máximo de anos sem uma mulher na chefia do Estado (392), então só bateremos o recorde lá para 2245. Tenhamos esperança. Afinal de contas, os recordes fizeram-se para serem batidos...
 
publicado por Carlos Carvalho às 03:46
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