Terça-feira, 20 de Junho de 2006

Nobres e joelhos

Morreu uma bebé proveniente de Elvas na maternidade de Badajoz. Ao que parece, as suas hipóteses de sobrevivência seriam diminutas, independentemente do local onde ocorresse o parto. Apresento as minhas condolências aos familiares.
 
Esta é uma das consequências mais perversas do encerramento das maternidades: a partir de agora, e durante algum tempo, todo e qualquer bebé que venha a falecer será usado como arma de arremesso contra o ministro. Sinceramente, não quero ir por aí.
 
O problema com esta morte não foi a morte em si, mas a maneira como os responsáveis ministeriais reagiram a ela. Esta morte levantou algumas questões, aparentemente pouco acauteladas, sobre a trasladação de cadáveres entre Espanha e Portugal. Questões metodológicas e financeiras.
 
“Foram para Badajoz porque quiseram, agora desemerdem-se”, “Nem sequer pensámos nesta eventualidade”, “O Estado não tem que se preocupar com estes assuntos”. Estas frases poderiam resumir as declarações dos responsáveis ministeriais sobre este caso.
 
Em primeiro lugar, garantiram-nos que a decisão de encerrar maternidades se encontrava suportada por rigorosos estudos. Não se compreende por isso que esta situação não estivesse já prevista e acautelada.
 
Em segundo lugar, é dum cinismo sem tamanho encerrar uma maternidade para depois vir dizer que o recurso à maternidade mais próxima é uma decisão da responsabilidade exclusiva dos futuros pais.
 
Em terceiro lugar, uma grávida enviada pelo Estado para ter o filho no estrangeiro, em caso de morte do bebé, deve poder recuperar o seu cadáver em condições similares às que teria em Portugal. Sem mais burocracias e sem despesas acrescidas.
 
Finalmente, os responsáveis ministeriais devem pensar duas vezes antes de se pronunciarem sobre questões que envolvam a morte de bebés. Estes são momentos particularmente dolorosos para os envolvidos. Estes certamente que dispensam declarações cruas, economicistas, em tom acusatório, sobretudo quando proferidas por quem admite não ter previsto adequadamente a situação.
 
Por muito nobres que sejam as intenções ministeriais, a impressão com que se fica é a de que o encerramento das maternidades foi feito à pressa, em cima do joelho, sem acautelar devidamente os interesses dos utentes. Regra geral, a irresponsabilidade tem um custo. Em questões de saúde, esse custo é, frequentemente, insuportável.
 
publicado por Carlos Carvalho às 02:40
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