Terça-feira, 13 de Junho de 2006

Mártires de Marrocos

Como cinco frades italianos da Ordem de S. Francisco foram a Marrocos a pregar a Fé de Christo, e primeiramente chegaram a Sevilha, que era de Mouros
 
Na era de nosso Senhor de 1219, S. Francisco, por vontade de Deos, escolheo seis Frades de sua Ordem por natureza Italianos, e de maravilhosa santidade, a saber: Frei Vital, e Berardo, Otone, Acurcio, Pedro, e Adjuto, e por saberem bem a lingoa Arabiga os mandou ao Rei, e Reino de Marrocos, para lhe pregarem e trabalharem pelo converter á Fé de Christo.
Frei Vital adeceo, e mandou [aos outros] que fossem a Marrocos, os quaes o leixaram doente e se partiram.
Com seus habitos dissimulados foram á Cidade de Sevilha, que então era de Mouros. Leixados os habitos leigos [e] fervendo seu espirito para Martyrio, elles se foram á principal Mesquita dos Mouros, e como em ella quizessem entrar, os infiéis, que os viram e conheceram, endinados contra elles com empuxões, brados e açoutes que lhe deram, os não consentiram entrar.
E dahi indo-se ás portas dos Paços foram levados ante El-Rei, e perguntados quem eram? Responderam: que vinham a elle Rei por Embaixadores, e enviados do Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores, que era Jesu Christo.
E ante El-Rei muitas e mui dinas cousas da Fé Chatólica proposessem, aconselhando-o para receber agoa do santo Bautismo.
El-Rei endinado de grande ira contra elles lhes mandava cortar as cabeças, mas amançado por palavras de um seu filho, que era prezente, os mandou meter em uma torre mui alta junto dos Paços, de cuja altura elles não leixavam de pregar em altas vozes a Fé de Christo.
Anojado El-Rei de suas palavras, e para lhe arredar o azo de as não poderem dizer, os mandou meter no mais profundo da Torre, donde por conselho dos seus vassalos os mandou tirar, e levar a Marrocos.
 
Como os Frades chegram a caza do Ifante Dom Pedro, e do que logo fizeram, e como foram tornados a Ceyta para virem a terra dos Christãos, e dahi se volveram outra vez a Marrocos
 
Nesse tempo estava em Marrocos o Ifante Dom Pedro, filho del-Rei Dom Sancho, e irmão deste Rei Dom Affonso, a cuja caza os ditos Frades logo chegaram, e o Ifante os recebeo.
E os Frades como viam quasquer Mouros logo com muito fervor lhes pregavam, especialmente Frei Berardo.
O Mirabolim ia visitar, como tinha de costume, a sepultura dos Mouros Reis, e vendo o Frade pregar e por não querer desistir da pregação, estimando-o por homem sandeo, mandou que elle com todos os Frades fossem lançados fora da Cidade, pelo qual o Ifante Dom Pedro lhes deu alguns seus servidores que os levassem até a Cidade de Ceyta, para dahi logo passarem a terra dos fieis.
Mas os Santos Padres leixaram as guias e tornaram-se outra vez a Marrocos, e como chegassem á praça da Cidade logo aos muitos Mouros que nella acharam começaram de pregar, louvando os merecimentos da Fé de Christo, e brasfemando dos vícios e erros de Mafamede e sua seita.
El-Rei os mandou logo meter em um estreito carcere. Vinte dias foram encarcerados asperamente, e neste tempo, porque em toda aquella terra sobrevieram mui grandes e desordenadas quenturas do Sol e grandes destemperamentos do Ar, alguns creram que estes males poderiam vir da injusta prizão dos Frades, pelo qual concelho de um Mouro chamado Abotorim, El-Rei consentio que fossem livres do carcere, e trazidos ante elle, mandou aos Christãos que sem mais detença os mandassem a sua terra.
E com tudo elles como se viram soltos, logo sem algum medo outra vez quizeram tornar a pregar aos Mouros, mas outros Christãos que com elles estavam, receosos da ira del-Rei, lho não consentiram.
Então lhes ordenaram logo outros homens fieis que os acompanhassem e levassem outra vez a Ceyta, para dahi passarem a terra dos Christãos.
Mas os ditos Frades, sospirando por seu Martyrio, despedindo-se daquelles que os levavam se tornaram outra vez a Marrocos, onde o Ifante os mandou logo recolher, e encerrar em sua caza com guardas que os não leixassem sahir, porque receava que El-Rei não sómente mandaria matar os Frades, mas a elle e a todos os christãos que houvesse na Cidade.
 
De um milagre que se fez por causa de Frei Berardo, e como foram prezos e atormentados os outros Frades
 
O Mirabolim a este tempo mandou o Ifante Dom Pedro com outros muitos nobres homens de Christãos, e Mouros, que delle tinham soldo fazendo guerra, a uns senhores Mouros seus vassallos, que se lhes rebelaram.
Tornando o Ifante com os outros Mouros da conquista que lhes fora encomendada, vieram por uma terra tão seca que por três dias não poderam achar agoa para beber, e como a estreiteza da sede desesperasse todos das vidas, Frei Berardo tomou na mão um piqueno pao com que cavou um pouco na terra mui seca, donde milagrosamente sahio uma grande fonte de agoa doce, de que não sómente os homens e alimarias bebiam e se abasteceram, mas ainda encheram muitos odres que levaram para o caminho.
E como estes Santos Frades tornassem a Marrocos, e em caza do Ifante fosse por elles posta grande guarda, para não sahirem, e elles toda via sairam, e em uma Sexta feira, que o Mirabolim ia visitar os sepulchros dos Reis Mouros, os Frades se apresentaram ante elle, e Frei Bernardo começou de lhe pregar mui sem receio, e como El-Rei os visse, cheo de ira contra elles, mandou a um seu Capitão Mouro que logo lhes cortasse as cabeças, pelo qual os Christãos, que eram prezentes, com temor de suas próprias mortes, logo fugiram dahi.
Mas o Principe Mouro mandou aos homens da justiça que trouxessem os Frades ante elle, e sendo outra vez trazidos ante o dito Principe, e com tanta constancia os visse pregar e confessar a Fé Cathólica, e reprovar e reprehender as couzas de Mafamede e sua seita, acezo da ira contra elles os mandou logo atormentar e açoutar, e tão sem piedade os açoutavam que as tripas lhe apareciam.
E assi foram por toda a noite atormentados, na qual noite daquelles que os guardavam foi visto que um grande resplandor decendia dos Ceos, e maravilhados desso os Mouros, e de todo espantados, chegado ao carcere acharam os Santos Frades devotamente orando.
 
Como El-Rei de Marrocos fallou com estes Frades, e por os não poder converter a sua seita por si mesmo os matou
 
As quaes couzas ouvindo El-Rei de Marrocos, acezo com maior sanha contra elles, mandou que logo lhe fossem levados com as mãos atadas e descalços dos pés, e depois dos corpos continuamente açoutados e espancados.
Como El-Rei na Fé de Christo os visse tão firmes, apartados os Santos um do outro, por suas proprias e mui cruas mãos a cada um per si talhou as cabeças por meio das fontes, e apertando na mão tres cutelos, juntamente com uma crueza de besta os degolou, os quaes cumpriram o seu Martyrio a dezasseis dias de Janeiro do anno de Christo de 1220.
 
Como o Ifante Dom Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os ossos, e Reliquias dos Martyres, e as mandou a Santa Cruz de Coimbra
 
Estando o Ifante da sua liberdade assás desconfiado, o Mirabolim o mandou chamar, e alegremente lhe deu licença que para sua terra se viesse quando quizesse.
O que assim foi feito, e aportaram a Sevilha, que era de Mouros, onde por os Christãos que ahi eram o Ifante foi avizado que logo se partisse, porque El-Rei de Sevilha o mandava prender.
Pelo qual logo ahi embarcaram, e vieram a Astorga, que é em Galiza do Reino de Lião, onde então reinava El-Rei Dom Affonso, primo com irmão do Ifante Dom Pedro.
O Ifante Dom Pedro não veio com as Reliquias dos martyres a Coimbra, mas de Astorga mandou com ellas Affonso Pires de Arganil, porque o Ifante Dom Pedro não era bem avindo com El-Rei Dom Affonso de Portugal seu irmão.
 
Como as Reliquias dos Martyres foram recebidas
 
Como Affonso Pires chegasse a Coimbra, mui devota e solene Procissão saio a receber as sagradas Relíquias, e com muita devoção e grande solenidade as levaram ao Moesteiro de Santa Cruz, onde mui honradamete as leixaram, e como a nova do glorioso Martyrio destes Santos Frades chegasse a S. Francisco, alegrando-se em seu espírito, disse: «Agora verdadeiramente posso dizer que tenho cinco irmãos».
 
Como Santo António por exemplo destes Martyres tomou o habito de S. Francisco
 
Despois que estes Santos Martyres começaram de resplandecer com mui claros milagres, e por exemplo delles o Bemaventurado Antonio que a este tempo era Conego no Moesteiro de Santa Cruz mesmo, e se chamava Fernando Martins, ardendo com o desejo de semelhante Martyrio, entrou na mesma Ordem dos Menores, em idade de vinte e cinco annos, e nella acabou dez annos, exclarecido em santidade, e com milagres.
 
Excertos da “Crónica de El-rei D. Afonso II”, de Ruy de Pina
 
publicado por Carlos Carvalho às 00:05
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1 comentário:
De tia altisidora a 26 de Abril de 2009 às 21:17
San Berardo

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