Quinta-feira, 8 de Junho de 2006

Lopes de Lima

José Joaquim Lopes de Lima, capitão de mar-e-guerra, partidário de Costa Cabral, deputado, conselheiro de Estado, governador civil de vários distritos no Continente e no Ultramar, governador geral interino da Índia e autor de importantes obras sobre as estatísticas coloniais, fez o suficiente na vida para que o seu nome fosse recordado com respeito. No entanto, aqueles que ainda hoje o recordam consideram-no provavelmente um traidor.
 
Após uma passagem desastrosa por Goa, Lopes de Lima foi nomeado em 1850 governador da recém-criada província de Solor e Timor, até então administrativamente dependente de Macau (não faltou quem dissesse que esta separação só se realizou para satisfazer o nomeado).
 
Mal chegou ao território, Lopes de Lima percebeu onde se tinha metido: encontrou uma administração desorganizada e desrespeitada pelos locais, na bancarrota, sem dinheiro para pagar salários. Lopes de Lima não podia sequer pagar as despesas de manutenção da embarcação que capitaneava. Numa palavra, a presença portuguesa em Timor pouco mais era do que um mito. E do que um sorvedouro.
 
Estando a posse de alguns territórios desta região a ser disputada entre holandeses e portugueses, os dois países decidiram criar uma comissão de delimitação dos territórios disputados, com o intuito de desenhar fronteiras estáveis e claras entre as possessões dos dois países. Lopes de Lima presidiu, por nomeação de Lisboa, à delegação portuguesa. Quaisquer que fossem as conclusões desta comissão, estas só seriam válidas após aprovação de ambos os governos.
 
Lopes de Lima chegou a acordo com o seu homólogo holandês. Cedeu aos holandeses as pretensões portuguesas nas Flores e no arquipélago de Solor (historicamente mais importantes do que Timor). Em troca, Portugal receberia alguns enclaves holandeses na parte oriental de Timor e 200 mil florins em dinheiro.
 
Os holandeses sentiram a necessidade de consultar o seu governo, por não se acharem mandatados para alienar territórios nacionais. Lopes de Lima sentia a necessidade de dinheiro fresco. Assim, cedeu desde logo - sem consultar Lisboa - os referidos territórios, em troca de um avanço de 80 mil florins. Como é evidente, os holandeses apressaram-se a pagar esta quantia, e a ocupar os territórios cedidos.
 
Quando a notícia do sucedido chegou a Lisboa, caiu o Carmo e a Trindade. Lopes de Lima foi destituído e mandado regressar, sob prisão, a Portugal. Morreu em Batávia (Jacarta), durante a viagem de regresso.
 
Apesar de repudiado, o acordo acabou por ser respeitado (nem Portugal estava em condições de devolver os 80 mil florins nem a Holanda estava disposta a devolver os territórios cedidos), servindo de base às futuras - e longas - negociações (só terminadas em 1916).
 
A bem do orgulho nacional, Solor permaneceu ainda muitas décadas como território português - pelo menos na Carta Constitucional. Tal como muitos ainda hoje defendem que Olivença é portuguesa. Pois bem, os cofres portugueses encontram-se, mais uma vez, depauperados. Não haverá por aí um qualquer Lopes de Lima que possamos enviar a Espanha para negociar esta questão?

 

publicado por Carlos Carvalho às 00:46
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