Terça-feira, 6 de Junho de 2006

Voos e incêndios

Nos últimos anos, tem crescido em Portugal o deslumbramento face aos meios aéreos de combate aos incêndios. Fez-se do seu número (e do dinheiro que neles se gasta) uma espécie de indicador do interesse do governo por este assunto. Aviões e helicópteros transformaram-se na panaceia tecnológica que finalmente irá salvar o nosso país das labaredas.
 
Posto isto, quase ninguém tem chamado a atenção para o facto da utilização destes meios só fazer sentido em três situações: quando o fogo está no início, quando se pretende evitar que o fogo atinja uma área delimitada (uma casa, por exemplo) ou quando não há qualquer possibilidade de combater o incêndio por outros meios (embora neste caso seja muitas vezes mais económico deixar arder). Nos restantes casos, o recurso a estes meios não passa de um desperdício de dinheiro. E de show-off televisivo.
 
Para que os meios aéreos possam actuar no início do incêndio, não basta ter aviões e helicópteros disponíveis. É igualmente necessário ter uma estrutura de recolha e transmissão de informação ágil e bem distribuída no terreno.
 
Diz-se que estes meios só são verdadeiramente eficazes nos 25 minutos iniciais do incêndio. Admitamos que os helicópteros e aviões demoram 10 minutos para abastecer os tanques e chegar ao local do incêndio (estou a ser optimista). Admitamos que um incêndio é detectado 5 minutos após a sua deflagração. Sobram 10 minutos para a notícia do incêndio percorrer toda a cadeia hierárquica (do vigia ao decisor), para a decisão de envio de meios aéreos ser tomada e para estes levantarem voo.
 
Estará a máquina de combate aos incêndios suficientemente bem estruturada (e o seu funcionamento bem lubrificado) para respeitar estes tempos de reacção? Temo bem que não.
 
Há que apostar na formação dos bombeiros, que em muitos casos julgam que já sabem tudo o que há a saber sobre incêndios e que ninguém tem nada para lhes ensinar. Há que combater algum caciquismo instalado na cadeia de comando. Há que sensibilizar, formar e informar as populações. Há que combater a desertificação do mundo rural. Mas, acima de tudo, há que responder a uma questão fundamental: a culpa é do malho ou do malhadeiro?
 
Atente-se à “nossa” floresta, sobretudo à que arde. Na sua esmagadora maioria, esta é composta por espécies exóticas. Se eu decidir construir uma cave na minha (hipotética) casa de Veneza, a quem é que me posso queixar das infiltrações?
 
publicado por Carlos Carvalho às 23:00
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