Terça-feira, 30 de Maio de 2006

Very typical

Se outras virtudes não tiver o roteiro para a inclusão promovido por Cavaco Silva, pelo menos as declarações do presidente da Câmara Municipal de Alcoutim, Francisco Amaral, já fizeram com que ele tivesse valido a pena.
 
“Temos uma reserva ecológica que nos impingiram e que não nos deixa fazer nada” - afirmou o autarca.
 
Aquando da definição da Rede Natura 2000, houve por parte das autoridades, como sempre acontece nestas ocasiões, uma vontade de ser mais papista do que o Papa. Resultado: quase tudo o que é interior acabou por ficar integrado nessa rede, o que burocratizou e quase impossibilitou a captação de investimentos por parte de municípios já desfavorecidos à partida.
 
(A propósito, veja-se o que se está a passar com o protocolo de Quioto e com as implicações que este já está a ter na nossa economia).
 
Apesar dos milhões então anunciados para preservar o ambiente nestas regiões, a verdade é que a sua desertificação continua a um ritmo imparável. Não deixa de ser irónico: um litoral cada vez mais poluído a impor normas ambientais draconianas a um interior em que o ambiente é o último dos problemas.
 
Estas tentativas periódicas para chamar a atenção para a desertificação do interior, apesar de meritórias, têm dois inconvenientes graves. O primeiro é que tudo isto não passa de fanfarra a mais para tão pouca substância. O segundo é que vêm tarde demais.
 
Apesar do que agora se faça, grande parte do interior já passou do ponto de não retorno. Os que ficaram são velhos demais. Os mais novos anseiam por partir. Os que partiram não têm condições para regressar. E os filhos dos que partiram já não têm nada que ver com o assunto. Apesar do que agora se faça, dentro de uma ou duas décadas grande parte do interior não passará de uma colecção de aldeias-fantasmas.
 
Basta ver as imagens televisivas: a maioria dos entrevistados ostenta a sua idade na cara. A maioria dos entrevistados são o último elo de ligação a um Portugal desaparecido (esperemos que para sempre!). A maioria dos entrevistados já não tem tempo e nunca teve oportunidades para sequer sonhar com uma qualquer modernização sustentável (seja lá isso o que for). A maioria dos entrevistados parece ter saído directamente de um qualquer museu.
 
Nada que apoquente o litoral. Mais: nada que o litoral secretamente não deseje. O litoral tem uma imagem very typical, quase mítica do interior: o interior é bom para passar férias, e quem lá vive deve permanecer num museu vivo de que o litoral gosta de desfrutar no Verão.
 
O resto não é importante.
 
publicado por Carlos Carvalho às 02:01
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