Terça-feira, 23 de Maio de 2006

Os touros e a cidade

De quando em vez reaviva-se a discussão em torno das touradas. Defensores e opositores esgrimem argumentos, alguns válidos, outros nem por isso. Mas penso que a discussão passa muitas vezes ao lado do principal factor que a origina: a cidade afastou-se do mundo rural.
 
Tal como muitos outros animais, os touros são criados para serem abatidos. Mas, ao contrário de outros, os touros são os únicos animais para abate que entram vivos na cidade, e que sofrem à vista de todos.
 
Os habitantes das cidades convivem sobretudo com animais de estimação, e com um ou outro animal no estado selvagem (alguns pássaros, os animais nos zoos). Tendem por isso a achar que todos os animais vivem assim. Pagam a outros para abaterem discretamente os animais de que precisam, e pouco se importam com as atrocidades que estes têm que enfrentar para assegurar o estilo de vida urbano.
 
Parece-me muitas vezes que a questão não está no sofrimento em si, mas na exibição desse sofrimento. Para a cidade, a carne vem do supermercado. O que se passa a montante não é da sua conta, nem está nas suas preocupações. Ver um animal sofrer contraria o mundo pseudo-asséptico em que a cidade julga viver.
 
Esta é a mensagem que a tourada traz à cidade, e que esta tem dificuldade em encarar: os nossos hábitos têm consequências nefastas para muitos animais. Podemos viver na ilusão se o seu sofrimento for escondido. Não o podemos ignorar se estiver à vista de todos. E se passar na televisão.
 
publicado por Carlos Carvalho às 03:42
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