Sexta-feira, 19 de Maio de 2006

Que inveja!

Com a melhoria da qualidade de vida verificada em Portugal nas últimas décadas do século XX, a classe média passou a poder viajar. Apesar de agora a economia ter piorado, a classe média não parece disposta a abdicar de um hábito adquirido.
 
Nestas últimas décadas o ritmo de vida acelerou, o número de filhos diminuiu, as pessoas ficaram mais isoladas da família e da sociedade, o emprego tornou-se mais exigente e menos estável, intensificou-se a sociedade de consumo e deixou de ser uma vergonha viver com dívidas. O comum dos cidadãos habituou-se a ver nas férias um escape para um mundo (cada vez mais) cão, e nos trópicos uma alternativa cada vez mais vantajosa em relação ao tradicional Algarve.
 
O que antigamente era um destino exótico passou a ser um destino massificado, o que antigamente era um luxo da classe alta passou a ser um bem de primeira necessidade da classe média. Talvez a percepção desta realidade esteja um pouco atrasada em relação à realidade em si. Talvez por isso haja muitos a exclamar: “que inveja!”
 
“Que inveja!” - exclamam os amigos/conhecidos/familiares/colegas sempre que alguém exibe um bronzeado recém-adquirido no Brasil/México/República Dominicana/Cuba.
 
“Que inveja!” - exclamam os media (de forma mais mesquinha) quando argumentam com o esgotar das ofertas para estes destinos para desmentir o mau estado da economia ou para confirmar a forma irresponsável como os portugueses gastam o seu dinheiro.
 
“Que piroseira!” - exclamam algumas elites, saudosas dos tempos em que viajar era um sinal de status, e em que podiam falar das suas viagens ser que alguém de menor condição os pudesse interromper com aquele “eu já lá estive” tão irritante.
 
Desdenhar e invejar são por vezes as duas faces da mesma moeda. Alguns invejam as viagens dos outros. Outros desdenham que alguns possam viajar. Uns e outros parecem ignorar que viajar já não é um sonho irrealizável. Uns e outros parecem ignorar que viajar já não é um luxo, mas um bem de primeira necessidade que nos permite ganhar forças para enfrentar uma realidade cada vez mais agreste.
 
Os portugueses viajam cada vez mais. Porque podem. E porque precisam.
 
tags:
publicado por Carlos Carvalho às 02:07
link do post | comentar | favorito
|

.autor

. Carlos Carvalho

. cesaredama@sapo.pt

.pesquisar

.artigos recentes

. Elites à rasca?

. Versões de Portas

. A maior de sempre?

. Fama

. Passos

. Escalões

. Obrigadinho

. Não entendo

. Coincidências

. O aleijadinho de Alijó

. Humor negro

. Calendário

. Manuais escolares em .pdf

. Guerra ao imposto

. Cuidado com os ciclistas ...

.arquivo

.sugestões

blogs SAPO

.subscrever feeds