Sexta-feira, 31 de Março de 2006

Fazedores de mapas

 

A propósito da divisão administrativa do país, tomemos o exemplo da Serra de Estrela. Deve esta serra estar englobada numa região ou servir de fronteira entre duas regiões distintas?

 

Do ponto de vista das populações, a Serra separa. Não faz sentido obrigar as pessoas a atravessar a Serra para acederem, por exemplo, aos serviços de saúde, de justiça ou de educação. A Serra separa também duas realidades agrícolas diferentes, merecedoras de abordagens distintas.

 

Já dos pontos de vista ambiental ou turístico (por exemplo), podemos dizer que a Serra une. Nestes casos, faz todo o sentido unificar os centros de decisão, e não tratar diferenciadamente as duas metades da mesma laranja.

 

Este problema, que tem vindo a ser resolvido ad hoc por cada um dos serviços do Estado, vai colocar-se quando for imposto um critério único para a divisão administrativa do país.

 

Em princípio, sou favorável à criação de um modelo que norteie a divisão do país em regiões, de modo a eliminar a miríade de regiões com que - dependendo do assunto - as populações têm de lidar. Contudo, não posso ignorar que, em alguns casos, as diferentes divisões fazem sentido - e por isso existem.

 

A aplicação de um modelo único de divisão administrativa não pode ser feita “às cegas”, sob pena de se estarem a amalgamar realidades distintas ou de se prestarem piores serviços às populações.

 

Outro problema reside no modelo a adoptar. Porquê optar pelas NUT II e não, por exemplo, pelas direcções regionais de agricultura?

 

Veja-se o caso da região NUT II Norte. Esta estende-se desde o litoral, geralmente urbano e rico, até ao interior transmontano, rural e pobre. Não falta quem encare Trás-os-Montes como um anexo portuense, cuja pobreza dá jeito para as estatísticas e para captar mais subsídios para o litoral. Com o encerramento de alguns serviços que, em temas específicos, reconhecem e abordam a especificidade transmontana, não correremos o risco de estar a votar esta província a um (ainda) maior abandono?

 

Ao cuidado dos fazedores de mapas: a criação de uma minuta de regionalização administrativa é positiva, promover a harmonização em função dessa minuta é desejável, mas a transformação dessa minuta em modelo único e obrigatório pode ter resultados desastrosos.

 

O que é igual não deve ser tratado de forma diferente. Mas o que é diferente não deve ser tratado de forma igual.

 

tags:
publicado por Carlos Carvalho às 02:00
link do post | comentar | favorito
|

.autor

. Carlos Carvalho

. cesaredama@sapo.pt

.pesquisar

.artigos recentes

. Elites à rasca?

. Versões de Portas

. A maior de sempre?

. Fama

. Passos

. Escalões

. Obrigadinho

. Não entendo

. Coincidências

. O aleijadinho de Alijó

. Humor negro

. Calendário

. Manuais escolares em .pdf

. Guerra ao imposto

. Cuidado com os ciclistas ...

.arquivo

.sugestões

blogs SAPO

.subscrever feeds