Quinta-feira, 16 de Março de 2006

Ligado à máquina

Basta viajar pelo país fora das auto-estradas para se perceber que o interior está a morrer. Basta cumprir os limites de velocidade para percebermos que as povoações que vamos atravessando estão cheias de casas vazias, e que as poucas pessoas com que nos cruzamos têm mais passado pelas costas do que futuro pela frente. Não faltam muitos anos para que Portugal possa ser descrito como um deserto entre o litoral e Espanha.

 

Uma tentativa de travar a desertificação passou pelo desenvolvimento das cidades médias do interior. Esta estratégia teve algum sucesso para segurar algumas pessoas na sua região de origem, embora em contrapartida tenha servido para apressar a deslocação da aldeia para a cidade - fisica e culturalmente. Em muitos casos, as pessoas passaram a trabalhar na cidade mais próxima, sendo a sua casa na aldeia usada como dormitório ou como habitação de fim-de-semana.

 

Grande parte deste desenvolvimento passou pelo Estado e pelos serviços por ele criados (repartições ministeriais, empresas camarárias, obras públicas, hospitais, tribunais, universidades, escolas, polícias, correios, etc.), bem mais atractivos do que a tradicional ocupação agrícola. Deve-se ao Estado o facto de milhares e milhares de pessoas viverem ainda no interior, mesmo que já não dispensem um nível e um estilo de vida normalmente conotados com o litoral. A transferência destes serviços implicará a prazo a transferência das populações que deles dependem.

 

Em certa medida, o interior ainda subsiste porque está ligado à máquina. Do Estado. Se esta for abruptamente desligada, o interior rapidamente entrará em coma e morrerá. Perante isto, é natural que estas populações protestem contra o encerramento daqueles serviços que o litoral vê como supérfluos, mas que o interior sabe serem indispensáveis para a sua subsistência.

 

O que fazer quando o paciente só sobrevive ligado à máquina? Manter a máquina ligada na (ténue) esperança de melhoras, ou desligar a máquina porque provavelmente o paciente vai morrer de qualquer maneira e assim sempre se poupam uns cobres em electricidade?

 

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publicado por Carlos Carvalho às 22:47
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2 comentários:
De js a 17 de Março de 2006 às 09:25
... a solução para Portugal está na Cas'OTA... mais informações nos meu blog em http://politicatsf.blogs.sapo.pt
FORÇ'AÍ!
js de http://mprcoiso.blogs.sapo.pt
De rodrigo.martins@gpcb.pt a 17 de Março de 2006 às 16:03
Li outro dia no jornal que 75% da população activa de Lamego trabalha em serviços da administração central, regional e local. É impressionante!

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. Carlos Carvalho

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