Quarta-feira, 6 de Julho de 2005

Otários

Foi mais uma vez anunciada a construção de um novo aeroporto na Ota. Esta obra, cuja necessidade é sustentada por estudos que ninguém conhece, é por muitos vista como mais um elefante branco a juntar aos que já abundam em Portugal.

O que me leva a desconfiar desta obra são as possíveis respostas às seguintes questões:

1. Para quê encerrar a Portela?
É possível que no futuro possa vir a ser necessário um novo aeroporto. Há muitos exemplos de cidades em que se construíram novos aeroportos. Mas serão muito poucos aqueles em que os aeroportos antigos (e o dinheiro neles gasto) foram deitados para o lixo.

A resposta a esta pergunta parece óbvia: só encerrando a Portela é que a Ota se torna viável. Em caso de coexistência dos dois aeroportos, os operadores só optarão pela Ota se não lhes for possível utilizar a Portela. Por outro lado, mantendo-se a Portela a funcionar, o aeroporto da Ota só faria sentido numa escala muito mais modesta.

A única finalidade objectiva desta obra parece ser a de permitir o encerramento da Portela, libertando assim os seus terrenos para novos usos. Ou seja, esta obra parece não passar de uma mera operação imobiliária.

2. Quem irá lucrar com o novo aeroporto?
Com esta obra há quatro beneficiários claros: o governo, que mostra obra e anima temporariamente a economia; a câmara municipal de Alenquer (detida pelo PS), que poderá arrecadar mais receitas com o surgimento de uma nova cidade na Ota; a câmara municipal de Lisboa, que poderá arrecadar mais receitas com a urbanização dos terrenos da Portela; e as empresas de construção civil, que ganharão dinheiro com a construção do novo aeroporto, da nova cidade da Ota e (sobretudo?) com a posssibilidade de novas construções em Lisboa.

3. Quem perde?
Há três prejudicados óbvios com esta obra: a maioria dos utentes, que terão de perder mais tempo e gastar mais dinheiro para viajar; os operadores de voos internos, pois deixará de fazer sentido fazer Lisboa-Porto ou Lisboa-Faro de avião; e os operadores turísticos, pois grande parte do turismo da região de Lisboa insere-se no segmento de short break, muito sensível ao tempo despendido no e a caminho do aeroporto.

Conclusão
O novo aeroporto na Ota, tal como planeado, é uma obra cara e desnecessária, que prejudica quem deveria beneficiar e que só beneficia interesses que, apesar de legítimos, deveriam ser secundários ao projecto.

Acho que o projecto do novo aeroporto deve ser muito bem explicado. É que o povo não diz: na Ota sê otário...

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publicado por Carlos Carvalho às 01:53
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