Sexta-feira, 14 de Outubro de 2005

Autárquicas, 1993

Resumo do debate ocorrido na Assembleia da República em 1993-12-15, logo após as eleições autárquicas.

António Guterres (PS): Em vez de aceitar a derrota e felicitar os vencedores, o Primeiro-Ministro preferiu disfarçar o desaire. É mau que o País seja governado por quem não sabe digerir uma derrota.

O PS alcançou todos os objectivos que impôs a si próprio e todos os que os outros lhe foram impondo. O PSD, pelo seu lado, repetiu, no essencial, os resultados de 1989. Ou seja, repetiu um grave desastre eleitoral. Srs. Deputados do PSD, se vos consola repetir um desastre, ficai consolados.

O Primeiro-Ministro não pode deixar de explicar por que é que houve um milhão de portugueses que votaram PSD em 1991 e deixaram de votar PSD em 1993. No mesmo período, o PS aumentava a sua votação em cerca de 400 000 eleitores. O PS transformou-se no primeiro referencial de confiança, de estabilidade e de esperança para o futuro na vida política portuguesa. A instabilidade, agora, mora no PSD.

A abertura deste novo ciclo torna evidente a necessidade da mudança das políticas. Quem, em dois anos, perde a confiança de mais de 1/3 dos seus eleitores tem manifestamente de reconhecer quer aquelas sofreram uma generalizada rejeição. O Primeiro-Ministro não pode deixar de tirar daí as necessárias ilações.

O Governo e o PSD não podem continuar, arrogantemente, a furtar-se ao diálogo com as oposições e com a sociedade. O PS tem evidenciado sempre uma completa disponibilidade, mesmo à custa do seu imediato interesse partidário, para colaborar com o Governo sempre que esteja em causa o interesse nacional.

As eleições do passado domingo estabeleceram entre os portugueses e o PS uma relação de confiança, de confiança para governar, ao nível do poder local, mais de metade da população e a esmagadora maioria dos centros urbanos. É uma confiança que nos estimula para continuar a trabalhar com serena tranquilidade para merecer a mesma confiança para governar o País.

Nunes Liberato (PSD): As eleições autárquicas destinaram-se a eleger os responsáveis autárquicos. Cedo, os adversários políticos do PSD procuraram atribuir um significado nacional a estas eleições. Alguns previram a hecatombe e a humilhação para o PSD. Houve jornais que apresentaram sondagens fabricadas. Outros levantavam a questão da dissolução da Assembleia da República, na sequência das eleições autárquicas.

Não atingimos o nosso objectivo político, mas a oposição também não atingiu o objectivo político de debilitar o PSD. Ao invés, o PSD sente-se reforçado com estes resultados. Os portugueses conhecem a nossa vontade de resolver os problemas, por mais difíceis que eles sejam, e a nossa determinação de prosseguir as reformas de que o nosso País ainda necessita. O PSD, os seus autarcas eleitos, os Deputados, o Primeiro-Ministro e todo o Governo vão, a partir de hoje, continuar a trabalhar por Portugal ainda com mais força e determinação.

Octávio Teixeira (PCP): É visível que o PSD teve uma clara derrota política nas eleições autárquicas, pois nem sequer conseguiu alcançar o objectivo a que se tinha proposto, publicamente reconhecido de fasquia baixa. Na verdade, o PSD até reduz os resultados obtidos [em] 1989, altura em que reconheceu ter tido uma derrota eleitoral. Ora, se houve derrota eleitoral, em 1989, por que é que agora ela não é reconhecida?!

O voto foi claro: 52 % da população portuguesa disse «não» ao Governo, votou contra o Governo e deu origem à segunda maior maioria de votos conjuntos do PS e do PCP desde 1984. Por isso, o Governo saiu derrotado.

Nunes Liberato (PSD): Comparar eleições autárquicas com legislativas é em nosso entender - sempre o dissemos - uma mistificação. Não atingimos o nosso objectivo eleitoral, que era o ambicioso e alto! Não conseguimos atingi-lo! É a pura das verdades! Não queremos mistificar nada!

Ao fazermos um balanço destas eleições, verificamos que todos temos pontos positivos e negativos, até porque se há algo que ressalta delas é a personalização de que foram alvo. E até posso dizer que obtivemos resultados positivos e negativos inesperados. Se os partidos da oposição forem honestos também dirão o mesmo.

Octávio Teixeira (PCP): A derrota eleitoral do PSD é inequívoca. Mas essa derrota é também do Primeiro-Ministro e do Governo, os quais se empenharam de corpo inteiro na campanha eleitoral para tentar evitar a derrota do seu partido.

É justo sublinhar os resultados obtidos pela CDU na Área Metropolitana de Lisboa, onde continuamos a manter a clara maioria na Área Metropolitana e o Presidente da Junta Metropolitana.

As teses sobre o pretenso «esvaziamento do PCP» foram claramente derrotadas nestas eleições. Os positivos resultados eleitorais obtidos reconfirmam o PCP e a CDU como grande força do poder local, indispensável para uma alternativa efectiva ao Governo do PSD e à sua política.

António Lobo Xavier (CDS-PP): As eleições autárquicas decorreram num ambiente de civismo e de tranquilidade. Na verdade, havia algumas explicações para que, ocasionalmente embora, a paz eleitoral pudesse ter sido perturbada. Acaba até por ser surpreendente o judicioso «balanço económico» que, em muitos casos, as populações locais fizeram a propósito de candidatos acusados de irregularidades, apontados como trânsfugas e indicados como exemplos de falta de personalidade. Foram todos seleccionados cuidadosamente, deixando-se passar os úteis e abandonados os inúteis, de uma perspectiva local, mas, o que é mais importante, raramente se transigiu com a corrupção.

Se se deixar de lado a questão formal do cumprimento dos objectivos a que cada partido se propôs, ninguém tem razões para se sentir politicamente deprimido. Mas a questão fundamental é a de que, se ninguém tem razão para ter uma depressão política pós-eleitoral, ninguém poderá também encontrar causas para grandes exaltações. A verdade é que os resultados destas eleições não traduzem um profundo rearranjo das forças políticas. É provável, portanto, que, em termos gerais, a tentativa de nacionalizar as eleições locais tenha falhado, ao menos parcialmente.

Estas eleições trouxeram também duas lições e, curiosamente, ambas em Lisboa. Uma lição de dignidade e de responsabilidade política na assunção dos resultados, uma lição de urbanidade e de civismo democrático, protagonizada pelo vencedor em Lisboa e, ao mesmo tempo, uma lição de indignidade, de falta de carácter e de fair play e de saber perder em democracia, vinda, curiosamente, do candidato derrotado. É bom que também estas lições aproveitem ao País!

publicado por Carlos Carvalho às 02:19
link do post | comentar | favorito
|

.autor

. Carlos Carvalho

. cesaredama@sapo.pt

.pesquisar

.artigos recentes

. Elites à rasca?

. Versões de Portas

. A maior de sempre?

. Fama

. Passos

. Escalões

. Obrigadinho

. Não entendo

. Coincidências

. O aleijadinho de Alijó

. Humor negro

. Calendário

. Manuais escolares em .pdf

. Guerra ao imposto

. Cuidado com os ciclistas ...

.arquivo

.sugestões

.sugestões

blogs SAPO

.subscrever feeds