Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

Cavaco, 1992

Considera ainda a política "a pirueta, o floreado, a retórica"? Palavras suas.
Da campanha eleitoral, com certeza?

Da pré-campanha.
De um período de luta, portanto. Repare, quando fui eleito presidente do PSD, em 1985, os portugueses estavam cansados de um excessivo verbalismo, de promessas vãs, de políticos muito hábeis em jogadas palacianas. Procurei, de facto, tirar benefícios desse estado de espírito, do desejo de outro estilo e de outros métodos.

O dr. Mário Soares começou a fazer-lhe uma espécie de fronda.
(...) Como primeiro-ministro, considero que a atitude do Presidente da República não justifica reparos significativos. De resto, não me pronuncio sobre o assunto. O Presidente da República e o primeiro-ministro têm de dar uma imagem de estabilidade ao País.

O que não impede que o dr. Mário Soares seja cada vez mais o centro da oposição.
Quando o Governo e o primeiro-ministro entendem que o Presidente da República se está a substituir à oposição devem tratar do caso com ele próprio e nunca, nunca, na praça pública.

O prof. Adriano Moreira disse, em 1987, que a sua maioria tinha transformado o regime num presidencialismo do primeiro-ministro. Se for eleito Presidente da República e essa maioria continuar, passamos ao presidencialismo puro. Ou não?
Não. A Constituição não permite.

Suponha que é Presidente da República, que nomeia o primeiro-ministro, que assiste aos Conselhos de Ministros...
Só por convite do primeiro-ministro.

Um primeiro-ministro do PSD, nomeado por si, certamente que o convidaria...
Não acredito. De maneira nenhuma. Defendo o espírito e a letra da Constituição. Não se pode torcer a Constituição ao sabor das conjunturas eleitorais.

Mas, nesta hipótese, a letra da lei seria respeitada, a prática é que mudaria.
Com péssimos resultados. Sempre que o Presidente da República, seja ele quem for, membro do partido do poder ou chefe do partido da oposição, interferir nas competências do governo cria inevitavelmente instabilidade no País. O Presidente deve ficar confinado às suas funções. Cabe ao governo conduzir a política geral do País. O Presidente não dispõe dos instrumentos necessários para o fazer e, se o fizer, fá-lo-á por força pela negativa...

Excepto na hipótese que lhe pus.
Mesmo nessa hipótese, o Presidente depressa entraria em conflito com o primeiro-ministro. Quando sair deste lugar, espero que quem me suceder, do PSD ou não, não prescinda das suas competências.

[Que] riscos internos [corre Portugal]?
Precisamos de uma oposição forte. Se ela não existir, aumentam as peregrinações ao Palácio de Belém para pedir ao Presidente da República que faça o que não lhe compete; ou aumentam as manifestações de rua. Prefiro a oposição partidária no seu lugar próprio: na Assembleia.

Cavaco Silva (entrevistado por Vasco Pulido Valente), revista K, 1992

publicado por Carlos Carvalho às 01:24
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