Hoje: Greve geral.
Amanhã: 25 de Novembro.
Manuais escolares em formato electrónico.
Disponibilizados para download pelas escolas e pelo ministério.
Poupava-se o ambiente.
Poupavam-se as costas dos alunos.
Dava-se alguma utilidade aos Magalhães.
Era uma ideia.
"Na acção governamental as dissensões são perpétuas. O partido histórico propõe um imposto:
- Caminhamos para a ruína! exclama o presidente do conselho O deficit cresce! O país está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc.
Mas então o partido regenerador, por exemplo, que está na oposição, brame de desespero, reúne-se o centro:
- Como assim! exclamam todos, mais impostos?
E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, conspira-se. Prepara-se o xeque ao ministério, vem a votação... Zás! Cai o ministério histórico.
E ao outro dia, o partido regenerador no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de S. Bento.
Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram, as transacções suspenderam-se, o crédito diminuiu, a opinião descreu mais, a fé pública dissolveu-se mais mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.
Abre-se a sessão parlamentar: o novo ministério regenerador vai falar.
- Tem a palavra o novo presidente do conselho.
- O novo presidente: Um ministério nefasto caiu perante a reprovação do país inteiro. O país está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. E a única maneira de nos salvarmos...
(Ouçam! Ouçam!)
É por isso que peço que entre já em discussão... o imposto que temos a honra, etc.
(Apoiado! Apoiado!)
E nessa noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição.
- Meus senhores, diz o presidente: O país está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder e já entra pelo caminho da anarquia e da opressão, propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o país a esta última desgraça! Guerra ao imposto!
Não, não! com estas divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos!"
Eça de Queirós, "As Farpas", Maio de 1871
Nota: Publiquei este texto neste blog a 5 de Junho de 2005. Achei por bem republicá-lo hoje.
Governo com 12 ministérios. Três ministros para o CDS.
Louçã deixou de ter causas para defender, daquelas típicas de um partido temático, em que se vota por um ou dois motivos específicos e não por uma visão ideológica global da sociedade. Quem, no passado, votou no Bloco por causa das bandeiras, deixou agora de ter razões para o fazer.
Quando já quase não restam bandeiras, repara-se mais na ideologia. E esta assustou muita gente, que (finalmente) se terá apercebido de que andava a votar num partido comunista. Pior, num partido comunista com um discurso igual ao do PCP. Para isso, basta o PCP.
O resultado está à vista: quem recusa o comunismo, recusou o Bloco; quem o perfilha, preferiu o original.
Votos inúteis? Ocorrem-nos imediatamente os votos em branco e nulos (223 mil votos nestas eleições), mas há outros.
Há os cerca de 505 mil votos que foram directamente para o lixo, ou seja, que não serviram para eleger qualquer deputado
Há ainda os votos que, não indo directamente para o lixo, vão lá parar numa segunda fase: são os votos acima do necessário para obter um determinado mandato (e que ainda não calculei).
Os votos que não elegeram qualquer deputado representaram cerca de 10% dos votos validamente expressos. Somados aos votos em branco e nulos, representam mais de 13% das pessoas que foram votar. E ainda haveria que lhes adicionar os votos supérfluos para a eleição de um determinado deputado.
É muito voto. É muito desperdício. Algo terá de mudar no nosso sistema eleitoral.
Prince Richard: He's here. He'll get no satisfaction out of me. He isn't going to see me beg.
Prince Geoffrey: My you chivalric fool... as if the way one fell down mattered.
Prince Richard: When the fall is all there is, it matters.
James Goldman - "The Lion in Winter"
Dia de reflexão. Sábado de Aleluia, chamam-lhe muitos, já saturados de tanta campanha eleitoral. Dia inútil, acharão outros, que não se importariam de ver a campanha eleitoral prolongada até ao fecho das urnas. Dia estranho, parece-me a mim, jamais deixando de me surpreender com a súbita mudança de tom da programação noticiosa.
Esta mudança ocorre logo ao bater das doze badaladas, quando a azáfama de fim de campanha se transforma instantaneamente em silêncio absoluto. Ao bom estilo de Craig Ferguson, quando os seus convidados optam por uma akward pause para terminar a entrevista.
Eis uma boa maneira de curtir a ressaca do debate político: pôr em dia os Late Late Shows de Craig Ferguson, o melhor programa do Late Night americano (pelo menos daquele a que tenho acesso). O próprio apresentador disponibiliza o seu programa na Internet, via Youtube, poucas horas após a sua emissão (horas e não semanas, como acontece com outros talk shows que passam na nossa TV por cabo).
Campanha eleitoral? Balls!
Obs: Excerto do artigo “Não Vou Votar”, de Carlos Abreu Amorim, publicado no Diário de Notícias de 19-01-2011. Sim, de 2011.
Solaris. Planeta estranho, com capacidades únicas. Capaz de ler a mente dos que o orbitam. E de materializar as suas ilusões.
Como reagem os humanos a esta materialização? De maneiras distintas. Uns regressam à Terra, preferindo a realidade à ilusão. Outros enlouquecem e suicidam-se. Outros ainda entregam-se a Solaris, cientes da ilusão, mas tão doce, tão melhor do que a vida que tinham e que teriam outra vez se voltassem à Terra.
Em Portugal, e a avaliar pelas sondagens, muitos optariam por viver em Solaris. Só que Solaris não existe. Queiram ou não, resta-lhes a realidade.
Ou a loucura.
Catroga foi de férias. Deixou de se enfatizar a economia. Floresceram os pentelhos.
Não é Catroga que está a precisar de uma estada no Brasil. É a campanha eleitoral que está a precisar, urgentemente, de uma brasileira.
– “Troika não. Triunvirato” – corrigiu-me o João, numa destas noites em que costumamos jogar conversa fora no bar do António. Fã confesso de Paulo Portas, não vale a pena retorquir-lhe com a sensibilidade variável de Portas aos estrangeirismos consoante a sua geografia. “Troika” não que é feio (é russo e basta), mas vai-se ao seu manifesto eleitoral e lá encontramos, a espaços é certo, americanices tão fashionable como “cluster”, “outsourcing”, “task force” e “benchmark”. Inglês técnico, passemos à frente.
– “Triunvirato não, pá, que me lembras os romanos, com aquelas togas e tudo” – respondo, por sobre a música, ao mesmo tempo que procurava imaginar a efígie de Poul Thomsen com uma daquelas pencas à Júlio César plantadas no meio da cara. Não, ainda não estou assim tão bêbado.
– “Triunvirato? Estão a falar do quê?” – intromete-se o Pedro, que tem este hábito ligeiramente irritante de entrar nas conversas a meio – “Ah, de economia. Que parvoíce a minha. Como ouvi falar em romanos, pensei que estivessem a falar daquele período imediatamente antes do fim da República.”
Fez-se silêncio. – “Caramba, será que o Paulo Portas tem razão?”
Nota: Texto originalmente publicado no Delito de Opinião, por amável convite de Pedro Correia.
Os turbantes, convenhamos, não passam despercebidos. De tal modo que pensei tratar-se de uma estratégia nova do PS nesta campanha: apelar ao voto junto das comunidades de imigrantes, habitualmente mais propensas à abstenção. A vida está difícil, e todos os votos são bem-vindos.
Piedosas intenções. Infelizmente, não confirmadas. Tudo não passou afinal de uma encenação. Sócrates pôs figurantes a fazer de alunos quando visitou escolas. Alguém se espanta que ponha agora figurantes a fazer de apoiantes quando visita o país?
O problema terá sido arranjar figurantes. Parece que não havia gente suficiente para fazer de apoiante de Sócrates. Pelo que, sem alternativas, o PS terá recorrido à solução do costume: entregar a imigrantes aquelas tarefas que os portugueses rejeitam.
Posso estar enganado, mas acho que Al Gore nunca chegou a ser algemado.
Gosto da Volta à França. De a acompanhar pela televisão. Gosto do espírito de sacrifício, do trabalho de equipa, da narrativa única que cada etapa oferece. Gosto de assistir à ascensão dos heróis, se não ao Olimpo, pelo menos ao Tourmalet ou a Alpe d'Huez. E gosto dos comentários de Marco Chagas.
Aprendi com Marco Chagas que, nestas etapas de montanha, muitos ciclistas dão tudo por tudo para permanecerem no pelotão da frente. Para não descolarem dos melhores, apesar de não estarem à sua altura. Só que a subida é longa, e o desfecho (quase sempre) inevitável: um a um, estes ciclistas estouram, acabando por se arrastar montanha acima, amiúde ultrapassados por aqueles ciclistas que, tendo optado por não acompanhar o pelotão da frente, acabam por encontrar o seu ritmo e terminar a etapa numa posição digna.
Não percebo por isso a imagem, roubada ao ciclismo, usada entre nós aquando da adesão ao euro. Portugal teria de integrar o pelotão da frente. A qualquer custo. Apesar de não ter fôlego nem pernas para o acompanhar.
Nunca um estouro foi mais fácil de prever. Mesmo por quem não percebe muito de economia. Bastaria apenas assistir ao Tour.
Passos Coelho ganhou o debate que o opôs a Sócrates. Ganhou ao adversário. Mas, sobretudo, ganhou uma nova imagem junto de muitos que dele duvidavam.
A partir deste debate, e a menos que algo de extraordinário aconteça, só valerá a pena colocar dois cenários pós-eleitorais: ou o PSD obtém maioria absoluta sozinho ou em coligação com o CDS. Passos Coelho será primeiro-ministro. Sócrates passou à história. Paulo Portas que se cuide.
Israel teve, em 2009, eleições antecipadas para o Knesset. Disputa renhida entre o Kadima, liderado por Tzipi Livni, e o Likud, liderado por Benjamin Netanyahu.
O Kadima teve mais votos. Elegeu mais deputados. Tzipi Livni declarou-se vencedora das eleições, e esperançosa de vir a ser convidada pelo Presidente Shimon Peres para formar governo.
Só que ninguém conseguiu maioria absoluta, o que tornou obrigatória uma coligação. Tendo havido um crescimento dos partidos mais à direita, acabou por se tornar evidente que o partido em melhores condições para formar governo seria o Likud. Pelo que Shimon Peres optou por Benjamin Netanyahu para primeiro-ministro.
Esta foi a primeira vez que o presidente não convidou o líder do partido mais votado para formar governo. As circunstâncias obrigaram-no a quebrar a tradição.
Conta-se que Vicente Matheus, histórico presidente do Corinthians, terá dito um dia que “gostaria de agradecer à Antarctica pelas Brahmas que nos mandaram”.
Em Portugal, esta frase seria algo do género: “gostaria de agradecer à Super Bock pelas Sagres que nos mandaram”.
Parece piada? Atente-se então nas fotografias da entrega do troféu de vencedor da Liga ao FCP. Quem patrocinou a entrega do troféu da Liga Zon Sagres? Nada mais, nada menos do que a Super Bock.
Piada antiga de Vicente Matheus. Recauchutada agora em piada de português.
Diz o PS, no seu programa eleitoral, que pretende consolidar a aplicação do Acordo Ortográfico em Portugal e nos países da CPLP.
Repito: o PS compromete-se, no seu programa eleitoral, a consolidar a aplicação do Acordo Ortográfico.
Pena é que o próprio texto do programa eleitoral do PS não respeite o Acordo Ortográfico cuja aplicação diz querer promover.
José Sócrates afirmou, no debate com Jerónimo de Sousa, que o acordo com a troika é muito semelhante ao PEC 4. Ou seja, as medidas que o FMI e seus aliados pretendem aplicar em Portugal são muito semelhantes às propostas há meses pelo seu governo.
Então porque andou Sócrates tanto tempo a diabolizar o FMI? E a protelar a sua ajuda? E porquê não estar disponível para governar com alguém que pensa como ele?
Há aqui alguma coisa que não bate certo. Se as medidas do FMI são semelhantes às do PEC 4, então só se pode concluir que os problemas que o país enfrenta já estavam diagnosticados há uns meses, e que não foi a crise política a provocá-los ou a agravá-los por aí além.
Colocaria a ênfase contudo no aspecto económico. Porque não se rega a floresta? Porque não paga o investimento. Tão simples quanto isso. Se o pagasse, toda a floresta seria irrigada.
Ganha-se menos com a floresta do que com a generalidade das culturas agrícolas – sobretudo as de regadio. Daí estas últimas verem-lhes destinados os melhores solos, ficando as florestas com os solos menos aptos (ou mesmo sem qualquer aptidão) para a agricultura.
Instalar culturas florestais em zonas de regadio poderia parecer uma daquelas ideias extravagantes oriundas de um qualquer país do médio oriente encharcado em petrodólares. Em Portugal, esta ideia é uma loucura e uma idiotice.
Ou então alguém andou a instalar regadios (ou seja, a gastar dinheiro) em zonas onde estes manifestamente não se justificavam, e pretende agora utilizar a floresta para mascarar a sua incompetência.
... em que isto passava na televisão com um bip. Ainda bem que os tempos mudam.
Admitamos que o PS é o partido mais votado mas que o PSD + CDS têm a maioria absoluta dos deputados.
Neste cenário, Paulo Portas poderá vir a escolher quem será o próximo primeiro-ministro. Sendo que o seu preferido será sempre Passos Coelho. Não só por ser o que lhe está mais próximo. Não só por ser a única solução admissível por grande parte do seu eleitorado. Mas sobretudo por ser o que estará mais fraco, logo em pior posição negocial.
Contrariamente ao que ouvi num debate televisivo, o Presidente não pode marcar novas eleições se estas não forem esclarecedoras. Este parlamento terá sempre um período de vida mínimo de seis meses. Pelo que será com este parlamento que deverá ser encontrada, rapidamente, uma solução governativa maioritária e estável.
À partida, a solução mais estável é a que Portas naturalmente escolherá: governo PSD+CDS. Mas que o PSD poderá não querer. Passos Coelho pode não querer ser primeiro-ministro nestas circunstâncias, demitindo-se. O PSD poderá não querer Passos Coelho nestas circunstâncias, forçando a sua demissão e procurando aliar-se ao PS (antes subalterno do PS do que refém do CDS, diria muita gente do PSD).
Neste cenário, Portas pode fazer de Passos Coelho primeiro-ministro. Mas o PSD poderá preferir Sócrates.
As regras do tipo “saem cinco, entra um” que se pretendem aplicar à função pública têm duas consequências.
A primeira, óbvia, é a diminuição do número de funcionários.
A segunda, menos falada, é o aumento da idade média dos funcionários. Ou seja, o envelhecimento da função pública.
Quem quiser conhecer os efeitos a prazo deste tipo de medidas, basta-lhe dar uma volta pelo interior do país. Aí, há já muito tempo que são mais os que desaparecem do que os que nascem. Resultado: o interior está desertificado e envelhecido.
A prazo – a curto prazo – também a função pública corre esse risco. Pelo que quem defende estas medidas deveria anunciar o seu limite temporal e/ou o limiar de funcionários públicos a atingir.
Muitos serviços da administração pública deixarão muito em breve de ser viáveis. De serem capazes de cumprir as funções que lhes estão atribuídas. Por falta de pessoal e de know-how. Como manter estas funções na esfera do Estado se este não tem nem pessoal nem dinheiro para as manter?
Não é possível, a partir de um certo ponto, diminuir o número de funcionários públicos sem reduzir as funções que o Estado tem de assumir. Redução essa que, idealmente, deveria estar definida antes de se avançar para medidas do tipo “cinco conta um”.
Passos Coelho sugeriu que pretende juntar o ministério da Agricultura ao do Ordenamento do Território. Ou seja, pretende fundir os ministérios da Agricultura e do Ambiente.
Passo em falso, como rapidamente verificará. Saco de gatos, nome informal deste novo ministério.
O ministério do Ambiente – tal como muitas das pessoas oriundas dessa área – olha para o grosso da Agricultura como um inimigo, como uma actividade poluente e perturbadora da Natureza, que deve ser controlada e limitada tanto quanto possível.
Não é por acaso que a Agricultura foi votada ao abandono durante os governos de Sócrates – oriundo, como se sabe, do Ambiente.
Sócrates arranjou dinheiro para as ventoinhas gigantes. Sócrates arranjou dinheiro para os painéis solares. Sócrates arranjou dinheiro para o TGV. Sócrates deixou perder fundos comunitários por não ter querido arranjar dinheiro para a Agricultura.
Talvez o novo ministério venha a ser controlado pela Agricultura. Rebelião à vista no Ambiente.
Talvez o novo ministério venha a ser controlado pelo Ambiente. Ainda maior desprezo governativo para a actividade agrícola.
Talvez o novo ministério não seja controlado por nenhum dos ministérios anteriores. Inimigos íntimos forçados a compartilhar o leito.
Má ideia, Passos Coelho. Má ideia.
. cesaredama@sapo.pt
. Cuidado com os ciclistas ...
. Palpite
. Bloco
. Solaris
. BLOGUES:
. Abrupto
. Cognosco
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. OUTROS:
. INE
. Pordata
. YouTube